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Petiscos



Creme de natas
com alface
e camarão



Chamam-lhe cocktail, o que quer dizer na elegante linguagem de Sua Graciosa Majestade rabo-de-galo ou, aligeirando, cauda-de-galo. Enfim, eles lá sabem. Temos assim “creme de natas com alface e camarão” e só com o nome fica o segredo da receita a descoberto. Ao contrário do que parece – porque quando se fala de marisco, a malta, desconfiada, joga logo a mão à carteira – esta receita é das mais baratas dentro do seu género.
Porque o camarão é vendido ao tamanho e se os maiores são caríssimos e se destinam a ser grelhados, os mais pequenos são pouco dispendiosos e dão para fazer este tipo de combinações. Já me esquecia, pelo menos nos camarões, por enquanto, evite a aquacultura. 
Compram-se então camarões pequenos, congelados e baratos. Cozem-se, espera-se que arrefeçam e descascam-se. Quem entender pode ainda abri-los ao meio e tirar, dentro do possível, a tripa escura. Deu trabalho? Deu, mas está pronto.
Como se disse acima, esta receita não tem maionese. Este é – digamos assim – o seu segredo. Leva nata, ketchup e um vinho “fino”, seco. Na prática, o ideal em bebida alcoólica para este fim é um vinho espanhol do Gerês, mas um bom vinho Moscatel de Setúbal serve perfeitamente. 
Faz-se uma mistura destas: metade de natas – melhor se forem mais consistentes –, um quarto de ketchup e, finalmente, um quarto de Moscatel. Mas há tanta variedade de natas como há de ketchup como há de Moscatel. Tirando estas indicações base que dei tem de ser o meu estimado leitor a ir compondo esta melodia. Tem que sair um creme com pouca espessura, ligeiramente rosado, com um forte aroma a Moscatel e sem saber nem a ketchup nem a nata. 
Concluamos. Noz-moscada e pimenta preta acabadas de rapar, menos pimenta, mais noz. Molho inglês de preferência do original. Molho de malagueta sem óleos nem azeites. Já disse muitas vezes porquê: têm tendência a criar ranço. Um dia falaremos longamente sobre isso. Finalmente sal, por que não marinho?
Junta-se o camarão, dá-se uma ou duas voltas com a colher de pau. Como é que se sabe que está bom? Lambe-se a colher. Se necessário, retificam-se os temperos. Vai para o frigorífico.
Entretanto comprou-se boa alface, daquela que é quase branca e que tem o gélido nome do letal instrumento de desastre do Titanic. Digamos assim para evitar a menção, sempre desagradável, a marcas. Corta-se em juliana fina. Frigorífico com ela. 
Serve-se diretamente para a mesa em taças apropriadas – isto na prática quer dizer que será as que tiver em casa –, com a alface em baixo e o creme com os camarões em cima. Se lhe sobrarem camarões pendure um da borda da taça com a cabeça por descascar. Fica bonito.
Merece espumante, olhe, e já agora do bom. Há português, é desse!

António Almodôvar    




 

 




 
 
 
 
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