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“A preguiça não é um mal em si”
 
14-10-2016 9:29:32
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Há um dia inteiro, e internacional, com data assinalada no calendário e tudo, para o direito à preguiça. Um dia que ignora pecados capitais e que defende o “dolce far niente”. Ou seja, a agradável ociosidade. Antevendo este dia, que se comemora em novembro próximo, fomos descortinar, afinal, o que é isto da preguiça. E quem aceitou o desafio de a descortinar e desconstruir foi Ana Matos Pires, psiquiatra, Olinda Gil, escritora, Santiago Macias, político, Paulo Lima, antropólogo, Cláudio Torres, arqueólogo, e Susa Monteiro, ilustradora. Ei-la, a preguiça, da perspetiva de quem não teve preguiça de a pensar.

Texto Bruna Soares Ilustração Susa Monteiro

O Dia Internacional da Preguiça, que se assinala em novembro próximo, foi instituído para lembrar que “o descanso é importante para o bem-estar”. Por se defender que, por vezes, “é melhor descansar e não fazer mesmo nada”.
Acontece que a preguiça é, segundo a Igreja Católica, que foi quem os definiu, um dos sete pecados capitais. Uma das condições humanas conhecidas como vícios. Já o dicionário define preguiça como “propensão para não trabalhar. Demora ou lentidão em agir. Gosto de estar na cama, de levantar tarde”. Não confundir, porém, com a folivora, um mamífero da ordem pilosa, popularmente conhecida por preguiça, porque o seu metabolismo, lá está, é muito lento. 
E se não fosse apenas e só isto e fosse muito mais? Ou se não fosse nada disto? Fosse o que cada um entendesse, sem definições rígidas? Perguntámos a quem não teve preguiça de responder. E o que se segue, sem direito a momento de pausa, é a preguiça aos olhos de uma escritora, de um arqueólogo, de uma psiquiatra, de um antropólogo, de um político e de uma ilustradora. 
“Para além de ser um ‘bichinho delicioso’, é muitas coisas ao mesmo tempo: uma necessidade, um risco, uma mais-valia, um perigo, uma maravilha, uma chatice. Enfim, não é um mal em si”. Quem arrisca primeiramente na definição é Ana Matos Pires, diretora do serviço de psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba). Que aproveita ainda para deixar claro: “A preguiça não é uma patologia. Mais, uma das suas definições, que são muitas e diferentes em si, aponta para o ócio, para o prazer, tão importantes na manutenção da saúde mental”. Mas quando “usada como sinónimo de sonolência, passividade, falta de motivação, ela pode, nesses casos, ser um sinal de diferentes patologias, nomeadamente de narcolepsia ou de depressão. Ainda neste sentido polissémico ela pode também ser o resultado de diferentes patologias das quais realço a obesidade”. 
Já para Cláudio Torres, diretor do Campo Arqueológico de Mértola, “a preguiça é certamente um conceito inventado por quem sempre foi saciado, teve uma vida de abundância e, sobretudo, nunca passou fome”. E prossegue: “É um conceito sempre utilizado por quem vive à custa de outros que têm de trabalhar. É um conceito inventado por gentes do Norte frio quando se referem aos do Sul, aos do Mediterrâneo, aos dos países quentes. É um conceito inventado pelas sociedades protestantes da América do Norte quando se referem aos mexicanos sem trabalho, quase sempre sentados e acocorados sobre o seu sombrero”. A preguiça é finalmente, segundo defende, “uma necessidade biológica de parar e esperar quando a fome aperta”. 
Mas Susa Monteiro, ilustradora, é mais pragmática: “Para mim é um momento de descanso com sentimento de culpa”. É ela a autora das ilustrações que acompanham esta reportagem.
“A preguiça é um mal-entendido. Isto porque temos tendência a sentir culpa por algo que nos faz tão bem. Faz falta parar, pensar, ouvir música… Para mim, a preguiça é poder parar um pouco, com uma chávena de café ou chá na mão, sentir os raios de sol sobre a pele. Ou então, deixar-me estar um pouco na cama até tarde. Quantas vezes paramos para pensar?”. Esta opinião é de Olinda Gil, escritora, que acabou de lançar o livro Sudoeste. 
Já para Santiago Macias, presidente da Câmara Municipal de Moura, “preguiça é desistência. Imagina um velocista com preguiça? Um agricultor com preguiça? Eu não imagino. Quando vejo gente às nove da manhã a bocejar sem vontade, não imagina a revolta que sinto. A preguiça é coisa de gente com traseiro fofo, que não vai à luta, nem lhe apetece avançar. Os preguiçosos militantes (conheço alguns, com carteira profissional e tudo) acham, provavelmente, que a humanidade os tem de sustentar. Como o tal que apresentava como profissão ‘marido de professora”. Diferente da preguiça militante é a outra, transitória e saudável, aquela do ‘logo faço, que agora não me apetece’, um direito que todos temos. E que devemos usar, com moderação”. 
“A decisão de não fazer, de dar inteira liberdade ao corpo, é talvez um dos direitos capitais que todos devemos reivindicar”, finaliza, por sua vez, Paulo Lima, diretor da Casa do Cante.
E o facto de a preguiça ser o sétimo dos pecados capitais? “Ui, nunca entendi isso dos pecados capitais. Aliás, até Deus descansou ao sétimo dia, não foi? A preguiça tem importância, muita. Como quase tudo na vida, a sua importância, positiva e negativa, depende da dose e da situação”, defende agora Ana Matos Pires. 
“Isso de pecado é uma coisa religiosa. Mas bem pensado, pecado deveria ser a procrastinação. Essa malvada, filha da preguiça, é que nos desvia constantemente dos nossos objetivos”, afirma Olinda Gil. E depois é a vez de Paulo Lima pegar no assunto. “Alguns pecados capitais foram perdendo interesse. A preguiça e o ócio são tão importantes como o fazer, ou mais. O trabalho é antinatural, logo a preguiça é essencial no nosso viver. A chamada civilização ocidental e cristã tenta há séculos matar a preguiça. Coisas do capitalismo! Mas ela faz parte da nossa condição enquanto animais e animais portadores de cultura”.
“Na boca do religioso ou monge, cuja única função é rezar, é evidente que uma paragem, ou uma pausa mais alongada no trabalho de quem tem de trabalhar, é necessariamente considerada como pecaminosa preguiça. Se o monge ou o religioso, depois de uma refeição, se aconchega numa sesta reparadora, este facto nunca será considerado preguiça e, sim, naturalmente, de pausa para meditação”. Quem o disse foi Cláudio Torres. Enquanto Santiago Macias refere: “Essa ideia dos pecados capitais é uma seca. Tínhamos de os decorar todos na catequese: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, soberba e preguiça. Todos têm importância e todos nós usamos um ou outro, ao longo da vida. Não conheço ninguém que os tenha a todos. Muito menos em simultâneo. Isso seria, em linguagem de poker, um ‘royal straight flush’ dos pecados capitais. O mais simpático parece ser o da luxúria, segundo ouvi dizer. A preguiça é fonte de prejuízo. Lembro-me sempre de uma expressão popular em Moura: ‘trabalhar, nadinha’, coisa que um médico teria recomendado a determinado indivíduo”. 
Quem agarra agora na conversa é Susa Monteiro que argumenta que “se a preguiça vem quando estamos a trabalhar, devemos tentar combatê-la”. Acontece que “se a preguiça vem no pico do verão, em Beja, não há muito a fazer a não ser deixarmo- -nos levar…”. Ponto final, sem direito a mais argumentação.
Mas afinal quando é que uma ilustradora, uma escritora, um arqueólogo, uma psiquiatra, um político e um antropólogo se permitem à preguiça? “Sou preguiçosa quando tenho que ilustrar um texto de que não gosto”, atira Susa Monteiro. “Todos os dias. O pior é mesmo quando um escritor se permite à procrastinação. E isso também acontece todos os dias, pelo menos comigo”, diz, por sua vez, Olinda Gil. E é Ana Matos Pires que remata a primeira leva de intervenções: “Permito-me todos os dias, felizmente”.
Já o diretor do Campo Arqueológico de Mértola diz que a preguiça “é um facto cada vez mais comum entre os arqueólogos”. “A falta de trabalho, que não pode ser confundida com pouca vontade de trabalhar. A preguiça, aquele gesto tão saudável de tentar aproveitar uma sombra para recuperar forças depois de horas ao sol escaldante, aqueles momentos fugidios em que se larga a picareta para olhar atentamente o pequeno caco de cerâmica, são gestos, ou mesmo longínquas memórias, que se vão perdendo no esquecimento”.
Abonando em favor da sua classe, Santiago Macias diz que “os políticos são pessoas iguais às outras, embora estejam transitoriamente (sublinho o transitoriamente porque conheço alguns que parecem achar que são eternos e têm tiques imperiais) num cargo de comando ou de condução”. Por isso, em seu entender, “os pecados capitais dos políticos são iguais aos das outras pessoas. São, apenas, um pouco mais visíveis”. “Não me permito muito à preguiça porque a acho aborrecida. Momentos em que não apetece fazer nada? Todos temos, felizmente. Fazer disso regra, não dá. Só não acho aborrecido procurar sinónimos e atirá-los aos preguiçosos: madraço, varal, mandrião, malandro, molenga. Muitas vezes os preguiçosos são uns grandessíssimos maraus. Essa é que é essa. Posso garantir, em todo o caso, que não tenho uma língua preguiçosa”, finaliza.
É Paulo Lima, que garante que se permite à preguiça, que faz a última conclusão, para dizer: “É um dos meus direitos fundamentais… preguiçar-me. Sou um marxista que assume que o que devemos reivindicar é não o direito ao trabalho, mas antes à preguiça”.
Se chegou até aqui, é porque não teve preguiça de ler este texto que chegou ao fim. 



 
 
 
 
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