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Depois da tempestade, o Alentejo
 
22-04-2016 9:35:33
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Tamam, Adnam, Hussein e Abdal fugiram da guerra na Síria, atravessaram o mar da morte e desaguaram na capital do Baixo Alentejo com o estatuto de refugiados. Agora contam o terror que ninguém quer ouvir: o conflito no Médio Oriente, a travessia do Mediterrâneo, a espera por notícias da família.

Texto Filipa Coelho, Jéssica Ferreira e Juliana Mendes, alunos da Universidade Lusófona Fotos José Ferrolho


Para trás ficaram quatro filhos e a mulher, grávida de seis meses. Tamam tem 41 anos, vivia em Homs, na Síria. “Quando a guerra começou, fui apanhado num tiroteio e fui alvejado com dois tiros, um no braço, outro na perna”, conta agora, e diz que não quer falar mais sobre isso. O pai levou-o para a Jordânia, foi lá que foi tratado. O plano era voltar atrás para ir buscar a família, mas depois começaram os bombardeamentos e ninguém podia entrar no país. Então o homem meteu-se à estrada, chegou à Turquia. Daí meteu-se num barco, Mediterrâneo adentro, até à Grécia. O primeiro objetivo tinha sido alcançado: a Europa. O segundo, e principal, está por cumprir – trazer a família para porto seguro. É só nisso que Tamam pensa, todos os dias, desde que chegou a Beja. No momento em que vai poder voltar a beijar a mulher, abraçar a descendência, conhecer o filho que nunca viu.
A 7 de março de 2016 chegaram a Portugal 64 refugiados, num voo especial, vindos da Grécia. Quatro deles vieram para Beja: Tamam, com o seu pai Adnam, e os amigos Hussein e Abdal Baset. No decorrer dessa manhã, Vânia castanheira, psicóloga e técnica voluntária da Cruz Vermelha de Beja, chegou ao aeroporto de Figo Maduro e deparou-se com um cenário de solidão e angústia. “Numa sala, enquanto esperavam para ser distribuídos por localidades, vi famílias com filhos completamente desesperadas e em pânico. Sentia-se o medo e a solidão. Já os quatro refugiados que estão agora em Beja transmitiram-me uma sensação de alívio e conforto, como se vissem em nós a sua tábua de salvação.” 
Quando aterraram em Portugal, foi-lhes dito pelo SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que teriam acesso a boas condições de habitação, emprego e educação. Não foi bem assim. Por enquanto, estão muito longe da autonomia que desejavam. Um mês depois, continuam em casa, sem trabalhar e com a comida contada. Apesar de terem diversos apoios por parte da Cruz Vermelha, preferiam estar a trabalhar. No entanto, o que mais os preocupa é o tempo. Os seis meses que têm de permanecer sob a guarda da Cruz Vermelha são longos e duros. Aquilo que mais ambicionam é, afinal, começarem a ganhar dinheiro para trazerem as famílias, que continuam em sofrimento. “A calma está a matar--me os filhos”, lamenta Tamam.
Quatro paredes brancas. A sala está pouco iluminada e cheira a mofo. É aqui que os quatro refugiados vivem, numa casa térrea bem no centro de Beja, onde faltam mordomias mas há sempre chá para oferecer às visitas. Abdal Baset – ou Zé, como é tratado pela voluntária que os segue – conta que foi obrigado a fugir para não ser levado pelos terroristas. “O Daesh entrou em minha casa e levou toda a gente. Os meus pais e os meus três irmãos. Eu tive sorte, consegui escapar sem que me vissem.” Tem 20 anos, no peito traz o único tesouro que lhe sobra. É um fio que nunca larga, oferecido pela namorada pouco antes da fuga. “Quando cheguei à Turquia tentei ligar para ela, nada. Depois para a família dela e disseram--me que os guerrilheiros a tinham morto. Um tiro na cabeça.” E exemplifica, o indicador apontado à têmpora.
Com uma expressão facial muito marcada, carrega angústia ao recordar-se do massacre que viveu até chegar a Portugal. Pelo telemóvel vai mostrando fotos e vídeos do terror que experimentou: a família, a travessia de barco, passageiros a caírem borda fora e morrerem afogados. “O Mediterrâneo é o mar da morte e eu vi-a mesmo ao meu lado”. 
Zé sempre estudou, tem o 12.º ano e ainda sonhava poder ir para a universidade, ser engenheiro petrolífero. Com uma voz trémula diz-nos: “Eu preciso de ir à escola.” A Cruz Vermelha de Beja quer apoiá-lo, mas primeiro vai ter de aprender a língua. Às terças e sextas têm aulas de português em Évora, com outro grupo de refugiados. “Mas a professora é brasileira e tenta ensinar-nos a cantar músicas em português. Eu não gosto disso.”
O telefone e as redes sociais mantêm estes refugiados em contacto com o mundo que deixaram para trás. Vidas duplas, entre Beja e a Síria. A adaptação a Portugal, no entanto, não tem sido fácil. Numa região onde a carne de porco é o centro da gastronomia, torna-se difícil para os muçulmanos adquirirem as suas refeições. Só comem vaca, enlatados, arroz, macarrão e muitos ovos. Nesta casa o álcool é impensável. Coca-cola, por outro lado, há de sobra. 
São pessoas muito reservadas e não se dão com a população alentejana. Quando não vão à escola, Zé e Hussein têm como passatempo jogar à bola, num campo desportivo da terra. “Quero ser como o Cristiano Ronaldo”, diz o segundo, com uma voz tímida. Soltam-se largas gargalhadas na sala, enquanto Tamam nos conta que Hussein “é um grande pé de gesso.” Em contrapartida, os mais velhos passam os seus dias em casa, e muitas vezes jogam às cartas.
Adnam carrega já no seu corpo 88 anos. Foi dos poucos idosos que aguentaram fazer a travessia entre a Ásia e a Europa. Dos quatro foi o que veio com mais mazelas e problemas de saúde, tanto devido à turbulência da viagem como à idade que “já pesa”. Durante a viagem perdeu os óculos no mar, mas nem por momento algum fraquejou. Continuou na luta com o seu filho Tamam.
Sentado no sofá vermelho que se estende ao longo da sala, tem ao lado um colar de orações. Adnam é o único dos quatro que dedica algum do seu tempo à religião. “Sei que há uma mesquita aqui em Beja, mas nunca tive oportunidade de lá ir”, conta. Os anos pesam nos passos.
Amanhã, sexta-feira, irá realizar-se um almoço com os refugiados de toda a região do Alentejo e o Presidente da República, em Lisboa. O objetivo deste almoço é estabelecer uma relação com eles a fim de compreender melhor as necessidades e vivências de cada um.
Todos os dias Tamam vai ao SEF, para tentar saber se os seus documentos de residência já estão disponíveis. Sem eles, não pode chamar a família. Com tantas tentativas falhadas, este homem sente-se “defraudado e com falta de sorte.” Ao saber que vai poder estar e falar com o Presidente da República, mostra-se entusiasmado e diz-nos: “Quero falar muito com o chefe e contar--lhe a minha história.”
A vida já lhe pregou muitas partidas. Mas no fundo já se vê uma luz. No meio de tanta vontade de trabalhar, surge uma oportunidade a Tamam. Uma empresa de confeção de carros, situada em Palmela, está atualmente interessada em colaborar com este homem. “Posso ser refugiado mas não consigo, nem gosto, de ganhar dinheiro sentado.”
Numa casa do centro de Beja, há quatro vidas em suspenso. Estes homens fugiram como puderam da escuridão da guerra. E agora, que desaguaram no Alentejo, podem finalmente aspirar a um raio de luz.



 
 
 
 
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