
No concelho de Odemira existe uma aldeia ecológica que pretende ser um modelo de funcionamento futuro de outras comunidades, utilizando os recursos do meio envolvente, numa lógica de sustentabilidade e paz entre os povos.
Texto Marco Monteiro Cândido Fotos José Ferrolho
Quem chega a Tamera, uma ecoaldeia em pleno concelho de Odemira, depressa esquece o caminho de terra batida que ficou para trás. Seco e árido no verão, lamacento e quase intransitável no inverno, é, por estes dias, um trilho tão vermelho quanto barro, tão seco quanto pó. Neste mesmo caminho, que é um ramal vermelho nos 20 quilómetros de alcatrão que ligam Relíquias a São Luís, não é incomum ver alguém a pedalar calmamente numa bicicleta. Muitos deles são estrangeiros, provenientes do Monte Cerro, o terreno de 134 hectares com forma de águia a pousar onde se encontra Tamera.
Logo à chegada, o que desperta a atenção do visitante é o grande lago de margens verdejantes que ocupa um lugar de destaque na aldeia ecológica. A água tem um papel central no funcionamento desta que foi a primeira ecoaldeia a surgir em Portugal, e mais do que um simples lago ou barragem, esta é uma área de retenção de água, permitindo a infiltração do líquido no solo, tornando‑o menos seco e árido. Para além de ser utilizada na rega das hortas e dos jardins, a água da chuva que vai sendo armazenada durante o inverno e que, a pouco e pouco, vai sendo absorvida no solo, permite também a manutenção e o aparecimento de espécies animais, que, devido à desertificação dos solos, estavam a desaparecer.
A aldeia ecológica em pleno concelho de Odemira é um lugar de confluência das mais diversas nacionalidades. Com uma população constante de cerca de 160 pessoas, são muitos os que partem e os que chegam, até porque têm uma segunda residência noutro local. Este é o caso de Leila Dregger, uma das responsáveis pela aldeia e jornalista, alemã que divide o ano entre Portugal e o seu país de origem. No entanto, permanentemente, vivem cerca de 35 pessoas em Tamera.
Tamera apresenta-se como um Centro Internacional de Pesquisa para a Paz, sendo as bases do seu trabalho a alimentação, a água, a energia e o trabalho pela paz, nas palavras de Leila Dregger. Apesar de ainda não acontecer na sua plenitude, o objetivo desta comunidade é o de ser autossuficiente nos três pilares fundamentais do funcionamento de qualquer grupo humano: a alimentação, a água e a energia. Em torno da grande mancha que constitui a principal área de retenção de águas, nas suas margens férteis e quase exuberantes veem-se os membros da comunidade a trabalhar nas pequenas hortas, naquilo que é designado como a Paisagem de Permacultura Aquática, onde este sistema de gestão de água natural é uma primeira abordagem para a revitalização da paisagem e recuperação da sua fertilidade. O modelo de permacultura (um tipo de agricultura sustentável e sustentada feito em harmonia com o meio envolvente) seguido em Tamera é feito segundo o modelo Sepp Holzer, um agricultor de montanha austríaco e que frequentemente se desloca ao Monte Cerro como consultor e formador.
Nesta aldeia ecológica, a velha máxima do químico francês Antoine Lavoisier, de que nada se perde e de que tudo se transforma, está presente em tudo o que é feito. As casas de banho funcionam à base de compostagem, com a utilização de serradura, absorvendo o excesso de líquidos, sendo os resíduos retirados ao fim de alguns meses para uma pilha para que o processo de compostagem seja bem feito, criando uma espécie de fertilizante natural. “Depois usa-se esse composto para as árvores”, afirma Fátima Teixeira, “um canivete suíço” em Tamera, como se autointitula, já que faz um pouco de tudo, desde as relações públicas à organização de eventos. “Temos duas grandes mais-valias: poupamos água e temos um produto fertilizante que enriquece e dá estrutura ao solo”. Leila Dregger sublinha que este conceito é um pouco estranho para os visitantes de um dia, mas que “facilmente compreendem porque tem que haver um uso consciencioso da água”.
Quando a natureza faz o trabalho São 11 e 30 horas e o sol está quente, muito quente. Os membros da comunidade que trabalham nas hortas aproveitam algumas das muitas sombras disponíveis para descansar por breves momentos. Na cozinha que pertence à Aldeia Solar, são muitas as mãos que repartem tarefas na missão de preparar o almoço, à base de produtos biológicos, produzidos em Tamera ou comprados, preferencialmente, a produtores da região, e sem derivados animais.
No campo experimental que é a Aldeia Solar, o sol, o mesmo que abrasa montados e serranias em volta e que muitas vezes é apontado como responsável pela desertificação e aridez dos solos, é aqui aproveitado de uma forma engenhosa. As explicações são dadas por Douglas Bailey, um engenheiro físico inglês que está na comunidade, e que domina a parafernália de instrumentos de aspeto inusitado. O objetivo do espaço é o de aproveitar a luz do sol como fonte de energia para um funcionamento efetivo e eficaz de uma pequena aldeia. Entre os aparelhos disponíveis é possível bombear água até uma profundidade de 50 metros, numa torrente contínua, através da dilatação e compressão do ar pelo calor solar; cozinhar através de placas que refletem o calor para dentro de uma espécie de fogão; fazer alimentos a vapor ou aquecer panelas através da energia solar. Leila Dregger considera que este sistema de aproveitamento da energia solar para o funcionamento de uma aldeia é fundamental, principalmente em locais desfavorecidos e desertificados, como em África.
Ao lado da cozinha, uma estufa de telhado refletor aproveita, também ela, a energia mais abundante no Alentejo. Um pouco mais ao lado, dois outros sistemas: um que permite a secagem de alimentos através do aquecimento do ar pela luz do sol, que ao subir seca, por exemplo, frutas que estão dispostas em camadas, permitindo uma maior duração e conservação dos bens; e outro, que através da conjugação de bactérias presentes nas fezes das vacas e os restos orgânicos das refeições, permite fazer uma fermentação, criando biogás para a confeção da alimentação. Segundo Douglas Bailey, “as bactérias é que têm o trabalho todo”. Este é um processo recente na Aldeia Solar, estando ainda em experimentação. No entanto, já é possível ter uma ideia de alguns resultados: um balde de restos orgânicos resulta em quantidade suficiente de biogás para duas horas a cozinhar. Enquanto isso, todo o almoço, preparado única e exclusivamente através destes sistemas, está pronto.
Num dos pontos mais altos de Tamera está o Círculo de Pedras, um espaço inspirado no Cromeleque dos Almendres, em Évora, monumento megalítico. Quem observa a área circundante a partir deste espaço de celebração, onde cada pedra tem um símbolo gravado significante de um aspeto importante no funcionamento de uma comunidade, tem a perceção da quantidade enorme de espaços verdes em todo o território. Paisagem comestível é como lhe chamam os membros da comunidade, onde quase tudo o que embeleza ajuda a natureza a manter o seu equilíbrio, ao mesmo tempo que se pode comer. Leila Dregger refere que é possível alguém ir caminhando e colhendo algo para comer.
Paredes meias com a Aldeia Solar está a Aldeia da Luz, em homenagem à terra alentejana que ficou debaixo das águas de Alqueva. Neste espaço, mulheres mais velhas pretendem ensinar técnicas antigas a mãos mais jovens. Artesanato, utilização de ervas ou costura são alguns dos ensinamentos que se vão fazendo e transmitindo. Alice, uma alemã que está há 10 anos em Tamera, está prestes a ser bisavó dentro de dois meses, com os seus descendentes a viverem também na comunidade. E Alice, costureira, remenda e recicla roupa, coordenando um espaço que, também ele, é inovador: dos membros da comunidade, quem precisar ou gostar de uma peça de roupa, só tem que entrar, escolher e levar.
Como se mantém a Tamera
A comunidade Tamera – Centro Internacional de Pesquisa para a Paz existe no concelho de Odemira desde 1995, altura em que foi comprado o Monte Cerro. A teóloga Sabine Lichtenfels, o sociólogo Dieter Duhm e o físico Charly Rainer Ehrenpreis, alemães, decidiram fundar uma comunidade para funcionar como centro de pesquisa para a sustentabilidade social e ecológica, fruto do trabalho que já desenvolviam na Alemanha.
Segundo Leila Dregger, a comunidade consegue manter-se economicamente de duas formas diferentes. “O investimento em novos espaços é feito através de doações, angariação de fundos junto de fundações ou de mecenas que nos apoiam. Basicamente, são pessoas que estão interessadas neste tipo de pesquisas”. Quanto ao funcionamento diário, “a vida do dia a dia” como refere Leila Dregger, as receitas provêm dos seminários, dos visitantes que ficam na comunidade. “No entanto, os membros da comunidade assumiram um compromisso que é o de contribuírem a cada quatro meses, quando é feita uma análise aos fundos, caso haja necessidade”. Isto é possível porque muitos dos membros passam parte do ano fora, a trabalhar para poderem investir na comunidade o resto do ano.