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Uma nova vida para a lã alentejana
 
13-02-2015 9:37:15
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Falar de mantas de lã, que podem chegar a pesar cinco quilos, nestes que têm sido os dias mais gelados do ano, parece um assunto oportuno. Mas não foi esse o pretexto. As mantas tradicionais do Baixo Alentejo e outras peças afins, feitas em Mértola, mostraram-se recentemente em Madrid, numa feira internacional de moda, juntamente com outros produtos que, embora confecionados noutras regiões, usam como matéria-prima a lã da ovelha campaniça, raça autóctone da região. A ação é apenas uma entre as várias que estão a ser desenvolvidas no âmbito do projeto FIOS, coordenado pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM), cuja missão é salvar a arte ancestral da tecelagem, bem como a pastorícia e a paisagem que lhe está associada. Como? Procurando novos usos para a lã.

Texto Carla Ferreira Fotos José Serrano


Na subida da rua da Igreja, aquela que dá entrada para as calçadas íngremes de Mértola, há um grupo de crianças que se senta ao sol, para a merenda do meio da manhã. O poial do n.º 35 está inacessível, tantos são os meninos, e as mochilas e as lancheiras, nesta sexta-feira fria de visita de estudo. Dali a minutos, vão ver e ouvir como se produzem mantas em lã, o produto nobre da tecelagem tradicional, e vão pasmar-se ao aprender que o processo, ali descrito, em registo de museu vivo, não mudou nada ao longo dos últimos 300 anos.
As guardiãs das mantas tradicionais do Baixo Alentejo, cujos motivos decorativos, acredita-se, vão beber à estética ornamental das antigas tradições berberes, estão a postos desde cedo, cada uma em seu tear, estruturas de madeira intrincadas que as fazem parecer pequeninas. Mas os gestos de entrelaçar o fio e “bater” não estão ensaiados “para inglês ver”. São efetivamente parte de um dia a dia de trabalho na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola, nascida nos anos 80, e a funcionar de porta aberta ao público desde há 15 anos, como Núcleo de Tecelagem do Museu de Mértola.
“Agora vou desmanchar a meada para poder fazer as canelas”, descreve Maria Helena Rosa, enquanto se desembaraça do tear e faz rodar a dobadoira. Não perde tempo. Enquanto fala, as mãos vão trabalhando automaticamente, sinal de que o gesto está já há muito entranhado. Não descende de tecedeiras. O tear surgiu-lhe acidentalmente na vida, na esquina dos 30 anos, como oportunidade de trabalho, numa fase em que “havia muita falta de emprego”. “Vi, no ‘Diário do Alentejo’, um anúncio de que ia haver uma formação de tecelagem, inscrevi-me, e quando acabei a formação fiquei a trabalhar na cooperativa”, lembra. Entretanto, passaram 27 anos, a experiência foi-se tornando saber e o saber fez-se gosto. Porque é isso, acredita, que determina quem fica e quem desiste. “Estes trabalhos artesanais são muito complicados e morosos e, além disso, não são muito compensados monetariamente. Se não gostarmos, não temos paciência”, reconhece, recordando que ali chegaram a trabalhar 16 mulheres, sendo que só as duas mestras é que saíram por reforma. “As outras saíram porque encontraram outras oportunidades de emprego melhor remuneradas”.         
Só para se ter uma ideia, uma manta de lã com o tamanho padrão (1, 90 por 2, 20 metros) pode chegar aos dois meses de trabalho. No tear, para uma tecedeira experimentada, são apenas duas semanas, mas para trás há todo um processo de que se encarrega a cooperativa desde a compra da lã, em bruto, acabada de tosquiar, por alturas de abril/maio, e que inclui a cardação e a fiação, feita por duas cooperantes, em casa.     
O resultado, reconhece Maria Helena, é um produto que “não é acessível” (545 euros + IVA) e que apenas enche o olho a quem tem “algum poder de compra e algum conhecimento sobre o nosso trabalho”, ou seja, alguém que dê o devido valor a uma peça que se faz, ainda hoje, segundo o mesmo processo e as mesmas técnicas usadas há três séculos. O que não é fácil. “A última manta de lã que a cooperativa vendeu, já este ano, foi para uma senhora investigadora que está a fazer um estudo nesta área na Universidade do Porto”, informa. Mas, por amor à arte, Maria Helena mantém o otimismo: “Eu estou sempre incentivando os jovens. É uma profissão que tem sido mal paga até agora, mas pode haver outras oportunidades no futuro”.
Na verdade, há quem esteja a tratar disso já há algum tempo. Na cooperativa/museu, a bagagem já está arrumada para seguir para Madrid no fim de semana. Além da imagem de marca, as tradicionais mantas, também seguirão na mala para exposição na Momad – Feira Internacional de Têxteis, Calçado e Acessórios, ao longo de três dias (entre 8 e 10), echarpes, cachecóis e bolsas, peças mais pequenas e vendáveis. A presença em feiras internacionais é apenas uma das ações do projeto FIOS – Fibras Naturais, Inovação e Sustentabilidade, iniciado em janeiro de 2014, sob a coordenação da Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM), e neste expositor vão cruzar-se peças contemporâneas e tradicionais, confecionadas por vários empresários têxteis. Em comum, quer produzam eles em Mértola, Sintra, Manteigas ou Viana do Alentejo, têm a matéria-prima. “Todos utilizam a lã de ovelha campaniça, a lã do nosso território”, a “fibra âncora do projeto”, que se debruça também sobre o algodão, o linho e a seda, explica Cristina Caro, técnica da ADPM.  
Depois de um trabalho de investigação, inventariação e promoção em torno da fileira da lã, através nomeadamente do museu vivo da Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola, ou de publicações como o recente livro Moirais de Mértola – Paisagens Humanas do Baixo Guadiana, sobre a atividade ancestral da pastorícia, a ADPM quer ir mais longe. Para garantir, não só a sobrevivência da tecelagem, como também de todas as atividades a montante. “Os artesãos estão envelhecidos e nós também não lhes podemos pedir muito mais; só temos é que lhes agradecer. Estar a falar com estes artesãos em termos de design, novos produtos e internacionalização… É uma responsabilidade que não lhes devemos dar”, comenta Cristina Caro. 
Por outro lado, sublinha a responsável, há a questão da “promoção das raças autóctones e a conservação da natureza”, nomeadamente da ovelha campaniça, produtora de uma lã de “tipo cruzado” e com “considerável potencial para a indústria têxtil”, cujo efetivo, neste momento, é “reduzido em relação ao que seria desejável”. Sobretudo tendo em conta o potencial internacional desta fibra, numa fase em que cresce o interesse dos consumidores, e logo da indústria, pelos materiais amigos do ambiente, os chamados “eco-friendly”.   
Informada pelos dados do Recenseamento Agrícola de 2009, Cristina Caro dá conta da existência de 2 220 000 ovinos em Portugal, sendo que “49 por cento estão na região do Alentejo, com uma média de animais por rebanho de cerca de 134, consideravelmente superior às restantes zonas do País”. A lã é, pois, um bem “transacionável” que já existe no território e que não tem tido a valorização devida. E são os próprios agricultores a reconhecê-lo e a lamentá-lo. O projeto FIOS está, assim, no terreno porque “os nossos produtores de ovinos precisam da valorização da lã e a arte milenar da tecelagem precisa de ser continuada”. 
O projeto, desenvolvido em parceria com várias entidades públicas e com cofinanciamento comunitário, terminará no próximo mês de abril, mas deixará atrás de si várias ações determinantes, que terão depois continuidade e aprofundamento no Centro de Competências da Lã, cuja constituição foi recentemente aprovada pela Secretaria de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar (ver caixa). 
Entre elas, estão o estudo e caracterização de cada uma das fileiras, e criação dos respetivos materiais promocionais, bem como ações de benchmarking junto de vários projetos europeus, que serviram de “inspiração” mas que funcionam sobretudo como “motivação”, realça Cristina Caro. A técnica lembra, por exemplo, a escola de pastores que visitou na região de Catalunha, Espanha, integrada no projeto Grípia, e que “resultou no aumento exponencial de uma raça autóctone, tal como nós desejaríamos que acontecesse aqui, e que começou exatamente pela valorização da lã”. 
Quanto às feiras internacionais, a Momad é apenas a primeira de quatro certames em que o projeto FIOS vai estar presente este ano, visando vários nichos de mercado. Nesta, em concreto, “interessa-nos o contacto com os criadores, nomeadamente designers e estilistas, que possam vir a incorporar nas suas criações estas fibras naturais do Alentejo”, adianta Cristina Caro. Mas este trabalho já começou, entretanto, a nível nacional, com uma parceria estabelecida com o designer de moda Filipe Faísca, que recentemente passou um dia em Mértola para conhecer e receber inspiração das artesãs da Cooperativa Oficina de Tecelagem e dos seus padrões ancestrais. O criador voltará em março com um “workshop alargado” sobre novas soluções para as fibras naturais do Alentejo, esperando-se que numa das suas próximas coleções já possam ser exibidos “alguns acessórios a incorporar a nossa lã”, acredita a técnica responsável. 
Entretanto, fez-se silêncio no museu. A visita de estudo chegou ao fim e Maria de Fátima Mestre, a nova tecedeira da cooperativa, desde abril de 2014, pode agora dedicar-se com toda a atenção à manta de retalhos em algodão que tem em mãos. Para breve estará a sua estreia nas tradicionais mantas de lã, o ex-líbris da casa, tarefa para a qual tem vindo, pacientemente, a preparar-se. Tem 60 anos e é a primeira vez que está na tecelagem, que abraçou por “gosto pelos trabalhos manuais” e na sequência de uma ação de formação. Sente-se grata pela “oportunidade” de ter ficado na equipa, ao lado da veterana Maria Helena Rosa, e não hesita em recomendar o ofício de tecedeira aos mais novos. “É um trabalho muito bonito”, elogia. 
E é também com afeto que Helena Costa, já reformada, se refere à cooperativa a que se dedicou ao longo de 27 anos, como tecedeira, e que visita regularmente, como se voltasse a casa para ver a família. Foi o caso nesta manhã. “Levo tudo desta experiência, tudo para mim foi muito bonito, tanto que já estou reformada mas continuo a vir ajudar quando posso”, confessa. E tece os seus votos para o futuro, ciente dos constrangimentos da arte: “Gostava que tivesse continuidade e que fosse como tem sido, que a tecelagem não fosse muito transformada. E que houvesse pessoas novas que gostassem da profissão e que tivessem interesse por aquilo que nós temos feito todos estes anos”.      

Centro de Competências da Lã a trabalhar desde Mértola



O secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar aprovou recentemente a constituição do Centro de Competências da Lã, organismo com abrangência nacional que está a ser coordenado pela ADPM e que “ficará naturalmente sediado aqui em Mértola”, informa a técnica Cristina Caro. Um organismo que tem como missão “produzir conhecimento nesta fileira, mas numa ligação estreita entre os agentes económicos e o sistema científico e tecnológico nacional, na ótica da valorização deste produto”. E que encerra um conjunto de ações, entre as quais “o melhoramento animal, através do apuramento de rebanhos para uma produção de lã homogénea, e a valorização em termos da transformação nas mais diversas aplicações, até chegarmos ao mercado, de uma forma muito organizada, muito competitiva, em cruzamento  depois com outros setores, como o turismo”. Intrínseco ao trabalho de valorização das fibras naturais, como a lã, está também o desenvolvimento da tinturaria natural, com base nas plantas tintureiras autóctones, área que já tem também o seu “grupo operacional” no seio do Centro de Competências da Lã. “Queremos posicionar a lã e os corantes naturais num outro panorama, seguindo um processo totalmente ecológico, para que o produto final tenha outra valorização, fixe pessoas e traga rendimento para o nosso território”, conclui a responsável.   CF 





 
 
 
 
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