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Começou a maior vindima de Portugal
 
28-06-2011 10:10:16
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A maior produtora nacional de uvas de mesa está no Alentejo e já exporta para vários países. Um verdadeiro exemplo a nível nacional. A especialidade da casa é a uva sem grainha e António Ferreira, proprietário da herdade Vale da Rosa, licenciado em medicina veterinária, apaixonou-se pelo fruto que continua a dar frutos. A maior vindima de Portugal começou em solo alentejano, no concelho de Ferreira do Alentejo, que celebra, entre hoje e domingo, a Feira Nacional da Água e do Regadio.

Texto Bruna Soares Fotos José Serrano

Os caminhos de terra batida estão secos. O sol quente enxugou a água que caiu em abundância no inverno e que impediu, muitas vezes, que homens e mulheres conseguissem entrar nos campos que escondem as raízes das videiras da herdade Vale da Rosa, a maior produtora nacional de uvas de mesa, no concelho de Ferreira do Alentejo.

A temperatura sobe no termómetro. É o primeiro dia de verão, mas aqui o que mais importa é que este é o primeiro dia que a uva desta colheita sairá para o mercado e os cachos, esses, têm de estar perfeitos e, sobretudo, saborosos. É o verdadeiro pontapé de saída na herdade, que se tornou famosa por produzir e ser especialista em uvas sem grainha. Começou a maior vindima de Portugal, e em solo alentejano, no concelho de Ferreira do Alentejo, que volta a celebrar a Feira Nacional da Água e do Regadio, entre hoje, sexta-feira, e domingo, 26. O regadio é, na verdade, o principal responsável pela continuação e crescimento de produção agrícola no concelho e na herdade Vale da Rosa já se perspetiva a chegada da água de Alqueva, a verdadeira garantia de futuro.

Aqui, a vista, a um primeiro olhar, alcança uma imensidão de plásticos e redes, que se erguem em estruturas. Os entendidos dizem tratar-se do sistema pérgula. Que é como quem diz: vinhas altas e protegidas. Mas a um segundo olhar mais atento descobrem-se os aclamados cachos que parecem cair do céu, ostentando bagos de cor branca e tinta. São as uvas beijadas pelo sol do Alentejo.

Imagine-se 230 campos de futebol cobertos por plástico e no chão cerca de 300 mil pés de parreiras. É esta a dimensão e a imagem que melhor descreve a herdade Vale da Rosa. Depois é a uva de qualidade quem mais ordena.

São os mesmos caminhos de terra batida, tantas vezes percorridos pelos trabalhadores do campo, que levam às videiras carregadas de fruto. Os altifalantes, instalados aqui e ali, projetam o chiar imponente das águias. O som repete-se constantemente e, por vezes, é acompanhado por o som de um disparo de canhão. Tudo para afastar os estorninhos, pássaro que aparece em abundância à procura do fruto. "São uns patifes", conta, entre sorrisos, António Ferreira, administrador da herdade, enquanto dirige o seu carro que avança entre as parreiras. O investidor agrícola dedica-se à produção de uvas de mesa de alma e coração. O gosto chegou-lhe cedo e foi-lhe transmitido pelo seu pai e também pelo seu avô. O sonho de António Ferreira é que os filhos também se apaixonem pela produção e que sigam com o projeto, que já dá cartas a nível internacional e que é um verdadeiro exemplo a nível nacional.

"Portugal consegue produzir produtos de excelente qualidade. O Alentejo tem condições incríveis e tem capacidade para acolher muitos projetos deste género. Nós somos a prova de que é possível. É preciso é que os agricultores invistam", considera António Ferreira.

Vale da Rosa exporta cada vez mais Os sons da águia continuam a ser reproduzidos e, depois, segue-se o barulho de um estorninho em aflição. Tudo para afastar e inibir a bicharada. Mas, por estes dias, o que mais se ouve na herdade Vale da Rosa são as conversas de homens e mulheres que avançam entre as videiras e que recolhem cuidadosamente os cachos, que irão ser colocados à venda no mercado nacional e internacional.

As tesouras cortam minuciosamente e no chão repousam as caixas, com a identificação da marca da herdade, que receberão a colheita. A vindima quer--se feita à base de muita amabilidade. Primeiro porque se trata da colheita de uvas de mesa e, depois, porque, como diz o ditado, "os olhos são os primeiros a comer". São, por isso, as mãos delicadas de várias mulheres que maioritariamente as colhem. Liliana Santos, uma das muitas vindimadoras, observa com atenção os cachos e tocas-lhe cuidadosamente. Pela cor consegue perceber se as uvas estão maduras. O chapéu envergado na cabeça protege-a do pouco sol que entra entre as parreiras. A temperatura, debaixo das videiras, está fresca, mas o suor do trabalho já lhe escorre pela cara. Liliana garante: "Gosto do que faço". A tradição da vindima já lhe está vincada no corpo.

Um pouco mais à frente com os olhos postos no topo da videira está Mariana Fortunata, uma das funcionárias mais antigas da herdade. Anda nesta vida há 11 anos. As roupas pretas escondem-lhe o corpo e o chapéu apenas lhe deixa uns fios de cabelo à mostra. "Aqui temos de ter muitos cuidados e muita atenção. A herdade é conhecida por produzir uvas de muita qualidade e nada pode falhar. Tudo é controlado até ao ínfimo pormenor", conta a mulher, que concorda com esta "maneira de estar no mercado".

António Ferreira todos os dias está no campo e diz: "Não pode ser de outra maneira. Só evoluímos com muito trabalho. Tenho de ser o primeiro a chegar e o último a sair". Faz uma pausa e avisa as mulheres: "Por favor, na dúvida não colham. Vejam se a uva está mesmo escura, porque só nesse caso é que estará doce. Não temos pressa". O homem desvia-se e chama um dos encarregados."É preciso investir na formação a toda a hora. Parem, falem e digam às pessoas como se faz", recomenda.

"No que diz respeito às uvas de mesa, julgo que não há ninguém que trabalhe assim. Quando o fruto sai das parreiras é protegido com um filme e com uma rede, de modo a que a uva não apanhe poeiras e sol. Digamos que esta é uma forma sofisticada de produzir uvas de mesa. É o top. O máximo que se pode fazer", conta com orgulho António Ferreira.

Uma das principais dificuldades da herdade é encontrar mão-de-obra para a época da colheita, que começa em junho e se prolonga até novembro, e, neste sentido, todos os dias são fretados autocarros para ir buscar gente a vários locais. Em Vale da Rosa encontram-se trabalhadores do concelho, mas também de Vila Verde de Ficalho, Vila Nova de São Bento, Mértola e Vila Real de Santo António, entre outros. Sem esquecer a mão-de-obra estrangeira, onde se destaca Espanha e Tailândia.

"Durante o ano, normalmente, empregamos 300 pessoas. Na altura da colheita o número passa para as 500. Podemos dizer que somos o maior empregador agrícola na região. Colhemos durante mais tempo do que o normal", afirma António Ferreira.

Este ano "a uva está boa" e o investidor garante: "Acredito que este seja o nosso melhor ano de sempre". Até porque, a herdade Vale da Rosa tem "sido muito procurada por clientes dos mercados externos". "No último mês, por exemplo, fomos visitados por 20 pessoas de diferentes países, com o desejo de comprarem as nossas uvas".

A empresa já exporta para Inglaterra, França, Alemanha, Polónia, países do norte da Europa e Angola.

"Fazemos seleções para produzir uvas de qualidade muito exaltada. Normalmente fazemos três seleções, uma antes da floração, outra na fase de engrossamento (quando a uva está a ser criada) e outra na fase do pintor (quando a uva começa a mudar de cor)", diz o proprietário. E este parece ser um dos ingredientes da receita para o sucesso.

Na herdade, os homens continuam a passar carregados de caixas e um deles veste uma camisola com o Jim Morrison estampado onde pode ler-se Come on… Vale da Rosa.