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O lavrador e o rouxinol
 
03-01-2013 14:29:40
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João Mário Caldeira

(Ao Manuel Madeira, eventual personagem desta história, em mais um aniversário da sua morte)

Havia um lavrador (não seguramente o da Arada) que tinha a sua lavoura a meia dúzia de quilómetros de uma vila alentejana em terras que herdara dos pais. Além de outros predicados, diferenciava-se da maioria dos seus congéneres pela forma de ser e estar na vida. A começar pela cultura humanística de nível superior, cujo grau o guindou à magistratura, de que se afastou para assumir a condução da casa agrícola por morte algo prematura do ascendente direto.
Um dos traços mais marcantes da sua personalidade era ter uma suscetibilidade à flor da pele, fervendo em pouca água, como ali se dizia. Os amigos, não obstante, reconheciam-lhe sensibilidade e simpatia natural e davam de barato os seus destemperos ocasionais, sublinhando a sua desprendida dedicação, a maneira generosa com que os recebia em sua casa, o seu gosto pelo cante e o seu humor refinado.
Quando por morte dos pais e familiares mais chegados, a casa se esvaziou de conteúdo, o lavrador passou a habitar nela sozinho, melancolicamente envolto em passado, ainda que com frequência subisse à cidade onde viviam e trabalhavam os filhos e a mulher. O isolamento a que se obrigava justificava-o pelos afazeres agrícolas e pela caça, de que era muito aficionado, todavia tinha consciência que assim procedia mais pelo gosto de gozar o silêncio que se instalou na casa, dando-lhe oportunidade de se concentrar na leitura e na meditação.
Estando uma tarde desfrutando a bondade do clima na despedida de um quente mês de abril, foi surpreendido por um rouxinol que, empoleirado numa árvore do quintal, iniciava, a solo, uma singular partitura de primavera. Embora familiarizado com os encantos que, amiúde, o campo lhe reservava, o nosso homem achou aquilo, não uma dádiva de Deus (em que não acreditava) mas um presente especial da mãe natureza. E no mais profundo êxtase, ali ficou no pátio, reclinado na cadeira, agradecido ao generoso flautista que já com a lua bem alta decidiu guardar a pauta e calar o instrumento.
Ainda que todos os dias, ao cair da noite, o rouxinol não faltasse no poiso onde montara o coreto, outras coisas mais prosaicas aconteciam no quintal, roubando o sossego ao contemplativo agricultor que tinha pouca paciência para lidar com o que não lhe agradava. Achava o homem, e com razão, que alguma coisa deveria ser feita contra os ratos que invadiram as arrecadações, com certeza por nelas encontrarem comida, coisa que qualquer bicho não despreza, muito menos os ratos cuja tripa parece não ter fim.
Não era, todavia, do desbaste do celeiro que mais se queixava o bom do homem mas do desplante dos bichos que, à boca da noite, vinham apanhar fresco no travejamento do alpendre que ficava sobre o pátio. Era tal o desaforo, tais as corridas e chiadeiras, que acabaram por desassossegar as cadelas de caça habitualmente deitadas ao lado do dono, em respeito profundo pelas suas divagações.
Embora ao rouxinol, na hora em que dava o recital, não o perturbasse a insolência dos ratos, era ao lavrador que os bichos faziam mais mossa, pondo-o numa espiral de agitação que se propagava às cadelas que ganiam, de focinho levantado para as vigas da cobertura. Não vendo melhor meio para fazer face aos bichos caretos, o homem valeu-se do que tinha ao seu alcance: uma antiga espingarda de pressão de ar que andava perdida pelos cantos. Atirando aos vultos, na semiobscuridade, muitos dos ratos caíam fulminados no chão, sendo de imediato desfeitos pelas cadelas com uma raiva superior à que a eles despertavam no dono.
Mais espantados que dizimados, os insolentes animais deram tréguas por uns dias ao lavrador, que tranquilamente pôde retomar o fresco da tarde a ouvir a ave filomela honrando com trinados o pátio de sua casa.
Mas não há bem que sempre dure, nem mal que sempre ature. Voltando um dia da cidade, já noite adiantada, à entrada do quintal o nosso homem dá de novo com as cadelas marradas com as traves do alpendre, o que o fez correr de imediato para a velha espingarda de pressão. Amiudando bem na difusa claridade, conseguiu enxergar, lá em cima, a odiosa sombra sobre a qual apontavam as cadelas. Metendo o vulto na mira, deu ao dedo e disparou. Seguiu-se um baque frouxo no chão. Ao contrário do que faziam com os ratos, as cadelas detiveram-se, fixando o animal exangue. O lavrador ficou gelado. Matara o rouxinol.

 
 
 
 
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