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Natal em Belém
 
27-12-2012 17:18:22
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José António Falcão*


O Palácio Nacional de Belém descerrou as suas portas, no dia 14 de dezembro, para a exposição “E um Filho nos foi dado – Iconografia do Menino Deus no Alentejo Meridional”. Esta iniciativa, levada a cabo pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e pelo Museu da Presidência da República, constitui uma oportunidade de ouro para dar a conhecer os tesouros artísticos da nossa região. De facto, as exposições na residência oficial do chefe de Estado (e, muito particularmente, as exposições de Natal) possuem a aura de um sítio que não é vulgar, atraindo grande número de visitantes.
Quando a equipa do património diocesano de Beja organizou o guião da exposição, teve em mente um aspeto fundamental da identidade do Alentejo: o desvelo pela infância de Cristo. Engana-se quem pensar que o povo alentejano é pouco religioso. Na verdade, ele tem um sentimento profundo da religiosidade tradicional, marcado pela dimensão antropológica do Sagrado e nem sempre regulado pela ortodoxia da Igreja. De tão peculiar mundividência brotou a devoção ao Menino, a Nossa Senhora e à Sagrada Família – uma família alargada, incluindo naturalmente São João Batista, o Baptistinha, primo e precursor de Jesus. 
Ao contrário do que se ouvia afirmar, décadas atrás, o Baixo Alentejo conserva um património artístico vasto e diversificado, capaz de sustentar rotas culturais de qualidade. Torna-se necessário dar-lhe voz, trazê-lo ao areópago, romper fronteiras ou preconceitos. Pelo caráter cosmopolita e pelas ligações à história portuguesa, Belém é uma zona deveras privilegiada para isso, tal como o Palácio é um dos mais belos e mais simbólicos espaços de Lisboa. Neste caso, a exposição ocupa o complexo arquitetónico do Jardim da Cascata, um conjunto de edifícios em U, do século XVIII, que se articula com os jardins, o tecido edificado e o Tejo.
Provenientes de igrejas, museus e coleções particulares, as obras de arte agora reunidas permitem entender, numa perspetiva assumidamente estética, o alcance da veneração tributada ao Menino Deus. Quase cem testemunhos históricos, entre pinturas, esculturas e espécimes de artes decorativas ou gráficas, desenham um arco no tempo (da Idade Média ao Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2012) e no espaço (das oficinas regionais do Alentejo até à Flandres, a Itália, à Índia ou à China). Muitas destas obras são apresentadas ao público pela primeira vez. Outras, já conhecidas, como as do Museu Rainha D. Leonor ou dos museus da Diocese, brilham com especial fulgor.
Chama a atenção, antes de mais, a riqueza iconográfica de um corpus cristológico que se identifica plenamente com o quotidiano, desde as ofertas de ovos e frutos ao recém-nascido até à matança do porco. A arte, aqui, é um espelho da própria vida, rural e urbana. Em relação aos temas, aprecia-se a influência das ordens mendicantes – carmelitas, franciscanos, dominicanos –, omnipresentes no território transtagano, de Sines a Moura. Na hierarquia do microcosmos sagrado sobressaem os acervos de conventos e mosteiros bejenses: Santa Clara, Conceição, Esperança… Quanto à contemporaneidade, está representada por mestres da envergadura de Jorge Vieira ou António Paizana.
O percurso expositivo tira partido do labiríntico encadeamento das salas dos antigos Viveiros para evocar o ciclo da Natividade à Infância de Jesus, mas insere-o numa dinâmica mais ampla, partindo da Anunciação como fenómeno polarizador do “acontecimento Cristo”. Teologia, arte e identidade convergem aqui numa síntese destinada a exalçar, acima de tudo, o papel redentor de uma Beleza que habita e transfigura o coração dos homens. Um sinal de Luz no meio da tormenta que há de passar. O património deve ser isso mesmo: capacidade de ler o passado para iluminar o presente e vislumbrar o futuro. 
Um crítico da cultura lisboeta, tão ouvido quão temido, escreveu, poucos dias após a abertura: “Esta exposição assesta uma pedrada no charco de águas paradas, gélidas e turvas a que o país condena a arte sacra. O Alentejo surge hoje na primeira linha do património artístico. Fá-lo com gosto, elegância e sobriedade. Que o cinzentismo deste dezembro agónico seja colorido pelo Natal de uma região de gauche, dita “pagã”, é um paradoxo que me leva a soltar um Aleluia. Lá para baixo trabalham bem as coisas, sem alardes, nem pressas. E, capturando um pedaço do Sol meridional, trouxeram-no para a capital e fizeram dele a estrela de Belém.” Não tem a arte o poder de amansar as feras?


* Diretor do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja


Imagem: Menino Jesus Bom Pastor. Escola indo-portuguesa. Séc. XVII. Cuba, Tesouro da Igreja de S. Vicente.


 
 
 
 
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