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“Isto parece uma aldeia fantasma” (com vídeo)
 
21-12-2012 15:01:54
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Uma década após a inauguração da nova aldeia da Luz, no concelho de Mourão, muitas das promessas continuam por concretizar. O processo de emparcelamento dos terrenos agrícolas não foi concluído. A adega programada para apoiar 83 hectares de vinha foi “desviada” para outro lado. Sem perspetivas de emprego, a população jovem vai abandonando a aldeia que, cada vez mais envelhecida e com menos população, se vai assemelhando a uma “aldeia fantasma”.

Texto Nélia Pedrosa Fotos José Serrano

A 19 de novembro de 2002 era inaugurada pelo então primeiro-ministro Durão Barroso a nova aldeia da Luz, edificada de raiz a cerca de três quilómetros da antiga, que foi desmantelada e maioritariamente submersa pela albufeira de Alqueva. O processo de transferência dos cerca de 400 habitantes foi considerado “um dos impactos sociais mais importantes decorrentes do avanço do empreendimento de Alqueva” e por isso um dos mais mediatizados. Passada uma década, Maria Manuela Gonçalves, 54 anos, auxiliar educativa na escola do primeiro ciclo, ainda não sente a aldeia como sua. E talvez nunca a venha a sentir como tal. Não só porque não se identifica com a configuração da nova localidade, “que parece um puzzle com as casas todas iguais”, mas também pelos “muitos desgostos” que tem “apanhado” desde que a habita. “Perdi a minha mãe, perdi uma netinha. Sonho muito com a outra aldeia, o tempo que a gente viveu, quando era criança”, diz, adiantado que sente muitas saudades “de tudo” – da sua antiga casa, construída “com tanto sacrifício”, das ruas, do rio Guadiana, “um bom rio”, em cujas margens havia “uns freixos que faziam umas boas sombras”, ideais para piqueniques. “Não há espaço nenhum de que eu não tenha saudades. Esta [aldeia] a mim não me diz nada, penso que isto há de ser bom é para o meu neto e para as crianças que já nasceram cá, estes um dia vão gostar dela”.
Para Maria Manuela, não restam dúvidas de que o processo foi mal conduzido logo “de raiz”, aquando da escolha da zona que acolheu a nova aldeia da Luz – a herdade de Julioa. “Se tivessem escolhido outro sítio… Falaram-me [na altura] de uma estrada que era movimentada, ente a Póvoa de São Miguel e Mourão, agora aqui ficámos isolados como estávamos, não melhorou nada”. 
O isolamento e as promessas que nunca se concretizaram, adianta a auxiliar, obrigaram os jovens “a abalar”, mantendo-se na aldeia, atualmente habitada por cerca de três centenas de pessoas, as pessoas de meia-idade e “outras mais velhas”. “Prometiam que faziam casas, que havia muitos terrenos. Eu tenho umas primas que estão na Alemanha que quiseram comprar cá terreno e os da EDIA [Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva] diziam que era com a junta de freguesia, a junta dizia que era com a EDIA e a câmara, o que é certo é que elas abalaram e acabaram por não construir. Só agora ao fim de 10 anos é que apareceram aí esses lotes para venda, agora que estamos em crise, mas não havendo dinheiro ninguém compra. Dizem que já venderam dois ou três terrenos mas de resto está tudo igual. O jardim está igual. A minha filha casou faz 10 anos agora no dia 28 e eu disse‑lhe ‘olha filha tiras aqui uma fotografia porque isto não tem nada e um dia mais tarde vais recordar’. Mas está igual, passaram 10 anos e está igual, tem a mesmas flores. Prometeram uma vida melhor, eu não vi nada”. 
Quem ficou a ganhar, “e ainda bem”, salienta, foi “quem tinha casas velhinhas”, porque ficou com melhores condições. No seu caso, diz, até gostou da planta da atual habitação, “mas não tem nada a ver com a outra casa”: “O meu processo de mudança foi muito custoso”, recorda. 
A configuração da nova aldeia, diferente da da velha Luz, também não permite uma interação social como antigamente. Na Luz agora submersa “as pessoas tinham as casas de um lado e os quintais do outro”, o que as levava “a andarem mais na rua, com os animais”. Com a edificação dos quintais junto às habitações, e com “as salas” construídas para o lado do quintal, as pessoas passaram a fazer a “vida na parte de trás das casas e não para o lado da rua”, refere Maria Manuela: “As pessoas não aparecem [na rua]. E têm morrido muitas pessoas, essas que faziam mais a vida na rua. Isto agora parece uma aldeia fantasma. A única coisa que esta aldeia me deu de alegria foi ter nascido cá o meu netinho, de resto… vive-se”.
Ana Maria Guerra, 57 anos, doméstica e costureira, aponta como um dos aspetos mais positivos da transferência de aldeia o facto “de a comunidade estar mais bem instalada”, não havendo o risco de inundações, ao contrário do que acontecia na antiga Luz, “sempre que chovia um bocadinho mais”. Como aspetos negativos identifica “a perda de um bocadinho dos hábitos”, devido “à ampliação da aldeia” que promove o afastamento das pessoas, e a saída “de muitos casais”, de “muita mocidade”, porque “não deixam aqui fazer casas”, o que leva ao “envelhecimento da aldeia”. 
O processo de mudança, que “foi muito doloroso” e que “não tem explicação”, adianta, também “mexeu muito com a sensibilidade das pessoas, com o sistema nervoso”. “No coração das pessoas ficou um sofrimento, pessoas da minha idade, pessoas um pouco mais velhas. Os mais novos já não sentiram tanto, porque pensam sempre que se vai para melhor. Nós também não estamos a dizer que estamos no pior, não é esse o caso, mas isto mexeu muito com a nossa sensibilidade, só quem passa pelas coisas é que sabe, e nesse sentido as pessoas foram-se aí muito abaixo. Apareceram doenças, coisas de coração e de sistema nervoso, depressões, esgotamentos”. 
Ana Maria tenta superar alguma da sua desmotivação ocupando o seu tempo a ler, a costurar e a fazer malha. “Quando não tenho trabalho [de costura] invento, puxo por mim para me distrair, mas há pouca gente assim”, reconhece ao mesmo tempo que lamenta que a aldeia não tenha projetos capazes de motivar as pessoas, como “uma praia fluvial, umas piscinas” e atividades direcionadas para as pessoas de meia-idade e idosas, para que não “sufoquem” entre quatro paredes. 
Daniela Farias, 27 anos, desempregada desde fevereiro, pertence ao rol de luzenses que menos sofreu com a mudança, diz. No seu caso a transferência marcou a “aquisição” de alguma independência, uma vez que passou a ter um quarto só para si, assim como a sua irmã. A casa onde vivia a sua família também “já era velha”, pelo que na nova Luz ficaram com outras condições”. Daniela realça, no entanto, que a antiga habitação tinha “chão e casa de banho”, ao contrário do que foi divulgado “noutras reportagens”. 
Mas Daniela, que já trabalhou em Mora, Lisboa e Reguengos de Monsaraz, e cujo futuro gostaria que passasse pela cidade de Évora, reconhece que a mudança afastou as pessoas: “O pessoal afastou-se, os jovens abalaram todos, não há aqui perspetivas de trabalho e as pessoas tiveram que optar por sair daqui. Mas éramos mais unidos, a aldeia parece que era mais junta. As pessoas nunca pensaram de a barragem ser construída e depois quando se viram cá começou a melancolia, a tristeza. Lá na aldeia nasceram os filhos, os netos, tudo. Aqui é diferente, a disposição da aldeia, mas essa é a minha opinião”. 
Carlos Coelho, 45 anos, funcionário da Câmara de Mourão, atualmente a trabalhar no pavilhão desportivo da aldeia, também lamenta que as muitas promessas feitas não tenham passado disso mesmo, de promessas. “Isto é o que está a ver, não há nada, só o que há são olivais. Diziam que faziam aí uma marina, essas coisas todas, não fizeram nada. Podia haver aí mais trabalho, mas não há”. De parcas palavras lá vai revelando que tem saudades do Guadiana – “só ouvindo a corrente de água era bonito” –, onde “a malta convivia”: “A nossa terra era aquela”. 

Museu da Luz é “o espaço 
interpretativo das profundas 
alterações” ocorridas no território


Com a construção da nova aldeia da Luz foi também edificado, junto à réplica da Igreja de Nossa Senhora da Luz e ao cemitério, o Museu da Luz, que é considerado “o espaço interpretativo das profundas alterações ocorridas neste território, manifestadas numa reconfiguração da paisagem e consequente ajustamento social e cultural”, pode ler-se no sítio do espaço museológico. 
Os responsáveis salientam que o museu, cujo projeto de arquitetura é da autoria dos arquitetos Pedro Pacheco e Marie Clément, “não é perspetivado no âmbito restrito da sua coleção”, mas que é “encarado como a possibilidade de documentar o processo social necessariamente conturbado da mudança, a partir do passado comum, reativando as memórias para a reconstrução do lugar”. Simultaneamente “promove o redimensionamento da nova realidade e da paisagem através da exploração artística”. 
A ideia da edificação de um museu teve origem na década de 1980, “no quadro da definição de medidas compensatórias dos impactes decorrentes da implementação do projeto”. 
O Museu da Luz abriu ao público em 2003. Dois anos mais tarde “recebeu uma menção honrosa da Associação Portuguesa de Museologia, na categoria de ‘Melhor Museu do País’” e em maio de 2010 “passou a integrar a Rede Portuguesa de Museus (RPM), responsável pela credenciação e qualificação na área museológica”. 






Francisco Oliveira
Presidente da Junta de Freguesia de Luz 

Fez em novembro último 10 anos que a nova aldeia da Luz foi inaugurada. Qual é o balanço que faz desta última década?
É negativo, até porque ficaram muitas questões pendentes por resolver. Aguardamos resposta por parte da EDIA [que liderou o processo] e do Estado para que elas sejam resolvidas, com alguma urgência, de modo a que possamos dar novamente vida à aldeia.

Que questões pendentes são essas?
São questões que têm a ver com a reposição do património da freguesia, com situações que durante o emparcelamento rural foram tidas quase como factos consumados, nomeadamente a construção de uma adega, porque temos aqui 83 hectares de vinha, e levaram a adega para outro lado, só por razões políticas. O responsável da Direção Geral de Agricultura dessa altura disse-me isso cara a cara. Não construíram um posto de recolha de azeitona, que também fazia parte do plano de emparcelamento, não colocaram os prédios rústicos em nome dos proprietários. Isso dificulta várias intervenções e impede até algumas explorações agrícolas de continuarem e receber os seus subsídios devidamente. Para além disso fazia parte do plano do emparcelamento rural a motivação para os agricultores fazerem floresta, até porque se enquadrava na região onde estamos inseridos. Com esse emparcelamento éramos para ter uma garantia de trabalho de quatro ou cinco postos de trabalho anuais, pelo menos. Perdemos essa possibilidade e isso fez com que perdêssemos também população. São menos dois milhões de euros de investimento numa freguesia como esta. Não é só termos casas novas, que casas já nós tínhamos…

A vida em comunidade também sofreu alterações…
É normal que isto aconteça. Durante este processo de reinstalação da aldeia houve várias negociações das habitações, quintais, logradouros e parcelas agrícolas, tudo isso criou algumas divergências entre vizinhos e amigos, entre as famílias. Mas também temos outras questões que faziam da outra aldeia um ponto mais de convívio, como as idas às fontes buscar água e ao lavadouro público. Também tínhamos três mercearias e cinco cafés, agora restam-nos dois cafés, uma mercearia e a coletividade, mais nada, portanto não há sítio para mais conversas, tirando também a padaria. Na altura a EDIA conseguiu dividir as pessoas para poder reinar, e o preocupante é que isso ainda se mantém. 

Quantos habitantes tem a Luz de acordo com o Censos 2011?
No Censos 2011 tínhamos 297 pessoas, embora eu saiba que poderá haver uma margem de erro de três ou quatro pessoas. São menos 100 que em 2001. Claro que a maior percentagem tem mais de 65 anos. Mas em 2001 conseguimos contradizer aquilo que é normal no Alentejo: cerca de 30 por cento da população tinha entre zero e 30 anos. As expetativas em relação ao futuro, após o fecho das comportas de Alqueva e com a nova aldeia, eram altas, mas esse futuro foi-se pelas razões que já enumerei e mais aquelas que nós desconhecemos.


 
 
 
 
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