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Conto: Um Conto de Natal – de Passos Dickens
 
21-12-2012 10:24:39
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Bruno Ferreira Humorista

Véspera de Natal. Passos Coelho, o avarento primeiro-ministro está ainda no seu gabinete a despachar documentos com mais aumentos de impostos. A seu lado o pequeno sobrinho Carlinhos Moedas, seu ajudante, vai carimbando a papelada e lambendo envelopes.
“Tio, já é tão tarde, eu gostava de ir passar a noite de Natal a Beja com a minha família. E como acabámos com a autoestrada vou levar horas. O IP8 está um caos, e já não há comboio direto…”.
“Cala-te e trabalha! Este ano não há Natal no Governo. É preciso aumentar as receitas.” Dito isto a caneta do chefe do Governo raspa desafinadamente no papel. “Arre! Acabou a tinta! Moedas, vai imediatamente ao chinês comprar uma caneta!”
“Mas tio, as lojas estão todas fechadas. É véspera de Natal”, retorque o jovem sobrinho. “Eu gostava tanto de poder ir ter com os meus…”.
“Aargh! Pronto, vai-te lá embora!”, interrompe, irado, Passos Coelho. “Mas amanhã quero-te aqui bem cedo. E não te esqueças da caneta”, diz ainda, amargo.
“Muito obrigado, tio Passos!”, agradece, contente, o pequenote Moedas enquanto coloca as luvas e o cachecol para debelar as rajadas de vento desta fria noite de Natal. Antes de sair, e vestindo o casaco, Carlinhos despede-se do seu tio: “Boa noite, tio. E feliz Natal!”
“Este ano não há Natal, já disse! Estamos em crise! As pessoas deviam era ter juízo e em vez de gastarem dinheiro em presentes deviam era poupar. Para depois eu lá ir buscar”, rabujou Passos. Carlinhos já não ouviu a última parte. Uns quantos papeis ainda esvoaçam pela sala depois do sobrinho sair fechando a porta.
Passos passeia-se pelo gabinete, agora deserto. “Assim nunca iremos cumprir o défice”, resmunga enquanto vê, pela janela, as luzes de Natal cintilarem nas ruas desertas. No mesmo instante começa a ouvir o som de correntes de ferro a serem arrastadas. Passos vira-se, olhando para todos os lados, mas não vê ninguém. “Quem está aí? És tu Vitor Gaspar?”. Mas quem lhe responde não é o ministro, senão um seu antigo antecessor: António de Oliveira Salazar. O seu fantasma está agora à frente de Passos, arrastando longas correntes atrás de si.
“Já viste a trapalhada em que te meteste?”, pergunta Salazar. Passos, atormentado, responde gaguejando: - “Não fui eu, Presidente do Conselho. Foram os outros antes de mim que…”.
“Uma ova!”, interrompe Salazar. “Eu bem sei que é divertido andar a enganar as pessoas, vê-las assustadas, pregar-lhes umas mentiras. Mas tu ainda não tens estaleca, Pedro”.
“Não, nós estamos no caminho certo. Dr. Salazar. Ainda agora a troika disse isso!”
“Tu não percebes nada. És um catraio. Estás a ver estas correntes que arrasto comigo? São um castigo pelo que cá andei a fazer. Se me arrependesse livrava-me disto neste instante. Mas a verdade é que se pudesse… fazia tudo outra vez”, gargalha Salazar. “Os meus camaradas Franco, Adolfo, Benito, o seminário, as Províncias Ultramarinas... Eu tive uma bela vida.”
“Eu também quero, Dr. Salazar! Ensine-me tudo! Como se faz?”
“Esquece. Os tempos são outros, meu rapaz. Apenas te digo que irás ser visitado por três espíritos. Ouve o que têm para te dizer. Senão acabas orgulhosamente só. Quero dizer: só com o Gaspar.
E o fantasma de Salazar desaparece levando consigo o som das correntes. Mal Pedro se senta para descansar as pernas bambas, e eis que ouve uma gargalhada vinda do fundo do seu escritório. “Quem está aí?”, indaga Passos, a medo.
“Sou eu, o José Sócrates, o Espírito do Governo Passado. Está porreiro, pá?”, diz o fantasma risonho, de nariz abatatado, que traz uma vela na mão.
“Francamente!”, diz Passos Coelho, “É preciso ter lata! O que é que você faz aqui?”, pergunta o primeiro-ministro irado.  
“Eu venho com a missão de o chamar à razão, Pedro. Quero mostrar-lhe como está o pobre Carlinhos Moedas a passar esta noite de Natal, para perceber a sua injustiça.”
“O inútil do meu sobrinho? O que é que ele tem?” E o fantasma do Governo Passado faz refletir na janela do gabinete de Passos Coelho o jantar de consoada em casa da família do Carlinhos Moedas. 
“Está a ver, Pedro? Olhe para o pobrezinho a jantar restos. Tão triste. Para poder trocar os pneus estafados por aquele IP8 miserável, a caminho de Beja, não pôde comprar presentes aos filhos”. Passos Coelho fecha a expressão e nada responde. “E sabe porquê esta desgraça? Porque você mandou parar todas as grandes obras que o Governo Passado iniciou.”
“Mas vocês foram uns esbanjadores! Levaram o país à ruína!”, vocifera Passos Coelho.
“Ora, não seja histérico, Pedro. São os ciclos normais da economia. Oiça, você não pode romper o fio da história, você é português como eu, o Guterres, o Durão, e os outros todos. Não pode armar-se em europeu no norte, Pedro. O seu destino é continuar a enterrar o país.
“Mas temos o FMI, o BCE e a UE à perna, e se não equilibramos as contas, eles…”.
“Eles dão-nos mais dinheiro, Pedro. Como não param de dar à Grécia. É normal haver dívidas. Assim é que andamos para a frente. Ouça, você tem de pôr o país a gastar mais. Você é muito forreta. Olhe para esse fato, Pedro. Isso é de onde? Da Modalfa? Ora, use o cartão do Estado e vá à Dolce & Gabana comprar uma coisinha de jeito, afinal é Natal. E assim contribui para a economia crescer. E não se esqueça dos seus amigos, Pedro… Não há almoços grátis…”, ironiza o espírito Sócrates afagando o ombro de Passos Coelho. “Vou deixá-lo a pensar nisto. E um Feliz Natal para si e para os… para si.”. E o espírito do Governo Passado dissipa-se no ar. 
“Ah, desande daqui, seu perdulário! E leve a bodega da sua vela!” Resmunga Passos Coelho estendendo a mão em direção a Sócrates. Mas quem agarra na vela é outro espírito. 
“Paulo Portas!? Mas o que é que tu queres? Tu és meu parceiro de coligação! Não me venhas infernizar tu também!
“Calma, Pedro. Eu sou o Espírito do Natal Presente, e venho aqui dar-te uns conselhos que deverás seguir”, diz Portas, que traz uma coroa de azevinho à volta da cabeça.
“Ora, francamente, conselhos aqui quem dá sou eu, Paulo! Eu é que sou o Primeiro-ministro!
“Por pouco tempo, Pedro, se continuas assim, irredutível. A vida não é só aumentar impostos e cortar subsídios. Tens de descontrair. Ir ao cinema, fazer uma bela jantarada de sushi num restaurante da moda, e depois curtir um som numa pista lounge com uma bola de espelhos e as paredes forradas a veludo vermelho, toda a apenas com uma máscara e…”.
“O quê?”, interrompe Passos Coelho.
“Ah, bom, esquece esta parte… Tens é de ver as coisas com outra leveza, Pedro. Estás a ser mais papista do que o Papa. E estás cinzento. Até o Jerónimo de Sousa parece um jovem comparado contigo…”
“São as preocupações. E tu devias saber disso que fazes parte do meu governo!”, rabuja Passos Coelho.
“Ora, eu faço o que sou obrigado a fazer. Se fosse eu a mandar, a esta hora havia um mega jantar de Natal no meu Ministério, onde receberíamos todos os embaixadores de todos os países, com muita festa, música, purpurinas, tudo vestido de cabedal, e…”
“Desculpa?”, interrompe Passos Coelho.
“Ah, bom, esquece esta parte também … Olha, Pedro, acho que tens de mudar, só isso. Agora vou para o Lux. Adeus, e boa consoada.”
“Paulo, não te esqueças que temos uma reunião para estudar novos cortes!”, grita Passos Coelho para o vazio. Porque Portas já lá não está. No seu lugar Pedro vê agora um fantasma vestido de negro. 
“Mas quem é você agora, todo vestido de preto? Algum árbitro? Eu não tenho nada a ver com futebol, isso é com o Pinto da Costa!”
“Eu sou o espírito do Governo Futuro, o António José Seguro, e sou o seu maior fã!”
“Só me faltava mais esta. O meu maior fã? Mas você passa a vida a dizer mal de mim!”, responde desconfiado Passos Coelho.
“E nem sabe o que isso me custa, senhor primeiro-ministro… mas tenho de fazê-lo porque sou obrigado pelo meu partido…”
“E que conselho é que você me vem dar?”
“Não venho dar-lhe nenhum conselho, que o senhor sabe bem o que faz. Venho, antes, pergunta-lhe qual é o seu segredo, pois o meu maior sonho é ser como o senhor. Só que um pouco mais rigoroso e austero. Já quase consigo imitar a sua voz! Ah, e queria ainda pedir-lhe o telefone do Vítor Gaspar para saber se ele está disponível para trabalhar comigo depois do seu governo cair. O que será uma pena, mas…
“Espere lá... Se você me admira assim tanto e é esse zero à esquerda... Isso quer dizer que... eu.. também devo ser!... NÃÃÃÃOOOO!”, grita desesperado Passos Coelho. É nesse mesmo instante que acorda, em sobressalto, sentado na cadeira do seu gabinete. “Não! Sai daqui! Sai espírito, xô!... Hã? Mas… isto foi tudo um sonho? Meu Deus! Finalmente senti o sofrimento que ando a causar aos portugueses...”, consterna-se Passos Coelho. Mas no instante seguinte o seu rosto volta a animar-se. “O que vale é que… não passou de um pesadelo!” E o riso macabro do primeiro-ministro ecoa para fora das janelas do seu gabinete, marcando as doze badaladas da noite da consoada. Feliz Natal. 

 
 
 
 
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