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Crónica: Velho tempo de Natal
 
21-12-2012 10:23:23
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João Mário Caldeira


Quando os curtos dias de inverno, escondidos por detrás das névoas das manhãs, vêm ainda implorar natais, todos os anos sou assaltado pela nostalgia do meu encantamento de criança logo que chega dezembro. Eram tempos de um grande desassossego.
Interrogo-me hoje se esse meu deslumbrado estado de alma era extensivo aos meus companheiros de escola e brincadeira que, face ao frio, não tinham, como eu, butes de atanado, calças de lã (que eu detestava porque me picavam as pernas) e blusas de malha tricotadas pelas mães. 
Os pés descalços, as canelas chagadas das labaredas efémeras da esteva, os calções remendados de cotim e as camisas de riscado, permitiriam àqueles rapazes algum sentir esotérico perante a inclemência do clima e as carências de toda a ordem em que viviam? Sou tentado a dizer que sim. Recordo que também neles havia qualquer coisa que mexia no seu imaginário, tal era a paixão que lhes via ao combinarmos estratégicas para roubar a lenha dos quintais alheios destinada à coletiva fogueira acendida num dos largos da aldeia na noite de vinte e quatro. Mas não sei se o enorme lume, só possível pelo afã da rapaziada durante quase um mês, destinado a aquecer o Deus Menino (como todos dizíamos) teria efetivamente para os meus companheiros algum sentimento transcendental ou somente o pragmático objetivo de se vingarem, pelo menos numa noite, do inclemente frio de inverno. Aquecer o Deus Menino ou aquecer o menino que neles tiritava com frio? Seja como for, recordo com espanto a disciplina e a eficiência que esses sofridos moços punham na ação, coisa que nesse tempo me causava inveja e que hoje enalteço pelo estoicismo que demonstravam face a condições tão adversas. 
Eu sonhava perdidamente com o Natal, absorvendo tudo o que o anunciava. O tempo que o antecedia (em que se incluíam as aguardadíssimas férias escolares) era para mim mais fascinante que a comemoração da própria data. 
Não havia rádio em casa e a televisão era, então, coisa impensável, mas no jornal “O Século” (de que o meu pai era correspondente local numa aldeia do fim do mundo onde o mais que podia acontecer era uma altercação entre vizinhos) apareciam já sinais da quadra, não só nos anúncios adornados com desenhos de ramos de azevinho (a firma Valente & Osório deseja-lhe Bom Natal e próspero Ano Novo) como nos suplementos infantis (o saudoso Pim-Pam- -Pum) que iam evocando a magia que me fazia estremecer. O Pai Natal, retratado por vezes no jornal, era já o velho barrigudo de hoje mas sem a vermelhidão das faces e do traje porque então imprimia-se invariavelmente a preto e branco. 
Os postais de boas-festas que se recebiam em casa (habitualmente de firmas, porque o meu pai tinha um comércio, mas também de alguns amigos e parentes) mais espicaçavam a minha fantasia natalícia. Alguns vinham já a cor, sugerindo paraísos de neve com abetos que eu nunca vira, candelabros iluminando recantos inimagináveis de quente aconchego, velas de pavio intenso inexplicavelmente acesas sobre ramos de pinheiro, circunspectos piscos de peito vermelho pousados em braços gélidos de árvores desnudadas, às vezes a evocação do Deus Menino nascido entre palhinhas num longínquo pardieiro, enfim um mundo que eu queria segurar para nele acalentar um sonho de interiorizada magia.
Dias antes de vinte e quatro, um acontecimento marcava pontos em tempo tão absorvente. A minha mãe com as duas irmãs e filhas destas, tiravam uma noite para os fritos de Natal. Ao contrário dos bolos da Páscoa cuja empresa exigia forno de lenha que não havia em nossa casa, a confeção das filhoses e dos brinholos decorria na espaçosa lareira de meus pais, lareira à antiga, de grande vão, onde cabia uma família inteira sentada à volta do lume. Madeiros de azinho mais volumosos que o habitual forneciam o combustível, produzindo brasas sobre as quais se colocavam trempes de ferro onde assentavam os tachos com o azeite de fritar, aparato desusual que espantava o meu pai do seu poiso dileto, obrigando-o a ir ler o jornal para outro lado que não junto ao fogo, como era seu costume.
Era uma noite diferente. Não esqueço as minhas tias e primas de caras avermelhadas pelo lume (a minha mãe, qual bávara rosada de olhos azuis) equipadas com lenços e brancos aventais, em conversa animada, de riso frequente, amassando, tendendo e fritando a massa tenra que deixava no ar vapores gordurentos adoçados pelo cheiro a funcho da erva-doce, que recordo especialmente. Essa azáfama, de que retenho gestos (o rodar da recartilha) e sons (o batido da massa, o seu rechinar no azeite) era também complemento para o meu fascínio, mas a rédea solta que me proporcionava, a mim, ao meu irmão e a um nosso primo, talvez fosse motivo ainda mais especial. Nessa noite havia como que uma espécie de salvo-conduto que nos permitia o encontro com os companheiros, sempre libertos nos lugares habituais onde por vezes se acendiam lumes fugazes que mal espantavam o escuro e o frio. Não era bem uma saída consentida, mas tolerada porque nós éramos um empecilho, no meio daquela barafunda.
Nas habitações com algum desafogo como a nossa, em que havia algumas posses e uma cultura mais urbanizada, era também hábito armar um presépio, coisa que a minha mãe nos consentia, pese embora as reservas de comprometer o asseio da casa, especialmente com o musgo, que trazia sempre terra e humidade, embora garantisse um aveludado prado verde onde dispúnhamos as personagens do entremez. Para dar um ar ainda mais fresco e viçoso à superfície do campo, colocávamos aqui e ali bocados de espelho que supostamente deviam sugerir remansosos charcos de água, tudo longíssimo do clima desértico onde Cristo terá nascido. Nos lagos largávamos vistosos patos brancos de gesso cujo tamanho sobrelevava em muito o tamanho dos pastores ou dos reis magos, que montados em camelos (todos também em gesso que nós próprios confecionávamos) simulavam aproximar-se da cabana (coberta de flocos de algodão a imitar neve) onde tinha nascido o Menino, bebé de proporções incompatíveis com a estatura dos progenitores, coisa em que não reparávamos. Não havia escala nem limites para a nossa imaginação, embora tenha ainda presente o sorriso contido dos meus pais quando os chamávamos para apreciar a obra.    
Vividos todos esses acontecimentos com uma intensidade que não deixa de me surpreender, o implacável correr dos dias ia, a pouco e pouco, acabando com o meu êxtase exacerbado. A véspera de vinte cinco chegava finalmente com os eventos tradicionais: a chocalhada matinal, a espetacular fogueira coletiva acesa ao anoitecer no largo da nossa casa e, noite adentro, os cantares ao Menino entoados por grupos de homens, de porta em porta. Sucedia-se o dia de Natal propriamente dito, para mim sem grande significado, reduzido a dois ou três chocolates no sapatinho (mais propriamente nos meus butes cardados) e a um almoço especial (normalmente galinha) a cargo da minha mãe que não se esquecia de pôr os fritos à sobremesa polvilhados com açúcar e canela num grande prato de esmalte.
No dia seguinte sobrevinha o vazio, a grande nostalgia do sonho ter acabado e só um ano depois haver outro Natal para dar largas à minha apaixonante fantasia que, como é óbvio, eu não reconhecia como tal.
Como quem conserva uma flor entre as páginas de uma velha enciclopédia para recordar um momento qualquer da vida, assim guardo eu hoje na lembrança esse meu alvoroço de pequeno, inevitavelmente empalidecendo como a flor dissecada no meio do livro mas resistindo através do tempo.
Talvez por isso há ainda qualquer coisa de intemporal e terno (e fantasista, sem dúvida) que em mim desperta quando chega dezembro, pese embora o ultraje que a sociedade de consumo hoje confere ao Natal, tudo deturpando e massificando sem piedade.

 
 
 
 
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