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Benvinda
 
21-12-2012 10:15:51
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Paulo Barriga

Estas linhas foram escritas na quarta-feira. Há uma probabilidade muito remota, quase tão remota como a profecia que alerta para que hoje mesmo o mundo acabe, que elas fiquem apenas para mim. Pelo sim e pelo não, penso regá-las amanhã, quinta-feira, as palavras, com um tintol abaladiço. Pois quem nos pode afiançar, ao certo, se hoje cá estaremos. Como parece que estamos. E já que cá estamos, como é provável que estejamos, gostaria de vos anunciar oficialmente o fim do mundo. Não como a civilização Maia o vaticinou há quatro ou cinco mil anos atrás, mas como os nossos olhos o veem abalar a cada dia que passa. O mundo, o planeta Terra, é velho que se farta. E envelhece que se farta. Todos os dias. Como todos nós envelhecemos que nos fartamos desde o exato momento em que nascemos. As coisas, o mundo também é coisa e os homens também são coisas, envelhecem. É esse o mistério da vida, dirão em Roma. É esse o desespero da existência, diriam os velhos alquimistas. É essa a verdadeira fome de viver, dirá em rima qualquer poeta mediano. O mundo poderá estar prestes a acabar. Talvez esteja. Mas antes que acabe, acabemos nós, dentro das nossas possibilidades, à nossa ínfima escala, com o que está a acabar com ele, com o mundo. E este é o voto de Natal, sincero e sentido, que o “Diário do Alentejo”, toda a sua equipa, deseja aos seus leitores, aos seus assinantes, aos seus anunciantes, aos seus amigos. A todos os que nos leem e que não leem. Ao próprio mundo. Pois cada instante que restar, ao mundo e a nós próprios, será irrepetível. Estupendamente irrepetível. Admiravelmente irrepetível. Acho que é isto que querem dizer as pessoas que gostam de afirmar que o Natal deveria ser todos os dias. O Natal, visto assim de esguelha, sem negócio nem peru, é todos os dias. Apenas não nos damos conta dele, sempre um nadinha mais velhos que vamos estando ou ficando. Na quarta- -feira escrevi estas linhas como se fossem as últimas. Na terça, a minha filha mais nova ficou mais velha dois anos desde que começou a gostar de respirar a atmosfera. Ontem, que foi quinta, acho que reguei estas palavras com um belo tintol. Hoje, que o mundo acaba, estou mesmo contente por estarmos, eu e você, a ler estas palavras em conjunto. É assim o Natal, todos os dias, até ao último dia. Dedico esta crónica e este Natal por inteiro a Benvinda Paulino. Que soube partilhar cada instante da sua vida como se fosse o último. Como se fosse único. E irrepetível.


 
 
 
 
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