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Ensaio: Angústia branda*
 
17-12-2012 10:38:15
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Mário de Carvalho Escritor


Há anos que acompanho o “Bartoon” de Luís Afonso e posso assegurar que se tivesse que enumerar as várias razões que me levam a comprar um jornal diário, a sua tira seria, sem dúvida, uma das mais relevantes. Esta capacidade de ter graça, e de ter graça todo os dias, e de conseguir ver sempre o lado faceto das situações é um dom que se admira e inveja. A que deus foi Luís Afonso prometido para conseguir este efeito magnífico, convocando desde logo uma adesão e simpatia generalizadas? É um pico de luz – um sobressalto feliz – um rasgo de brilho, que torna o sorriso irresistível, desafiando o cinzentismo envolvente. Não raro é aquele sorriso interior com que nós nos congratulamos a nós próprios e que, no íntimo, agradecemos a quem o produz.
Aqui há uns anos, alguém pôs na minha boca a frase, que eu nunca diria no meu estado normal: “a literatura é uma coisa muito séria”, porventura querendo o meu interlocutor decifrar o sentido de outra coisa qualquer que eu disse. Não é nada uma coisa muito séria. Trata-se de uma realidade humana com que se pode – e com que se deve – brincar.
Às vezes instala-se uma certa gravitas, muito feita de auto-convencimento, armada de grandes frases e pomposa solenidade que merece mesmo ser desmanchada. E Luís Afonso faz isso com lucidez e inteligência. Este livro é um gozo pegado com a literatura e com a instituição literária.
Vamos começar por aquilo a que os estimáveis teóricos chamam o “paratexto”.
Como subtítulo a O Comboio das Cinco, surge “o livro de Lopes, o escritor pós-moderno”. E isso obriga-me logo a parar aqui: Lopes, aí está um nome dos mais difundidos da nossa onomástica que poderia por si, exemplificar o chamado homem vulgar, o homem da rua. Quando eu era miúdo havia uma canção popular que se chamava “O Lápis do Lopes”, a que se seguiu uma réplica benemérita intitulada “A Borracha do Rocha”. É assim que o livro se apresenta, sob o signo raso do quotidiano e do corriqueiro. Mas logo caímos no primeiro jogo. É que eu não encontrei nenhum Lopes lá dentro. Encontrei sim um João Fragoso, um Manuel Joaquim, um Baptista, um Serafim Augusto, mas este Lopes escapa-se-me por entre as linhas e não o encontro materializado no texto. A não ser que seja aquele rapaz azougado, de camisa clara, que nos aparece nos desenhos. 
Mas fica a indicação de que ele (mesmo ausente) é um escritor pós-moderno, e essa é uma boa notícia: é que está muito bem acompanhado. E desafia uma vez mais à captação dessa inefável realidade que é o pós-modernismo na literatura portuguesa. A designação, em termos teóricos, tem uma genealogia sisuda e controvertida. Mas não deixou de ser utilizada, por cá, no jeito um bocadinho desprezivo de alguém que pretendia, porventura, reconduzir-nos a um certo redil: aquele em que por um lado, todos deveríamos ainda escrever no rasto dos anos setenta, omitindo, por outro lado, a vasta tradição literária secular.
Seja pois Lopes o tal escritor pós-moderno que é louvadíssimo na contracapa, nos relances autorizados do “The Timelines”, ou o “Newark Post”, com entusiásticos “arrebatador!”, “deixa-nos sem imaginação!”, etc. Por experiência própria, eu atrever-me-ia a suspeitar que deve ter dado imenso trabalho ao escritor, mencionar jornais que não existem. Não é fácil chegar à conclusão de que não há mesmo, em nenhuma parte do mundo, incluindo o Minesotta, um periódico que não se chame, por exemplo, o “Timelines”.
Mas na contra capa aparece-nos numa caixa, com um grafismo de carimbo, esta advertência sensacional: “Este livro contém indicadores de qualidade literária”. Não só, acrescento eu. Aqui houve pecado de avareza: neste livro inventariei, sem exaurir, indicadores – de qualidade literária; indicadores de crítica social; indicador de onomatopeia de qualidade literária; indicador de pertinência; indicador de superioridade intelectual do autor; indicador de qualquer coisa depois logo se vê o quê; indicador de frase batida; indicador de qualidade literária muito própria; indicador de experiência de vida; indicador de cultura cinematográfica; indicador de lugar-comum; indicador de profundidade. 
De notar que estes indicadores vêm repetidamente assinalados à margem e surgem em caracteres cinza. Tratando de um artista da imagem, é claro que este aspecto tinha de estar presente. Nas páginas ilustradas quando é referido o filme que adaptará o livro, propõe-se que haja uma luzinha vermelha no écran a assinalar a qualidade do “grande cinema”.
Pergunto-me se esta constante sinalização de um autor que conduz (e ajuda o leitor) não será alusiva a um certo literalismo implantado pela pressão duma comunicação social que se rege pelo menor esforço e por um ensino que, durante anos, dinamitou as pontes para a grande literatura. Digo isto porque, ainda recentemente, a propósito de um texto meu irónico (no sentido mais forte – o da produção de uma afirmação para dizer exactamente o contrário) vários comentadores me observaram que devia ter sinalizado (“legendado”) a ironia. Por este andar, o Luís Afonso, daqui a uns anos, terá de ter legendas explicativas no seu “Bartoon”. Olhem que isto é uma criação artística, é uma alusão, os homens, na realidade, não tem os olhos assim, nem os pés, nem as mãos
Neste ponto, e na mesma linha, eu queria sublinhar uma feição que me impressionou fortemente: a constante reflexão do escritor sobre a matéria textual produzida. Não há apenas indicadores à margem. No próprio texto, o autor comenta a própria escrita (a dúvida, por exemplo, sobre se last but not least, estará bem a propósito dum caso de dupla identidade que envolve uma junta de freguesia e um clube de futebol). Impõe-se aqui o ponto de vista do próprio narrador, que gradua o uso do português conforme o praticante tenha uma licenciatura ou não (neste último caso – e isso seria discutível – menos propenso ao erro).
Mas a dimensão lúdica deste texto que se comenta com extrema pertinência – e que revela hábitos de atenção e de análise de leitura invulgares – prolonga-se com a tentativa de convencimento de um realizador a fazer um filme a partir do livro. Trata-se de desenhos de um humor hilariante que eu diria (pegando na piada sobre a contabilidade de Luís Afonso) que acrescentam muito ao texto. E aqui insinua-se a ideia, por um lado muito literária, mas também muito cinematográfica, aproveitada para a crítica da sociedade actual, dos mundos paralelos: o mundo verdadeiro ou da realidade e o mundo virtual, do fingimento, do devaneio do sonho, ou… sabe-se lá…
Resumindo: é-nos proposta uma história-quadro, a de Fragoso e Madalena, em que se inserem outras duas histórias (se não contarmos com o “pitching” do filme), sem ligação aparente, a não ser o nexo estilístico e a divertida observação de costumes pelo autor, que não poupa – embora com bonomia – as mentalidades e os comportamentos populares. Por exemplo, falar de “civilização” numa contenda de taxistas, é de má-nota. Também, nunca saberemos se aquela tasca que se chama, repetidamente, “Retiro dos Caçadores”, é a mesma tasca no caminho duma motocicleta que se alegrou, ou um resultado de falta de imaginação de quem a baptizou.
Tudo isto transborda de um diálogo extremamente imaginativo, carregado de paradoxos, divertido, exprimindo oposições e contrastes, dum autor que é um excelente conhecedor de processos e expedientes da narração (não falta o célebre deus ex-machina de “afinal era tudo um sonho”…) e de esquemas como a “passagem para outro território” ou o encurralamento das personagens para que o autor lhes trate da saúde, sem testemunhas, sem hipóteses de fuga e sem apelo nem agravo.
No final, que não revelo, ficam no ar algumas interrogações e alguma incomodidade. Será que? …E aqui está uma marca que eu poderia apontar, utilizando a expressão do autor, como um leve sinalizador de angústia. Angústia branda, que vem dar tempero à leveza.
Já seria abuso se eu continuasse a tentar desvendar o livro, parágrafo a parágrafo, como, por mérito do autor, apetece fazer. O caso é que as verdadeiras obras do espírito, que exprimem uma certa relação com os outros e com o mundo, se projectam numa área muito mais vasta que a sua própria dimensão, cheias de ressonâncias e sussurros.

* Texto de apresentação de O Comboio das Cinco, de Luís Afonso, no El Corte Inglés de Lisboa, no passado dia 16 de novembro.

 
 
 
 
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