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Genuinidade ou adorno?
 
17-12-2012 10:36:25
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Ana Paula Figueira Docente do ensino superior


E xistem coisas dentro de mim que, de vez em quando, necessito partilhar! Pensamentos, inquietações… Essa é a razão que me leva a escrever. De dentro para fora. Mas ao satisfazer esta minha necessidade, será que não estarei a ser apenas uma presunçosa egoísta? Afinal, onde reside a minha originalidade ou a minha diferença? O que é que pode interessar o leitor e levá-lo a ler os meus textos? Numa altura em que a literatura integra áreas cada vez mais vastas, em que os editores (ou a sua grande maioria) se preocupam sobremaneira em servir a mediania do gosto do público, onde o livro está a ser reduzido a uma mera mercadoria dirigida a leitores “espremidos”, servindo-os tanto quanto um outro qualquer produto de conforto e, pior ainda… onde autores “instalados” se recusam a desaprender, recorrendo a fórmulas e a lugares comuns que lhes asseguram a “imortalidade” conferida pelo passo seguinte, geralmente os úteis prémios literários (não sei se mais pelo diploma, ou pelo valor pecuniário), cujos elementos do júri são quase sempre os mesmos (pela sua importância e distinção!), o que é que me pode fazer prosseguir quando, à partida, o meu não alinhamento me assegura apenas a certeza da derrota? Diria, como Virgílio Ferreira, que “o que mais custa a suportar não é a derrota ou o triunfo, mas o tédio, o fastio, o cansaço, o desencorajamento. Vencer ou ser vencido não é um limite. O limite é estar farto”. E eu não estou farta de escrever! Pelo contrário: entendo este exercício de criação como útil e edificante, seja para mim como para todos os outros com quem partilho o produto dessa minha criação. Entendo-o como um dever! Por outro lado, e se bem que esse exercício – de dentro para fora – comece por ser inevitavelmente egoísta, deixa de o ser ao permitir que o produto ou resultado seja partilhado por todos aqueles que desejem integrar essa partilha. Com a consciência, porém, de que esse resultado não é mais do que uma mera aproximação a uma qualquer perfeição que é literalmente impossível de alcançar. Assim, e voltando especificamente à literatura, entendo que não existem textos, autores, ou escritores, melhores que outros, apenas porque não há um conceito único a propósito do que é ser “melhor”. Logo, tendo essa convicção, o maior motivo de orgulho é dar azo à minha curiosidade “encarniçada” por aquilo que me rodeia, prosseguir humildemente, e fazer caminho… sob a égide das palavras de Agostinho da Silva: “Não me preocupa no que penso nem a originalidade nem a coerência. Quanto à primeira, tudo aquilo com que concordo passa a ser meu – ou já meu era e ainda se me não tinha revelado. A minha originalidade está só, porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala; o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter a sua trajectória própria e sua meta particular. Mas se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso”. O resto é adorno!


Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

 
 
 
 
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