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Alqueva Transgénico
 
17-12-2012 10:35:53
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Filipe Nunes Arqueólogo


A multinacional Monsanto (através da sua “academia de estudos” Dekalb) encontra-se a desenvolver, em 48 hectares junto a Serpa, um campo de ensaios de variedades de milho. Esta líder mundial de sementes transgénicas (OGM) referia numa publireportagem neste “Diário do Alentejo” (19/10) que sendo “que o Alqueva está a proporcionar uma mudança nos campos do Alentejo (…) a Dekalb está certa de que a cultura do milho será a mais propícia para iniciar o regadio naquelas terras”. Nessa mesma edição, o “DA” reiterava a evidência de como “a Agricultura está a mudar no Alentejo”, exemplificando com as culturas que aqui são atraídas para lá do olival intensivo e que vão desde a papoila para a indústria farmacêutica aos campos de cebolais….
Em 2012, o cultivo de milho geneticamente modificado alcançou em Portugal 9 278,1 hectares, um aumento de 20 por cento relativamente ao ano anterior. A crescente propagação deste milho transgénico (MON810), na sua esmagadora maioria na região do Alentejo (5 796,2 ha), nos últimos três anos surge no maior dos silêncios, esmorecida a discussão levantada pelas ações diretas anti-OGM em 2007, em Silves. A consolidação de um sistema agroindustrial subjugado às grandes multinacionais (Monsanto, Pioneer, Syngenta, DuPont, Bayer e BASF) que monopolizam a venda das sementes transgénicas e dos agrotóxicos, tem sido legitimada pela agricultura portuguesa. E o campo de ensaios de Serpa é somente mais um passo em frente na estratégia da Monsanto, não meramente para a conquista do mercado possibilitado pelo Alqueva, mas sobretudo para tornar Portugal a sua rampa de legitimização e disseminação em espaço europeu das variedades de milho transgénico, à semelhança do que já iniciara em outros campos experimentais no Alentejo e Ribatejo. Uma escolha óbvia pois o Alentejo é o melhor dos cenários para multinacionais agroindustriais dependentes da agricultura latifundiária.
Por isso urge relançar e promover a informação e o debate sobre a questão dos OGM, dos seus impactos ambientais, sociais, económicos e no bem-estar dos consumidores, o que significa colocar no topo da agenda do Alqueva e do Alentejo, dois conceitos que convergem entre si: biodiversidade e soberania alimentar. 
Uma das consequências mais comprovadas da marcha da Monsanto é a irreversível contaminação genética dos ecossistemas pelos OGM, sendo que a presença desse código genético implica o pagamento das patentes desses genes cobrado pelas companhias. Está para votação no Parlamento Europeu a nova lei das Patentes ou Patente Unitária Europeia, acerca dos direitos dos agricultores sobre as sementes e animais reprodutores. A sua aprovação significa simplesmente a criminalização dos agricultores que guardem as suas próprias sementes, consideradas propriedade intelectual, na forma de material genético patenteado, chegando ao ponto de poderem-se apreender colheitas quando contaminadas por genes patenteados. Mas a maior das faturas advêm da deliberada diminuição da agrobiodiversidade (cerca de 75 por cento no último século), consequência que os transgénicos apenas aceleram, e que nasceu da perspetiva cega da produtividade industrial da agricultura, exemplificada que foi pelas monoculturas de cereais ou recentemente pelos olivais intensivos. 
O contra-argumento a esta crítica surge de imediato acenando às necessidades alimentares mundiais, mas o que acontece é que a falta e o excesso de comida estão par a par na desequilibrada produção e distribuição dos nossos recursos. O tal mundo da globalização económica que determina a produção em larga escala de um número reduzido de espécies agrícolas de elevado valor acrescentado (cash-crops como a soja, o milho, a colza e o trigo), em detrimento de centenas de espécies e milhares de variedades de plantas tradicionais, na base da sustentabilidades das populações locais agora subjugadas aos indicies de exportações dessas monoculturas.
Urge por isso reclamar a nossa soberania alimentar: “a liberdade e capacidade de cada pessoa e cada comunidade de exercer os seus direitos económicos, sociais, culturais e políticos relativos à produção da sua alimentação”. Pelo que lutar pela alimentação é indissociável de reconhecer o livre direito às sementes. Precisamente o oposto do que a Monsanto e a estratégia da agroindústria no Alqueva nos cobra como progresso e desenvolvimento neste Alentejo em mudança.

 
 
 
 
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