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No trilho dos sapateiros
 
28-09-2012 10:02:42
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O cognome de “terra de sapateiros” não se colou por acaso à vila de Almodôvar. Entre os finais do século XIX e a década de 70, o calçado artesanal chegou a ser um dos principais meios de subsistência do concelho. Conta-se que, nos melhores anos, chegaram a trabalhar ali, em simultâneo, cerca de 200 artesãos, e que por isso o Sindicato dos Sapateiros do Distrito de Beja, nascido em 1942, teve também aí a sua sede. Hoje restam três no ativo e um esforço da câmara local para resgatar memórias e aliciar as novas gerações. Nomeadamente através da I Mostra e Seminário Nacional de Calçado Artesanal, entre hoje e amanhã.


Texto Carla Ferreira Foto José Ferrolho


António do Espírito Santo é homem de poucas palavras. Mas de um humor subtil que se percebe em cada silêncio, em cada esgar, nesta ou naquela parca expressão com que vai comentando o seu ofício. Uma arte, recorde-se, que já foi de muitos, e que permitiu que Almodôvar ganhasse o epíteto de “terra de sapateiros”, perpetuado até aos dias de hoje. Cerca de 200 terão exercido o mester nesses tempos, não muito distantes, em que o calçado artesanal chegou a ser um dos principais meios de subsistência do concelho. Desse universo, que incluía famílias inteiras, sem excluir mulheres, sobram hoje três ainda com oficina aberta ao público. Espírito Santo, com 66 anos, é um deles. Aprendeu a “juntar” (coser o calçado) aos oito anos, quando ainda andava na escola, e trabalhou com o pai na rua da Ferraria até que saiu para cumprir o serviço militar e, mais tarde, tentar a sorte em França, por onde andou 14 anos. Regressou em 1983 e é na mesma rua da Ferraria que o encontramos agora. Resignado sim, mas com uma capacidade extraordinária de se rir da triste sorte de confecionar sapatos à mão, num tempo em que os há aos milhares por aí, produzidos em série, e para todos os gostos e bolsos. “Agora pedem-me para pôr uma cola, uns pontos, uns pregos, tudo para calçado de fábrica… E vai-te safando”, ironiza, arrancando aos amigos uma gargalhada que ressoa entre as quatro paredes da pequena oficina. O ambiente reproduz o de uma tertúlia de taberna. Também lá repousa o jornal do dia, fresquinho; também lá moram as beldades seminuas estampadas em calendários de outras eras; e para “enfeitar a parede”, à falta de garrafas de tinto e copos de três, amontoam-se nas prateleiras formas de madeira, caixas de cartão e sapatos empoeirados, que ninguém veio reclamar. “Aí há uns três anos, enchi quatro sacas de sapatos para jogar fora. Uns esquecem-se de os vir buscar, outros morrem”, conta Espírito Santo, debruçado sobre a mesa onde arruma as suas ferramentas, algumas sem uso vai para anos. E é numa breve visita guiada pela sua linha de montagem hoje sem muito préstimo – uma máquina para coser, outra para “passar” (coser por dentro), outra ainda para dobrar a pele (vergadeira) e uma última para acabamentos – que o sapateiro, o mais novo da terra ainda no ativo, recorda que “já foi há muito tempo que alguém mandou fazer um par de botas novo”. Comenta-se na oficina que terá sido um homem de São Barnabé, um indivíduo manco, “aquele do pé 38/40”, e António do Espírito Santo não resiste a mais uma tirada sarcástica: “Só quando aparece aí algum coxo é que tenho trabalho”. 
Entretanto, entra uma conterrânea para acrescentar uns furos a um cinto de pele. O sapateiro executa o trabalho em segundos e não cobra o serviço. “Quanto é que é?”, pergunta a freguesa, já com a carteira aberta. “Não é nada, não é nada”, responde. É a frase que mais repete ao longo de toda a manhã. 
Entre os companheiros de tertúlia está José Joaquim Romão, de 80 anos. Como muito outros da mesma geração, também foi sapateiro e só deixou de o ser há dois anos. Pelo meio, intercalou uma temporada de quase duas décadas em França e na Alemanha, experiência em que também não destoa da maioria dos da sua idade. Mas sim, acabou por tornar-se sapateiro porque também o pai, como o avô antes dele, o tinham sido. “Na minha casa era assim: os filhos foram todos sapateiros e a minha mãe também ajudava. Mas eu já não quis isso para os meus filhos. As mulheres trabalhavam nas máquinas de costura. E os homens faziam o mais forte, para o campo”, lembra, recordando os primeiros anos de ofício, anos de ouro em que se “calçava do mais velho ao mais novo na mesma casa – faziam­‑se logo uns cinco ou seis pares”. Nesse tempo, embora a panóplia fosse vasta – também havia encomendas para sapatos domingueiros ou para as botas-de-elástico, ideais para o passeio - o que mais se gastava era o calçado para usar no campo. Como a chamada bota mexicana, ou a de meio cano, com ilhoses (borzeguim), ou ainda a de pestana. “Era um calçado para durar e mesmo assim os sapateiros nesse tempo não tinham avondo; faziam serão até à meia-noite, às vezes”. Quando José Romão regressou a Portugal, a meio dos anos 80, essa fartura já tinha acabado. Mantinham-se as caneleiras com “salto de prateleira”, mas já só por medida, que a procura não justificava a ida a feiras com produto acabado, e alguns arranjos.










O futuro não o vê risonho para o ofício de sapateiro. Entusiasma-se ao defender uma maquinaria mais moderna e a união dos artífices numa “espécie de cooperativa” para a criação de uma fábrica que vendesse “para fora”. Mas logo muda a expressão quando se lembra que são apenas três os que estão no ativo e que “três não vão fazer uma fábrica”. Pois. 
Um deles é Manuel Candeias Simão, ainda a trabalhar no Monte dos Mestres, apesar dos seus 75 anos. O outro é José Lourenço que, aos 78 anos, conserva quase intacta no centro da vila, na rua das Escolas, a oficina que já tinha sido do pai e do avô. Ambos seus mestres, foram também dirigentes do Sindicato dos Sapateiros do Distrito de Beja, uma estrutura que, apesar da designação, surgiu com uma natureza mais corporativa, visando fazer face à escassez de materiais para o ofício, sobretudo sola, decorrente da II Guerra Mundial, já em marcha. Disso já José Lourenço pouco se lembra mas sabe que foi aos 13 anos, logo “quando saí da escola”, que começou a aprender os rudimentos do ofício e que, a partir daí, não mais fez outra coisa. “Sempre trabalhei por conta própria”, orgulha-se, e entrou nas rotas das feiras alentejanas – Odemira, Aljustrel, castro Verde, entre outras – mal se casou. Num tempo em que praticamente não havia fábricas de calçado e abundavam por cá os trabalhadores rurais, “não se dava conta do serviço”. Eram esses os grandes clientes de José Lourenço. “Umas botas duravam para aí um ano, no máximo. No fim do ano vinham, pagavam aquelas e levantavam outras. Calçado fino, vendia-se pouco; a vida não o permitia”, lembra.  
Mas o cenário mudou radicalmente de há uns seis anos para cá, confessa. Não só se prefere o calçado industrial, como também “acabaram as famílias a trabalhar no campo e os moirais”. E como também a idade já não consente grandes aventuras, José Lourenço vai-se ficando por “umas capas, umas meias solas coladas” e pouco mais. É triste? Claro que sim, responde. “Às vezes passam lá os mocinhos que vêm da escola e quando eu os chamo abalam logo. É o ofício que eu tenho e ninguém quer saber disto”.





Resgatar memórias, inspirar novos rumos 

Há dois anos a Câmara Municipal de Almodôvar começou a fazer o primeiro levantamento de memórias sobre o ofício de sapateiro naquele território. O trabalho de campo surgiu no âmbito do projeto “Tradições Orais do Baixo Alentejo”, que abarcou também os territórios de Barrancos e Mértola, promovido pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) e com financiamento comunitário. Entrevistaram-se 10 sapateiros e compôs-se uma parte do puzzle que a falta de documentos escritos mantinha lacónico. Entretanto alguns faleceram e outros fecharam as portas mas as informações preciosas que deixaram registadas encontram-se agora no filme “Do fazer ao contar – memórias das tradições e ofícios” (com uma versão também em livro), que qualquer visitante pode visionar por estes dias no Museu Severo Portela. A exposição dá pelo nome de “Sapateiro – Memórias de um Ofício” e, além do filme, exibe fotografias e algumas declarações emblemáticas dos 10 artesãos, uma pequena coleção de ferramentas (sovelas, alicate vazador, pica-pontos, turquês de pregar, ferro de brunir), vários modelos de sapatos tradicionais (em tamanho real e miniatura), maquinaria e a reprodução do ambiente de uma antiga oficina. Também aqui ficará exposta, num mapa assinalado, a Rota Turística da Memória e do Calçado Tradicional de Almodôvar, que será apresentada publicamente ainda hoje, no encerramento do I Seminário Nacional sobre Calçado Artesanal (biblioteca municipal). “A base para a compreensão do que era este ofício é o museu, com esta exposição. Depois, propõe-se um contato real com os espaços que eram ocupados. Cada antiga oficina vai ser assinalada com o símbolo que nós demos à rota, isto aliado a algumas pegadas que vão estar ao longo dos percursos para direcionar as pessoas”, descreve Rui Cortes, técnico do município e um dos responsáveis pela área do património. Os espaços que ainda laboram, como os dos mestres Espírito Santo e Lourenço, terão uma sinalética diferente. O que se pretende, adianta o responsável, é promover “esse contacto direto com os sapateiros, o diálogo e eventualmente o interesse em mandar fazer lá um par de sapatos”. 
No seu conjunto, tanto o seminário como a Mostra Nacional de Calçado Artesanal, que decorrerá amanhã, na praça da República, ao longo de todo o dia (com workshop de produção e reparação de calçado, desfile de moda e animação musical) são uma forma de “guardar a memória, porque musealizar é importante, mas também de dar outro fôlego à atividade”. Por isso, Mário Grilo, um jovem sapateiro de Cuba que tem ganho popularidade graças à sua marca “Alentejanas por medida”, é um dos convidados de peso. “Ele conseguiu inovar e entrar no mercado. O que é a prova de que há um nicho em aberto e que pode eventualmente ser conquistado pelos mais jovens que se interessem pelo ofício”, conclui Rui Cortes. CF



 
 
 
 
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