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Fotógrafos de Beja lutam contra a crise na era do digital
 
17-08-2012 11:15:04
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A fotografia digital levou à diminuição da procura da revelação fotográfica ou de acessórios e material fotográfico, obrigando os profissionais a investimentos de modo a responderem às novas necessidades do mercado. Mais recentemente, e atendendo às características do atual contexto económico, o fraco poder de compra das famílias tem vindo a refletir-se nos serviços solicitados.



Texto Nélia Pedrosa Fotos José Serrano


 
No próximo domingo, dia 19, assinala--se o Dia Mundial da Fotografia. Não fosse o “amor pela profissão”, o “bichinho da fotografia”, o facto de “ser uma forma de arte”, e pouco ou nada haveria para comemorar, dizem ao “Diário do Alentejo” alguns proprietários de lojas de fotografia existentes na cidade de Beja. Nos últimos anos a fotografia digital levou à diminuição da procura da revelação fotográfica ou de acessórios e material fotográfico, obrigando estes profissionais a investimentos de modo a responderem às novas necessidades do mercado. Mais recentemente, e atendendo às características do atual contexto económico, o fraco poder de compra das famílias tem vindo a refletir-se nos serviços solicitados.

“A fotografia nunca esteve tão em moda como agora, mas no que toca a ter um retorno financeiro para os lojistas, não tem qualquer tipo de retorno”. Manuel Bráulia, 41 anos, fotógrafo há 25 anos e sócio-gerente da Foto Star, espaço fundado em 1958 pelo pai, diz que atualmente existe “uma independência do fotógrafo dito amador em relação às casas de fotografia”, graças ao advento da fotografia digital.

“A partir da era digital qualquer fotógrafo tem tudo o que precisa em casa. Tem, digamos, um laboratório virtual no qual manuseia as fotografias, daí que não tenha uma dependência em relação à loja. O serviço de fotografia para o cliente amador decaiu muito. O puro amador, que antigamente chegava ao verão e revelava três, quatro rolos, das férias, isso desapareceu”. E com a diminuição significativa das revelações de rolos de fotografia analógica e respetiva impressão, decresceram igualmente as vendas de molduras ou de álbuns, entre outros produtos. No caso da Foto Star, que sempre fez serviço de casamentos, a componente ligada à fotografia analógica “representava 50 a 60 por cento”, mas Manuel Bráulia acredita que “haverá lojas em que essa dependência seria de 70, 80 por cento, visto que praticamente não faziam casamentos”.

Atualmente a reportagem de eventos como “casamentos, festas de finalistas, batizados, festas de ballet ou entregas de pastas” é responsável por “uma grande fatia dos lucros” da Foto Star, diz Manuel Bráulia, apesar de se assistir também a quebras significativas nesse segmento. “A quebra normal, a chamada quebra dos 60, 70 por cento, que há em tudo, e que tem a ver com a conjuntura atual”. O jovem gerente recorda que há “três, quatro anos podia fazer 40, 50 casamentos”: “Agora se ficar pelos 15, 20, se calhar considero-me de muito sucesso”. Fotografias de estúdio, principalmente com crianças, “também ainda se vai fazendo alguma coisa”.

 

Saturação do mercado na área dos casamentos  São também a reportagem e a fotografia de estúdio que suportam nos dias de hoje uma das duas lojas José Espinho & Filhas, situada no centro histórico da cidade. A outra, instalada numa grande superfície comercial, “é uma loja essencialmente de serviços e venda de equipamento”, diz José Espinho, 56 anos, fotógrafo profissional desde 1974 e proprietário há 16.

 “O trabalho de estúdio mantem-se, fazem-se menos grandes ampliações, no entanto, hoje é normal uma criança nos primeiros dois anos de vida vir tirar fotografias todos os meses, isto no meu caso concreto. Depois há a gama dos 15, 20 anos, aquele sonho de serem modelos, com a criação do book”. E com o trabalho de estúdio, realça o sócio-gerente, há “todo um complemento”, que pode ir da simples moldura ao brinde personalizado.

No que toca às reportagens, nomeadamente casamentos, tem-se vindo a registar um decréscimo “devido à crise”, mas também à saturação do mercado. “Há uma oferta muito grande, mas eu não considero que seja concorrência porque depois vejo os trabalhos finais e não têm nada a ver com aquilo que eu faço”, diz o fotógrafo, adiantando que a crise também se sente no setor “de venda de equipamentos e alguns serviços”, dado que “a função pública tinha uma quota de mercado muito significativa” na sua loja.

Com o surgimento do digital, que, segundo José Espinho, “tornou a fotografia acessível a praticamente toda a gente”, embora com níveis de qualidade bastante distintos, também nas suas lojas “a revelação do rolo praticamente acabou” e mesmo que se façam serviços de impressão de fotos digitais, estas são sempre em menor número comparativamente às revelações analógicas. “Antigamente faziam-se todas as fotografias que se tiravam e agora não. Agora a pessoa tira e vê logo, depois coloca no computador, e quando manda imprimir já sabe o que é que quer. O rolo tinha aquela magia de esperar pela revelação para ver o que é que se tinha feito. Essa magia da fotografia, do tirar, do ter que se saber tirar, acabou. Hoje a pessoa tira, se está clara, repete, faz mais escura…”.

A saída encontrada por Sérgio Carocinho, 36 anos, fotógrafo há duas décadas, para contornar a quebra significativa do número de revelações de rolos de fotografia analógica e da venda de todo o material associado, foi apostar na reportagem, principalmente de casamentos, e nas fotografias de estúdio, invertendo assim o peso que aqueles serviços tinham na faturação da sua loja, a Foto Baltazar, de que é proprietário há quatro anos. “Fazemos poucas impressões de fotografia, o rolo analógico acabou. Temos provavelmente a revelação de um rolo por mês, nem tanto. Os produtos de loja, como molduras, álbuns, já é muito raro vendermos. Essa parte representava, talvez, 75 por cento das receitas. Neste momento virámo-nos para outras áreas, tivemos que fazer com que os restantes 25 por cento [reportagens e estúdio] passassem a 75 por cento”. “Neste momento estou mais dedicado aos casamentos, é a minha área forte”, diz, adiantando que em termos de negócio não se pode queixar.

As fotografias de estúdio, à semelhança do que acontece na Foto Star e na José Espinho & Filhas, têm no topo da lista dos fotografados as crianças, às quais se seguem os adolescentes, na sua grande maioria aspirantes a modelos.

 

Menos fotografias tipo passe devido ao cartão do cidadão  Luís Luzia, 45 anos, proprietário da Foto Luzia há 17, apostou, por sua vez, na oferta de serviços que não estão ao alcance do consumidor comum, “como reproduções, retoques de fotografias digitais ou recuperação de fotografias antigas”. Na componente de estúdio “também ainda se vai fazendo alguma coisa, principalmente de crianças”: “Tivemos que avançar para o digital, tivemos que ir para as novas tecnologias, se não já não estávamos cá, isto já tinha fechado. Porque as pessoas já só têm digital, ninguém utiliza o filme. Fomos obrigados a desmobilizar as máquinas de revelação porque os químicos iam perdendo propriedades, porque eram pouco usados. Agora, os poucos rolos que aparecem enviamos para o laboratório, mas já não leva a meia hora que levava, leva mais tempo”, diz Luís Luzia, fotógrafo desde os 16 anos.

Dentro dos serviços prestados, destacam--se ainda as fotografias tipo passe que, no entanto, com a criação do cartão do cidadão, “são cada vez menos”. “O sistema que foi introduzido nos registos [civis] também nos tirou esse trabalho, que era o nosso ganha-pão, de maneira que não sei em que é que estão a pensar, se calhar em acabar com isto…”. A contribuir para o fraco negócio, diz o fotógrafo, está ainda a tão falada crise e as obras nas portas de Mértola: “As obras também prejudicam, as pessoas vêm menos para aqui”.

As fotografias tipo passe eram igualmente uma componente bastante importante da faturação da Foto Favinha, diz Maria Helena Favinha, fotógrafa profissional desde 1964. “As fotografias para documentos representavam uma percentagem significativa, não digo que ao longo do dia se fizessem uns 50 por cento de identificações, mas era muito bom. Vinham oito, nove, 10 pessoas, no mínimo, era bastante compensador, agora não vem ninguém ou vem um às vezes de dois em dois dias, ou de três em três dias”.

As reportagens de casamento e as fotografias de estúdio também já não têm o peso que tinham. Maria Helena aponta o dedo à crise e à fotografia digital. “Não há motivos para festejar nada. Isto está muito mau. Os clientes não vêm às lojas, o digital acabou com os fotógrafos. Vê-se ao longo do País quantas lojas têm fechado. É claro que o digital permitiu que entrássemos noutros campos, mas acabou com as revelações, que também eram muito significativas. E com o digital as pessoas acabam por colocar as fotografias no computador e também não as imprimem. Os pais contentam-se em ver as fotografias dos filhos no computador, as crianças deixaram de ter o álbum personalizado, que os acompanhava ao longo da vida, desde que nasciam…”.

A fotógrafa considera, no entanto, que “mesmo com a crise”, o serviço de fotografias tipo passe, “teria sempre saída”, “porque toda a gente precisa do bilhete de identidade, do passaporte, de renovar documentos”. Em relação aos casamentos, Maria Helena Favinha recorda o início de carreira, em que “fazia 100 casamentos por ano”. “Agora se fizer 10 já fico muito satisfeita”, adianta a proprietária, frisando que a diminuição de serviço no caso concreto não se deve exclusivamente à crise mas também aos gostos pessoais dos potenciais clientes “que também vão mudando” e “à concorrência desleal”: “Nós mantemos os mesmos preços há cinco ou seis anos, e há colegas que baixaram os preços para valores impraticáveis, preços que não se faziam há mais de 10 anos. Assim não vale a pena, para vender fotografias ao desbarato estou em casa”, adianta a fotógrafa, que detém uma outra loja na cidade de Serpa, onde “o cenário” não é muito diferente. “A continuar assim dentro de pouco tempo é para fechar, mais mês, menos mês, vamos deixar passar o verão, vamos ver, é um remar contra a maré”.

Também Luís Luzia não antevê “um futuro muito animador” para as lojas de fotografia – “Talvez melhore quando a crise acabar um dia, vamos ver”. Já para Manuel Bráulia não restam dúvidas de que as lojas deverão dar lugar “a showrooms, uma casa de exposições, de mostra de trabalhos, onde alguém aceita as marcações de serviços, serviços de excelência”, como já existe “em certos países”, como “por exemplo no Reino Unido”.