Sonhos
e esperançasAntónio MachadoEu nasci no Alentejo
Sou português por direito
Desde muito novo almejo
Um Portugal mais perfeito
Nasci no rincão sagrado
Foi lá que abriram meus olhos
Só vi caminhos com escolhos
Nesse cantinho adorado
Tanto tempo já passado
Olho o futuro e não vejo
Sinal de qualquer lampejo
De vida sem sobressalto
Mas vou gritando bem alto
Eu nasci no Alentejo
Vi a luz da alvorada
Na terra quase esquecida
Para muitos tão querida
Por outros tão mal estimada
Merece ser respeitada
Não lhe neguem o respeito
Aqui existe o conceito
Que também é Portugal
E se eu sou dela afina1
Sou português por direito
Muitos anos já passados
Na vida que vou levando
Na estrada que vou trilhando
Muitos passos foram dados
Alguns projetos falhados
Não me abalam o desejo
De festejar o ensejo
Dum sonho reaizado
Que acabe tão triste fado
Desde muito novo almejo
Em abril sopraram ventos
Que prometiam mudança
Foi-se diluindo a esperança
Foram chegando lamentos
Sofremos hoje tormentos
Que nos oprimem o peito
Gostava de ir satisfeito
Quando a tal hora chegar
Por sentir ao abalar
Um Portugal mais Perfeito
FlorbelaMaria do Céu RibeiroFlor, flor que a brisa levou
no vento da primavera,
Tela da vida pintada
em aguarela descarnada,
que num sopro se esfumou…
Bela, bela de quem só o pôde ser,
por sentir em carne viva
toda a essência do ser,
nesse efémero viver !
Existência assimétrica
de vertigem e arrepio,
Tua imagem eclética,
de tanto amor, tanto vazio!...
No Alentejo que evoca
o eco da tua poesia,
escuto o som da tua voz
numa doce melodia…
Florbela…
…Quis teu nome coroar,
de poesia esta nação,
e de aromas nos perfumar,
o teu nobre coração!
Breve passagem, Cometa,
nas asas do infinito,
Vives Princesa, Poeta,
reflectindo o teu brilho!...
Praça de jornaAntónio MachadoNesta crise em que vivemos
Que o governo não contorna
Qualquer dia voltaremos
À velha praça de jorna
Portugal vai-se afundando
Neste mar de incompetências
De cedências em cedências
Vai na estrada derrapando
Poderá ser tarde quando
Encontre valores supremos
É bom que não confiemos
Em quem nos tem governado
Já que ninguém é culpado
Nesta crise em que vivemos
Milhares de desempregados
Jovens sem futuro à vista
Também estão na mesma lista
Pensionistas e reformados
Todos vão sendo enganados
Numa lengalenga morna
Muita esperança não retorna
Tragada por injustiças
Nas areias movediças
Que o governo não contorna
Quem trabalha e quem produz
É quem levanta um país
Não é qualquer diretriz
Traçada por quem conduz
Ambicionamos mais luz
Nas trevas muito sofremos
Se o trabalho que não nos dão
Pedir de chapéu na mão
Qualquer dia voltaremos
Nesta Europa de ilusões
Meu Portugal quem diria
Que tinhas de ser um dia
Escravo de certos patrões
És vítima de ambições
De gente que te transtorna
Se algum fulgor cá não torna
Quem para ti quer trabalhar
Vai ter que um dia voltar
À velha praça de jorna