A freguesia de Selmes, que já pertenceu “ao termo de Beja” e ao concelho de Cuba e que se destaca pelas seis estações de via-sacra, nichos construídos em alvenaria, “únicos no concelho”, que “constituem os pontos de passagem da procissão do Senhor dos Passos”, tem vindo a ser despojada de pessoas que, sem emprego, partem à procura de melhores condições de vida. O encerramento da EB1, a concretizar-se, diz a população, agravará ainda mais a situação, votando a aldeia ao abandono, num momento em que depositam grandes esperanças no tão famigerado regadio.Texto
Nélia Pedrosa Fotos
José FerrolhoUma faixa negra colocada na fachada da Escola Básica do 1.º Ciclo com a frase “Não ao meu encerramento”, ladeada pelos nomes dos jovens alunos que a frequentam, não deixa margem para dúvidas. A população da freguesia de Selmes luta por estes dias contra a possibilidade do estabelecimento de ensino poder vir a encerrar já no próximo ano letivo e de os meninos serem obrigados a deslocarem-se para a sede de concelho, Vidigueira, que fica a cerca de oito quilómetros – aliás como já acontece com as crianças do lugar de Alcaria da Serra, cuja escola fechou há alguns anos.
A freguesia, que já pertenceu “ao termo de Beja” e ao concelho de Cuba (entre 1782 e 1854) e que se destaca pelas seis estações de via-sacra, nichos construídos em alvenaria, “únicos no concelho”, que “constituem os pontos de passagem da procissão do Senhor dos Passos”, tem vindo a ser despojada de pessoas que, sem emprego, partem à procura de melhores condições de vida, à semelhança do que acontece em tantas outras aldeias por esse país fora. O encerramento da escola, a concretizar-se, diz a população, agravará ainda mais a situação, votando a aldeia ao abandono, num momento em que depositam grandes esperanças no tão famigerado regadio (ver entrevista).
Inácio Pestana, de 62 anos, ex-operador de máquinas agrícolas, atualmente reformado por invalidez, teme que o encerramento da escola possa ditar o fim de outros serviços ainda existentes em Selmes. “Já tentaram encerrar a junta de freguesia e se encerrarem a escola ao fim de um dia ou dois fecham a extensão de saúde. Terá que ir tudo para a Vidigueira, mas o centro de saúde de Vidigueira está às moscas, vai lá o médico duas ou três horas, por isso tem que ir tudo para Beja. Beja é o descargo. Se aquela [escola] fechar, no dia de amanhã é a outra [creche e pré-primária, que ocupa um outro edifício] e depois muitas coisas por aí fora”, afirma o avô de duas meninas em idade escolar, que, logo pela manhã, se refugia na sombra proporcionada pelas árvores do largo em frente ao Centro de Dia de Selmes. “Por que é que a escola com 18 alunos fecha e com 19 já não e até se arranjam duas turmas”, questiona-se, sem conseguir encontrar uma justificação lógica: “São as tais leis que vão estando podres. As minhas duas netas andam aqui, terão que ir para a Vidigueira. Uma gaiata com sete anos vai para a Vidigueira e anda lá aos descaídos, como é óbvio”, diz ainda o reformado que aguarda agora notícias vindas da Direção Regional de Educação do Alentejo, que já recebeu a junta de freguesia e a comissão de cidadãos “Não ao encerramento da EB1 de Selmes”. “Dizem que são precisas mais quatro crianças para chegar ao número previsto [estipulado legalmente]. A batalha não está vencida”.

No interior de um das cinco mercearias da aldeia que ainda resistem à falta de gente, e à crise – nos últimos anos encerraram três –, Mariana Fialho aproveita para dar dois dedos de conversa enquanto foge do calor já insuportável que se faz sentir às 11 da manhã. Aos 76 anos, e com uma vida de trabalho dividida entre o campo e o serviço a dias “para as senhoras de Beja”, lembra-se perfeitamente dos tempos em que “havia muitos moços na escola” e “sapateiro, barbeiro, padaria, um lagar”, na aldeia. “Tinha, hoje não tem nada. O pão vem da Vidigueira, do Pedrógão. Mercearias sempre há umas quantas, mas essas chegam para o que a gente ganha, e até gastamos muito”, diz, ao mesmo tempo que lamenta o decréscimo populacional que se tem vindo a verificar ao longo dos anos, principalmente de jovens. Com o encerramento da escola, acrescenta, “desaparecem as crianças”, o que “é muito mau”, porque a aldeia “está muito envelhecida”.
Não muito longe da loja onde Mariana Fialho retempera energias antes de se fazer ao caminho até casa, Mariana Capito, de 57 anos, proprietária de uma outra mercearia – a única centenária da aldeia – recorda também o tempo em que ela, e mais tarde os dois filhos – hoje com 37 e 26 anos –, frequentavam a escola. “No meu tempo sei que na escola de cima [designação que dão à atual EB1] eram duas salas e estavam as duas cheias e lá em baixo [o edifício que alberga a creche e pré-escolar] também eram duas salas e também estavam cheias. Quatro salas cheias, se calhar cento e tal moços. No tempo dos meus filhos já havia menos, mas eram muitos ainda”.
Numa aldeia onde já são “tão poucos”, diz, “se levarem as crianças ficamos aqui tristes”. É que sem emprego em vista na região, muitos acabam “por abalar”. “Falta muita gente e muito trabalho, há muitas pessoas desempregadas, muitas mesmo, jovens é tudo, e pessoas de meia-idade, que ainda não estão em idade de reforma. Isto era uma zona de agricultura e de construção. Construção já não há e agricultura há muito pouca”. “É tudo mecânico, regas automáticas, há trabalho mas não leva mão de obra”, apressa-se a acrescentar o marido de Mariana, José Capito, dois anos mais velho.
Rosária Borracha, de 37 anos, a trabalhar há dois anos no Centro de Dia de Selmes, conhece bem esta realidade. Trabalhou durante anos em “montes” nas imediações de Selmes, “um trabalho duro, mas divertido”, que “hoje já não existe”, devido à proliferação de maquinaria. Mais tarde frequentou dois cursos de formação, um de seis meses, outro de dois anos, este último de geriatria e que lhe permitiu ter acesso ao emprego atual. “Faz falta mais trabalho, há muita gente desempregada, da minha idade e também mais velhos”. Quanto ao possível encerramento da EB1, acredita que o mesmo levará a “aldeia a perder muita coisa”: “Em lugar de virem cá mais pessoas vêm menos. A escola faz falta, tudo faz falta”.
Festival Gastronómico Sabores da Caça passa a realizar-se de dois em dois anos A par das tradicionais festividades de verão, em honra das padroeiras de Selmes (Santa Catarina) e de Alcaria da Serra (Nossa Senhora das Relíquias), eventos propícios “ao encontro com a família e com os amigos”, o Festival Gastronómico Sabores da Caça, que se realiza em fevereiro, é responsável por levar anualmente à freguesia “milhares de pessoas”, garante o presidente da junta. “O desporto da caça envolve muita gente, mesmo em tempos difíceis como estes. Há caçadores com algum poder de compra e há homens que se deslocam de todo o País para virem ao festival”, diz António d’Aguilar, acrescentando que “são três dias de festa, onde participam quase todas as associações” e em que as propostas vão das montarias às largadas de perdizes, passando pelos espetáculos e pelas tasquinhas com petiscos à base de caça. Apesar de movimentar “muita gente”, “as restrições atuais” obrigam a que o certame passe realizar-se de dois em dois anos, estando assim prevista a próxima edição, a sétima, para 2014. “Em 2013 não iremos ter, a não ser que para aí haja um benfeitor, a não ser que a Câmara de Vidigueira nos ofereça mais qualquer coisa, porque como se realiza em fevereiro os pavilhões que acolhem o festival têm de ser totalmente cobertos, o que absolve quase todo o dinheiro que nos é dado pela câmara, e se a câmara não participasse nós não poderíamos fazer isso”.
Pontos de interesse turístico Para além dos seis nichos que se encontram espalhados pela aldeia (ver texto principal), destaca-se ainda, como pontos de interesse turístico, a igreja Matriz de Santa Catarina, cuja construção “parece datar do século XVIII”. A sua fachada caiu em 1817 e foi reconstruída em 1874. “O altar-mor e quatro altares laterais são os principais elementos decorativos”. Nas imediações de Selmes, no Monte da Cegonha, pode encontrar-se a villa romana, que “conheceu um percurso de crescimento, sucesso e abandono”. Na outra extremidade da aldeia, e “dando acesso ao caminho para Pedrógão, galgando a ribeira de Selmes, ergue-se a velha ponte, formando um pitoresco conjunto rústico”, datada, provavelmente, do século XVI.
António d’Aguilar
Presidente da Junta de Freguesia de SelmesExiste a possibilidade de a EB1 poder vir a encerrar no próximo ano letivo. Que repercussões poderão advir desse encerramento?
Se isso vier a acontecer ficaremos todos mais pobres. Numa altura em que estamos a pedir às pessoa para virem residir nas nossas aldeias, onde estamos todos os anos a perder residentes, se vamos fechar a escola algumas pessoas vão pensar duas vezes. Isto também numa altura em que todos pensamos que a nossa freguesia se irá desenvolver nos próximos anos, porque temos terras férteis, e neste momento muitas delas já estão a ser regadas. Nós, autarcas, temos a obrigação de trabalhar junto das populações para que o fecho não aconteça e fazer ver aos nossos governantes que uma escola por não ter 19 alunos não deve fechar.
Que medidas foram tomadas para evitar o fecho?
A junta de freguesia enviou uma carta à senhora diretora regional de Educação do Alentejo a mostrar o nosso descontentamento. De seguida a população criou uma comissão, de que também faço parte, e escreveu à senhora diretora. Ela recebeu--nos em Évora e o que nos disse é que a lei seria para cumprir, porque se a escola não tem 19 alunos então é para fechar. Mas neste momento já temos 19 matrículas, portanto estamos a pensar que não vai fechar, todos trabalhamos para isso.
Quantos habitantes tem a freguesia de Selmes, de acordo com o Censos 2011?
Temos à volta de 900 habitantes. Temos vindo a perder pessoas ano após ano. Cerca de 60 por cento terá mais de 65 anos e os outros 40 por cento são adultos e jovens, sendo que jovens são à vontade de 15 por cento. Comparando com o Censos 2001 desceu um pouco, à volta de 100 pessoas. Mas tudo aponta para que a situação se inverta com o desenvolvimento da nossa zona, que é efetivamente agrícola.
Para além da agricultura, a que outros setores de atividade de dedica a população em idade ativa?
A maior parte é na agricultura, que já não é de sequeiro como se fazia há muitos anos, embora ainda se semeie algum trigo e alguma cevada. Mas temos muitos olivais, é verdade que a maior parte é dos espanhóis, mas eles sempre estão a dar algum trabalho às pessoas. Temos muita área de vinha, também algumas adegas particulares, que vão dando algum trabalho. Até Beja também se deslocam algumas pessoas, para trabalhar no comércio e na indústria.
Quais são os principais problemas da freguesia?
De há um ano, ano e meio, para cá é o desemprego. Alguns jovens estão desempregos e alguns desempregados não têm direito ao subsídio e isso preocupa-nos bastante. Estávamos a ver que a porta da extensão de saúde também ia fechar, devido à aposentação do médico. Felizmente não vai, porque a Câmara de Vidigueira contratou um médico cubano que irá permanecer na freguesia até que venha o médico contratado pelo Governo, que não se sabe quanto tempo é que irá demorar.