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Vila Nova da Baronia: Terra de gente, comboios e ervas (com vídeo)
 
19-06-2012 16:53:38
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Vila Nova da Baronia já não tem barões, mas tem gentes que se orgulham da sua terra. A agricultura já teve outra pujança e a indústria aqui não chegou, mas mantém-se a linha férrea que marca o ritmo da terra, a cada passagem do comboio. Em Baronia há uma boa mão cheia de crianças e os jovens que podem ficam na terra, mas tantos outros há que têm de procurar outras paragens para morar.



Texto Bruna Soares Fotos José Serrano

 

O vento embala as copas das árvores. Em junho a planície já se pinta de dourado e ao longe, lá no alto, no topo do depósito da água, que se encosta à linha férrea, que repousa após a passagem dos comboios, pode ler-se: Vila Nova da Baronia.

As cancelas estão abertas. O comboio só voltará a passar às 13 e 30 horas e os carros atravessam a linha. Os miúdos aceleram nas suas bicicletas, rua abaixo. Uma artéria, outra, mais outra e o largo da igreja, imponente, em honra de Nossa Senhora de Assunção.

As mulheres de bata envergada e luvas de borracha limpam o átrio. As vassouras retiram as poeiras do chão e em seguida as esfregonas ensopam-no de água. Esfregam uma e outra vez. As vezes necessárias para que a igreja, a sua igreja, fique ainda mais apresentável aos olhos dos filhos da terra e, sobretudo, aos olhos dos turistas. As zeladoras do templo são, porém, de poucas palavras. Não se distraem nas tarefas e a conversa, essa, fica para outra hora. Que é o mesmo que dizer para outro dia.

No mesmo largo, no largo Manuel Francisco Fialho, passam atarefados os que procuram o correio, a junta de freguesia, a farmácia. Mas o corrupio não é grande. Pela manhã são muitos os que estão a trabalhar na terra, mas também fora das suas fronteiras. “Cada vez mais é preciso sair daqui para trabalhar. Não há empregos”, conta José Mira, enquanto admira quem entra e sai do correio. O tempo e a idade levaram-lhe a boa audição. As palavras já as custa a ouvir e o “diabo do vento”, como lhe chama, parece levá-las ainda para mais longe. Prefere, então, ficar a ver quem passa e termina a conversa.

Francisco Santos é um dos que já está despachado das cartas. Tem 59 anos, mas viveu 30 fora do seu torrão natal. “Esta é a minha terra. Sinto-me cá bem. Vivi em Lisboa, mas gosto de estar cá e regressei”, explica. O homem, de bigode aprumado, continua a prosa e fala dos progressos da sua vila, mas reconhece que até ela não chegou a indústria e que a agricultura, por estas paragens, já teve melhores dias. E tudo se resume afinal a poucas palavras: aqui pouco trabalho já há.

“É difícil fixar os jovens”, diz. Mas depressa acrescenta: “Futuramente pode ser um dormitório periférico de Beja e Évora. Temos boas acessibilidades e as pessoas deslocam-‑se com facilidade. Não me importo nada que seja um dormitório, porque se as pessoas trabalham em Lisboa e moram em Loures, aqui ainda mais rapidamente se chega a Beja e a Évora. Ao fim de semana as pessoas acabam por cá estar, por conviver e acabam por gastar e evoluir a terra”.

A vila fica a escassos quilómetros de Alvito. Um concelho pequeno, mas com duas vilas. Alvito e Vila Nova da Baronia. “Alvito também tem pouca indústria e não consegue acolher muita gente em termos de empregabilidade”, adianta Joaquim Aires, que se encosta à parede de cal branca, junto ao alcatrão que escondeu em tempos já idos a terra da rua.

Os sinos anunciam a chegada de uma nova hora. E o som espalha-se pela vila. “Este é um viver pacato. É muito sossegado. Muito saudável. Vive-se bem em Vila Nova da Baronia”, garante Joaquim Aires.

Na praça da República os bancos rodeiam o pelourinho e neles sentam-se vários homens que matam o tempo até à hora de almoço. Da parte da tarde logo se verá. “Estamos aqui em assembleia. Conversamos e fazemos vida assim. Não é nada mau. Em algum lado temos de passar o tempo”, conta Manuel Carvalheira. No banco à frente estão Manuel Camilo e Leonardo Carracha em amena cavaqueira. Manuel foi tratorista. Leonardo pastor.

“Vila Nova da Baronia é uma rica madrasta. Acareia toda a gente”, começa por dizer Manuel Camilo. Leonardo Carracha concorda e conta: “Assim me aconteceu a mim. Todos os que vêm de fora já não abalam. É uma bela madrasta que já me perfilhou”.

São poucas as crianças que se avistam, mas os homens garantem: “Há aí uma boa mão cheia delas”. “Os jovens, uns vão-se embora e outros ficam”, completam. Até porque, Manuel Camilo lembra: “Antes ainda se guardava ovelhas, porcos, vacas. Agora já não há nada disso. Apenas se plantam ervas para os animais”. As ervas trazem à conversa o famoso ciclo gastronómico “As Ervas da Baronia”. “Carrasquinhas, catacuzes, beldroegas. Os restaurantes fazem essas açordas e vem muita gente provar, mas a família de fora é que vem fazer esse trabalho, porque nós cá estamos fartos delas [ervas]. Nós vamos ao campo e apanhamos”, diz Manuel Camilo, enquanto Leonardo Carracha lamenta que o campo esteja todo vedado.

Rua acima vai Maria Genoveva que resume numa só frase a sua vila. “É uma terra de fazer inveja a muitas outras”. O horário avança e o comboio está quase a passar.

 

Joaquim Santos

Presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova da Baronia

 

A população de Vila Nova de Baronia tem-se mantido?

Tem diminuído. Habitam em Vila Nova da Baronia cerca de 1 245 pessoas. Vila Nova da Baronia não foge ao que acontece no resto do País, nomeadamente em meio rural. Debatemo-nos com o problema de tantas outras freguesias: a desertificação. Temos uma taxa muito elevada de envelhecimento e não existem empregos suficientes na freguesia para fixar os jovens. No entanto, considero que não somos das piores freguesias, no que a esta matéria diz respeito, uma vez que muita gente, depois de se reformar, regressa à sua terra natal.

 

Mas tem esperança de mesmo assim conseguir fixar os jovens?

Tenho alguma. Temos de ter esperança. Pode ser que existam postos de trabalho para eles, nomeadamente na agricultura. A construção civil acolhia muitos jovens, mas também está em decadência.

 

A linha férrea continua a marcar a vida desta terra. Está em risco de sofrer cortes, designadamente no que aos comboios diz respeito?

Para já não temos qualquer informação nesse sentido. Mas há algum tempo tivemos de reivindicar. Estamos a lutar, todos os autarcas da zona, para a eletrificação da linha, de modo a que esta se torne mais viável e moderna. A retirada do intercidades afetou-nos e estamos a tentar retomá-lo para toda esta zona. O comboio é um meio de transporte muito forte e está ligado à vida desta freguesia.

 

Quais são as principais dificuldades da freguesia?

Neste momento sentimos algumas dificuldades. Até há um ano tínhamos uma taxa muito grande de apoios e agora todos os meses temos de cortar apoios e revogar pedidos que nos são feitos. Não conseguimos e com muita tristeza nossa não podemos ajudar. A parte social também nos preocupa. Temos casais já com alguma carência económica nesta freguesia. Esta era uma das coisas que nunca queria dizer, mas tenho, infelizmente, de o dizer.

 

E a agricultura?

Muito pouca gente trabalha na parte da agricultura. Tínhamos propriedades que empregavam alguns casais e isso representava muito para a freguesia. Agora apenas empregam uma ou outra pessoa.

 

Está a decorrer o ciclo gastronómico “Ervas da Baronia”…

Esta iniciativa consegue atrair pessoas, nomeadamente aos restaurantes. A Câmara de Alvito está a fazer estas iniciativas e está a fazê-lo muito bem. Muita gente vem provar as ervas [pratos confecionados à base de ervas] que são nossa tradição.

 

Património

 

Vila Nova da Baronia conta, no seu centro histórico, com um património edificado significativo. Para além de um conjunto de igrejas erguidas nos séculos XVI e XVII, onde se destaca a igreja Matriz, pode ainda apreciar-se o policromado dos azulejos seiscentistas da igreja de Nossa Senhora da Conceição e os restos do revestimento fresquista da igreja da Misericórdia. No entanto, muitos outros apontamentos arquitetónicos podem ser apreciados ao percorrerem-se as ruas da terra. Destaque ainda para as ermidas que circundam o povoado: Sant’Águeda, São Pedro e Santo António. Em Vila Nova da Baronia podem também ser vistos vários portais manuelinos, bem como três passos, onde se apresentam as estações da via sacra. O pelourinho mantém-se imponente na praça da República.

 

 

“As Ervas da Baronia”

 

O ciclo gastronómico “As Ervas da Baronia” já começou e prolongar-se-á até ao dia 17, domingo. Todos os anos o concelho de Alvito dá a conhecer a gastronomia da terra e as ervas são quem mais ordena. Com o mote  “À mesa com a natureza” poderão ser apreciados, pelo sexto ano consecutivo, nos restaurantes participantes do concelho, sabores únicos, nomeadamente costeletas de borrego na grelha com migas de beldroegas, açorda de beldroegas com queijo de cabra ou feijão de azeite com beldroegas.

 



Feira Anual em julho

 

Vila Nova da Baronia, no concelho de Alvito, todos os anos celebra a sua feira anual, que se realiza no terceiro fim de semana de julho. Esta é uma oportunidade para juntar os filhos da terra, mas também os muitos forasteiros que chegam à freguesia por ocasião das festas. A tradição ainda é o que era e, para além das bancas de venda, há muita animação.