“Um comunicado da P.I.D.E. sobre os recentes acontecimentos com estudantes” era o título de uma lacónica notícia que o “Diário do Alentejo” publicava ao alto da primeira página da edição de 13 de junho de 1962. Seis linhas a uma coluna completavam a informação: “Segundo tornou público a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, nos recentes tumultos e greves da massa estudantil houve participação activa de elementos do Partido Comunista Português.” Mais nada.
Por esses dias, o jornal incluía pequenas informações locais e regionais (“Incêndio numa seara da freguesia de Ervidel”, “Descarrilou ontem à saída de Vendas Novas o ‘rápido’ Beja-Lisboa”, “Foi pescado no rio Guadiana um barbo com 14 quilos”), do País (“O aniversário da eleição presidencial do Sr. Almirante Américo Tomás”, “[O engenheiro Jorge Jardim] Agraciado com o Grande Oficialato da Ordem do Império”, “A memória de Júlio Dantas evocada na Academia das Ciências”) e do estrangeiro (“O Iraque e os Estados Unidos cortaram relações diplomáticas”, “Kennedy dá explicações sobre a sua administração”, “O ‘Exército secreto’ [na Argélia] chegou ao paroxismo do crime: envenenar crianças”).
E havia, com honras de “Nota do Dia”, uma notícia com “muito de imprevisto, mesmo de sensacional”, que “não peca por fantasista” e que o jornal garantia ser “exacta, assentando em informações absolutamente seguras”: “Perto de Vila Nova de Milfontes vai ser construída a ‘Brasília Portuguesa’”. Ora leiam:
“(...) Uma iniciativa, que marca pela originalidade, que visa certamente a objectivo comerciais mas que nem por isso deixa de interessar grandemente ao futuro, á valorização do Baixo Alentejo, vai dotar a nossa província com uma pequena cidade cem por cento moderna, uma cidade que será uma autêntica réplica da nova capital do Brasil – Brasília.
Esclareçamos: um grupo de capitalistas brasileiros, inspirado na ideia da edificação, no seu país, da ‘Nova Goa’, decidiu-se a construir em Portugal uma ‘Nova Brasília’. A escolha, ao cabo de vários estudos, incidiu numa área a cerca de 4 quilómetros da praia de Vila Nova de Milfontes. Imediatamente se iniciaram as negociações para a compra dos terrenos, que já foram concretizadas, estando garantida a aquisição de 140 hectares. Vai agora ser levantada a planta topográfica, para a elaboração do respectivo projecto, que incluirá a construção de bairros residenciais, hotéis, piscinas e até, ao que consta, um Palácio de Imprensa. Por outro lado, será construída uma auto-estrada de acesso á ‘cidadezinha’, que terá duas pistas. (...)”
Um brevíssimo comentário, meio século depois: as vigarices em torno da especulação imobiliária, mascaradas de “projectos de desenvolvimento” e amplamente publicitadas pela imprensa, já são antigas também no Alentejo...
Carlos Lopes Pereira