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Paulo Ribeiro em versão caseira e intimista
 
15-06-2012 16:13:30
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O segundo álbum de originais do cantautor bejense surge depois de uma década de espera deliberada pelos “cúmplices certos”. Nomes como Sara Côrte-Real, nos coros, Celina da Piedade, no acordeão, Viviane ou Zeca Medeiros, com quem interpreta dois duetos. Mais contido no plano instrumental e de temperamento “outonal”, “No silêncio das casas” revela um Paulo Ribeiro também letrista, produtor e arranjador. 

 

Texto Carla Ferreira

Foto José Ferrolho

 
Uma década depois de “Aqui tão perto do sol”, Paulo Ribeiro deixa a largueza da planície alentejana e o apelo dos elementos da natureza para se refugiar na intimidade do lar, em silêncio. Talvez repousado naquela “salinha de jantar” que era a da avó Mariana e que poderia bem ser a sala de outra qualquer matriarca. Estão lá as “loiças antigas”, as “duas velas sempre acesas”, “Nossa Senhora das Dores” e uma fé que se reacende sempre que a esperança se perde.

Cantautor bejense, que todos recordam como vocalista dos já extintos Anonimato, Paulo Ribeiro esperou uma década por um segundo álbum de originais, que leva o selo da Heaven Sound. Esperou mas não desesperou. Limitou-se a respeitar o tempo certo das coisas. Integrou projetos paralelos – Mosto, Baile Popular, o espetáculo “Aldeia Nova”, uma homenagem a Manuel da Fonseca de que foi autor e diretor artístico – e foi ao encontro ou deixou-se encontrar pelos “cúmplices certos”, outros músicos que entendessem este “silêncio das casas” que dá nome ao disco. Foi assim que chegou a Sara Côrte-Real, voz residente de Os Assessores, banda que acompanha Sérgio Godinho; a Celina da Piedade, acordeonista do Cinema Ensemble, de Rodrigo Leão; à cantora Viviane, com quem partilha o tema “O teu nome” com poema de Alexandre O’Neil; ou a Zeca Medeiros, o músico açoriano que empresta a voz áspera à faixa “Noite Luarenta”, um segundo dueto em torno das palavas do poeta António Gancho. Na banda deste trabalho “mais contido” em termos instrumentais estão nomes como Mário Delgado (guitarras), Valter Rolo (piano), José Canha (contrabaixo) e Jorge Moniz (bateria e percussões).

 “Levei algum tempo a encontrar as pessoas certas mas preferi esperar até encontrá-las”, confessa o músico, cujas “urgências” de criação se têm sucedido num ritmo autónomo do mercado discográfico. “Devemos lançar um disco quando temos alguma coisa para dizer”, defende. E viver, já agora. Assimilar aprendizagens, assumir talentos, aventurar-se. “É um disco que reflete uma série de vivências resultantes de uma certa maturidade. Não conseguiria de certeza fazer este disco quando tinha 20 anos”, comenta, sublinhando que esta é a primeira vez em que assume também, em parceria, a componente da produção e arranjos musicais. Além da poética. Em 12 temas, apenas os dois já referidos não têm a assinatura de Paulo Ribeiro.

Por comparação com o seu primeiro trabalho a solo, “um disco de exteriores”, “No silêncio das casas” é um projeto que vai beber de uma fonte criativa mais íntima, onde moram as reflexões e os balanços pessoais, numa alternância entre uma evidente “carga melancólica” e os laivos “de esperança e luminosidade” que nos são oferecidos em algumas canções. Está lá o amor – como contorná-lo? –, estão lá as ruturas, as memórias de infância, e questões tão universais como o que é isto da vida e que papel nos cabe aqui, afinal. No fundo, concretiza, “eu não falo de coisas desconhecidas e nesse sentido é um disco que se aproxima das pessoas, que se liga profundamente aos outros. É um disco humanista, se quisermos”.

Depois de uma primeira apresentação na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa, ainda em maio, e de uma outra, há dias, no Be Jazz Café, Barreiro, “No silêncio das casas” tem já concerto confirmado em Beja, no próximo dia 22 de setembro, no âmbito da programação do Pax Julia Teatro Municipal.  A natureza “outonal” do álbum determinará depois uma digressão por várias salas da região, uma vez terminado o verão. Para já, fica uma dica do autor em jeito de “modo de usar”: “É um disco para se ir ouvindo, não é para se ouvir. Tem uma unidade, não são peças desirmanadas que se possam separar”.