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Aqui, no lugar de Porto Covo (com vídeo)
 
08-06-2012 10:51:49
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Porto Covo espera pela chegada em massa dos turistas. Na terra já parece verão, mas ainda não o é. Ainda há casas para alugar e só ao fim de semana se sente o movimento de quem procura as praias. A pesca já teve melhores dias e poucos saem para o mar. Aqui, no lugar de Porto Covo, a vida segue, enquanto se assa um sargo no braseiro.



Texto Bruna Soares Fotos José Serrano

O  sol queima quem na praia o procura. Ainda não é verão, mas em Porto Covo, no concelho de Sines, já é como o fosse, ou quase. “Em junho só há movimento ao fim de semana. No domingo quase que se atropelavam uns aos outros. Estava aí muita gente. Durante a semana é fraco. Há pouca gente de férias”, conta José Vilhena. E só pela falta de movimento se explica que ainda não seja verão. As esplanadas já estão montadas. Os menus pendurados e os empregados à porta, mostrando as melhores ofertas da casa.

Quem deambula no largo Marquês de Pombal procura, sobretudo, a gelataria e, como não poderia deixar de ser, o caminho para a praia. Mas ainda não é verão. É quase, mas ainda não o é. Até porque nas casas, maioritariamente brancas e de barra azul, ainda se avistam vários letreiros ostentando em letras garrafais: “Aluga-se”. É a espera pelos meses fortes. “Julho e agosto é quando isto mexe mais”, contam os homens, sentados no largo, nos bancos vermelhos e protegidos do sol pelas copas das árvores.

José Vilhena trouxe, no entanto, uma sombrinha para se proteger, para o caso do sol lhe trocar as voltas. Com uma colher na mão, para comer um gelado, olha para o largo e comenta: “Já você tinha visto uma coisa destas? Isto é tudo antigo. Tem mais de 500 anos. É tudo feito em pedra e cal”. E rapidamente aponta outras virtudes da terra: “Já viu aqueles prédios ali atrás. Coisa bonita. Prédios lindos”. Na verdade, é assim que explica o progresso na sua terra.

“Há muita gente de fora. Há gente de Lisboa que tem cá casa. Isto evoluiu muito. Antigamente era só este largo e pouco mais. Era tudo em terra”. Mas a crise, a tão falada e mal fadada crise, também não está a dar tréguas a Porto Covo.

 “As casas estão aí quase todas por alugar. Antigamente, por esta altura, já estava tudo alugado. Não há dinheiro. Agora querem um fim de semana, uma semana, as semanas partidas ao meio e pouco mais”, conta Eugénio Rosa, lembrando, contudo, que também não é “barato” alugar uma casa na terra. Embora a crise, sempre a crise, já tenha obrigado a uma baixa de preços. “Se não baixarem os preços não as alugam”, adianta.

Os homens continuam a conversa e só a mudam de sítio. Sentam-se na esplanada do café. Em tempos levavam a vida no mar. Agora apenas o avistam do alto da rua. Eram pescadores, agora já pouco ou nada pescam.

“Fui pescador durante 50 anos. Pescava aqui na costa, mas cheguei a ir para Marrocos. Fui pescador por conta de outros e por conta própria. Tive dois barcos. Foi a minha vida. Mas fizeram-nos acabar com a atividade. Muitas restrições. Já ninguém consegue sobreviver do mar”, afirma Francisco Brissos.

Os homens fazem uma pausa e interrogam-se sobre o futuro dos jovens da terra. “Os moços só podiam voltar ao mar se desenvolvessem a pesca com outros sistemas, nomeadamente mais sofisticados. As leis têm de mudar. Quem fez as leis não as soube fazer. Quem as fez não percebe nada de pesca. Já experimentei uma vez fazer caldeirada de peixe com carne e não deu. Misturar uma ministra da Agricultura com pesca também não dá. Ou percebe de uma coisa ou percebe de outra. Ou não percebe de nada”, considera Francisco Brissos.

Eugénio Rosa interrompe o raciocínio do antigo pescador e completa: “Não vale a pena. Trabalhámos anos e anos e temos estas reformas lindas. Uma miséria”. Francisco Brissos abana positivamente com a cabeça.

Enquanto os homens discutem a vida, Bruno Gervásio, jovem e filho da terra, sobe a rua com um saco de rede numa das mãos. Lá dentro avistam-se perceves. Foi cedo apanhá-los e agora procura quem os compre. Na outra mão um saco de mexilhão, que felizmente já tem freguês. Bruno apresenta-se descontraído, de calção, chinelos de praia e rastas na cabeça. Está na rua, mas na verdade está em casa. “Nasci e fui aqui criado. Toda a gente me conhece”, começa por dizer.

Bruno espera pacientemente pelos futuros clientes na rua mais movimentada de Porto Covo, junto aos antigos pescadores. Apregoa o seu produto, que garante “ser de excelente qualidade”. Enquanto não aparece quem o queira, pede uma cerveja, para refrescar, para passar o tempo e para poder sentar-se na esplanada.

“O mar ainda está a dar qualquer coisa. Tenho estes perceves para vender, mas peixe é que está pior”, conta. Bruno quer continuar a viver em Porto Covo e, por enquanto, garante que “a pesca ainda dá para viver”, mas só em conjunto com a “agricultura”. “Sou pescador e agricultor”, diz, com um sorriso.

Os turistas, munidos de máquinas fotográficas, continuam a passar. Procuram as falésias, o mar azul, o pequeno porto de pesca. “Conhece a música do Rui Veloso”? “Foi ela que trouxe mais gente para aqui”, afirma. E as gentes da terra honram-se da melodia, tanto que atribuíram o nome de Rui Veloso e Carlos Tê a duas ruas da pequena localidade.

Pelo largo deambulam alguns turistas e Joaquim Neves, com a sua cadela ciumenta, a Lassie. “Não gosta que alguém se aproxime de mim”, explica com um sorriso o antigo pescador. Junto à igreja avista quem passa, mas garante: “Isto ainda está fraco, mas vai animar”. “Temos boas praias. Gostam disto”. A cadela volta a rosnar e Joaquim Neves segue a caminhada, não a quer irritar. E a vida continua, aqui, no lugar de Porto Covo. 



Luís Gil,

Presidente da Junta de Freguesia de Porto Covo


Quantas pessoas vivem em Porto Covo?
Entre 1 300 e 1 400 pessoas. É uma população que varia. Temos muita gente que trabalha em Sines, que vai e vem. Temos capacidade de habitação para muitas mais pessoas. Há casas que estão fechadas durante a maior parte do ano. 

 
A terra perdeu ou ganhou habitantes?
Temos perdido. Todos os anos temos menos residentes e parece que é uma tendência. Pensando que se podia inverter esta situação, fizeram-se algumas coisas, mas que não nutriram efeitos. De facto estamos a perder população. 

E essa fuga dá-se essencialmente para onde?
Não sei bem para onde. Julgo que seja para Sines e para Vila Nova de Milfontes. Tem muito a ver com a falta de condições que são dadas aos jovens da terra para construírem as suas próprias habitações. O terreno é bastante caro em Porto Covo. É um mercado que não é acessível aos jovens de Porto Covo, que acabam por optar por outras zonas. 

 
O mar ainda é o sustento destas gentes? 
Já foi. Neste momento, praticamente, não há pescadores profissionais em Porto Covo. Temos um pescador aqui a fazer pesca profissional. Temos depois alguns que a base é mais Sines e que no verão aproveitam para fazer aqui em Porto Covo, devido às condições que tem. Quando chega ao fim do verão vão para Sines. As pessoas estão obrigadas a desistir desta atividade. Temos alguns jovens e, felizmente, vão conseguindo colocar-se em empresas em Sines e, numa fase bastante recente, vários jovens conseguiram trabalho no porto de Sines. No entanto, devo dizer que durante vários anos não fomos muito beneficiados. Os nossos jovens, muitas vezes devido às habilitações que tinham, eram preteridos em relação a pessoas que vinham de outros lados. A população de Porto Covo não beneficiou diretamente com empregos que resultaram do desenvolvimento na zona de Sines. Beneficia, contudo, indiretamente, com o aluguer de algumas casas. 

 
Mas Porto Covo tem-se desenvolvido. Tem um novo pavilhão multiusos, há novas habitações…
Porto Covo tem crescido bastante, mas deve ser dito que quase metade das casas de Porto Covo estão fechadas. São propriedade de pessoas que compraram aqui casa e que só cá passam uns dias de vez em quando. 

 

E em termos turísticos? 
Tem decrescido. Temos cada vez menos gente a passar férias em Porto Covo e isto é um ciclo. Quanto menos pessoas vêm, menos pessoas têm vontade de abrir equipamentos. De facto há uma redução significado. Há muita gente que vem e volta no mesmo dia. Muita gente que passa só um fim de semana. Muita gente que traz o seu farnel e come à beira mar. Acho que isto também tem muito a ver com a crise que o País atravessa. 



Ilha do Pessegueiro
Em frente à ilha do Pessegueiro fica aquela que é conhecida como a praia da ilha, com condições para a prática de windsurf, passeios de barco e pesca desportiva. Junto à praia pode ver-se uma fortaleza do século XVII, em parte destruída pelo terramoto de 1775. Na ilha do Pessegueiro, que inspirou o músico Rui Veloso, que lhe dedicou uma canção, podem ser apreciadas a fortaleza do século XVII, as ruínas de um porto romano e uma capela quinhentista. No verão é possível visitar a ilha em barcos de pesca ou de passeio. Perto da praia da ilha do Pessegueiro existe ainda um parque de campismo.

 
Novo parque de merendas
Recentemente foi inaugurado, em Porto Covo, o Parque de Merendas “Arnaldo Vilhena”. Arnaldo Vilhena, como membro da Assembleia Municipal de Sines, em 1985, foi um dos mentores do processo para a instalação da freguesia de Porto Covo. A freguesia resolveu agora prestar-lhe homenagem. O Parque de Merendas, construído junto ao Jardim Público de Porto Covo, pretende ser “uma zona de lazer, de diversão e de reunião de amigos e familiares”. A infraestrutura está ao dispor da população e dos visitantes desde o dia 1 de maio.

 

Tradicional Ouriçada
A Ouriçada da Páscoa é já uma tradição em Porto Covo. Na verdade, a organização oferece, sempre que o mar o permite, os ouriços e outros mariscos. São sempre servidos petiscos como carapaus fritos com arroz de tomate, feijoada e grelhados no carvão. A baía de Porto Covo, por esta altura, é sempre palco de muita animação, de convívio e de partilha. Ou não fosse esta uma terra à beira mar plantada.

 

Festas de agosto
No final de agosto realizam-se as Festas em Honra de Nossa Senhora da Soledade, que podem, no entanto, começar mais cedo, alongando-se os dias de comemorações. Acontecem sempre bailes, concertos, espetáculos e fogo de artifício. A tradicional corrida aos patos na baía ainda continua a realizar-se com a mesma força de outros tempos.