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Guedes Campos foi o primeiro diretor da segunda série do “DA”
 
01-06-2012 14:56:38
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Um jornal com uma missão cívica



A medicina trouxe-o ao Alentejo, corria o ano de 1976. Apaixonou-se desde logo pela paisagem, que lhe recordava os espaços livres do seu Moçambique natal, e pelo “extraordinário povo alentejano”. Por “missão cívica”, Jorge Guedes Campos aceitou a direção do “Diário do Alentejo ” quando o jornal reapareceu, em 1982. Dos três anos em que exerceu funções, guarda a memória duma “experiência inesquecível que muito me enriqueceu humanamente, aprendendo muito mais do que o esforço despendido.”

 

Texto Alberto Franco

 

O que motivou a sua ida para Beja?

Em 1975 terminei no Hospital de Santa Maria o estágio policlínico, após a licenciatura em Medicina na Universidade Clássica de Lisboa. Nessa altura tinha sido criado o Serviço Médico à Periferia, obrigatório para os jovens médicos recém-licenciados. Este serviço transformou completamente a assistência médica, particularmente nas populações carenciadas do interior, e foi um importante motor para a implementação do Serviço Nacional de Saúde. O grupo de médicos do qual fazia parte optou por escolher o concelho de Mértola, em 1976. A minha vinda para o Alentejo foi uma decisão feliz, que me fez recordar os espaços livres de África, onde nasci e que me permitiu conhecer e contactar com este extraordinário povo alentejano, que segundo o poeta José Gomes Ferreira “nunca canta sozinho”. De 1977 a 1983 trabalhei no Hospital Distrital de Beja, onde terminei a especialidade de radiologia, sob orientação do dr. João Manuel Covas Lima.

 

Como surgiu o convite para dirigir o “Diário do Alentejo”?

O “Diário do Alentejo” foi fundado a 1 de junho de 1932, por Carlos Marques e Manuel António Engana. Este jornal esteve sempre ligado aos interesses da população alentejana, alertando e discutindo as grandes questões desta vasta região e contribuindo ainda para a sua dinamização cultural. É compreensível que a interrupção da sua publicação, a 6 de fevereiro de 1980, tenha criado um enorme vazio na imprensa regional local. Para ultrapassar este cenário, as câmaras municipais do distrito de Beja e de Grândola, Santiago do Cacém e Sines constituíram a associação de municípios que originou as bases materiais para o reaparecimento do “Diário do Alentejo”, a 25 de abril de 1982, em vésperas de completar a 1 de junho os 50 anos de vida. Quanto ao convite para dirigir o jornal, foi-me apresentado por essa extraordinária figura humana, de seriedade, lealdade, inteligência, cultura e amor ao Alentejo, o João Honrado, na altura presidente da Assembleia Municipal de Beja. Conhecedor da importância do reaparecimento do jornal, não podia negar o convite, apesar da minha inexperiência no mundo do jornalismo. Interpretei-o como uma missão cívica. O meu gosto pela leitura e escrita e a apetência pela tertúlia cultural contribuíram para aceitar esta tarefa. Estes aspetos também foram traduzidos no mandato que cumpri como presidente da Assembleia Municipal de Beja, a partir de 10 de janeiro de 1983.

Que situação se vivia nessa altura na região?

No início da década de 80, o Alentejo apresentava, infelizmente, aspetos negativos, semelhantes aos atuais, nomeadamente, na esfera económico-social. Nesses anos, assistiu-se a uma instabilidade económica, a um acentuado aumento dos combustíveis e da eletricidade bem como ao agravamento do custo de vida. Foram ainda implementadas medidas ruinosas que conduziram ao desmantelamento da incipiente indústria alentejana e da desarticulação da estrutura produtiva agrícola. Ainda nesse período verificou-se uma acentuação do desemprego. Este cenário conduziu à desvalorização da moeda e preparou a entrada do Fundo Monetário Internacional. A atual repetição dos mesmos problemas significa, naturalmente, que não aprendemos com os erros e insistimos na falta de rigor e na ausência de políticas visando o progresso económico, cultural e social. Torna-se evidente que é necessário uma alteração do paradigma político fundamentado unicamente na austeridade e na recessão, com esgotamento dos recursos financeiros. Por outro lado, felizmente, nesses anos havia aspetos positivos, traduzidos, por exemplo, numa maior participação cívica e numa maior discussão ideológica. Estes aspetos ainda se tornam mais evidentes quando comparamos com o cinzentismo e a ausência de ideologias que estruturas sem rosto pretendem atualmente impor à escala global.

 

Os meios que tinha para fazer o jornal eram suficientes?

Apesar das naturais dificuldades, foi possível programar uma cuidadosa renovação gráfica e deve ser referido que o “Diário do Alentejo”, nesta nova fase da sua existência, herdou instalações, maquinaria e fundamentalmente um excecional grupo de profissionais de impressão gráfica e dos serviços administrativos, bem como um pequeno, mas experiente, corpo redatorial. Foi a sua extraordinária dedicação e o apoio material da Associação de Municípios que criaram as condições para o jornal renascer. A composição, impressão, publicidade e assinaturas funcionaram na praça da República, n.º 43. No respeitante à redação, inicialmente funcionou na praça da República e depois transitou para a rua Abel Viana, n.º 1.

 

Qual a composição da equipa?

Quando recomeçou sob a minha direção, em 25 de abril de 1982, o “Diário do Alentejo” tinha como chefe de redação o Miguel Patrício e como jornalista o Pedro Ferro. Mais tarde regressou ao jornal a que sempre pertenceu, o inesquecível, dedicado e talentoso José Moedas. Ainda refiro o Manuel de Sousa Tavares. O João Paulo Velez integrou esta equipa como diretor­-‑adjunto em abril de 1983 e a 7 de junho de 1985 substituiu-me nas funções de diretor. Foi um grupo fantástico e recordo, particularmente, os que já faleceram. Sem estes jornalistas não tinha sido possível relançar o “Diário do Alentejo” e manter a sua qualidade informativa, literária, de discussão e análise. Para mim, os jornalistas, gráficos, administrativos e todos quantos colaboraram com o jornal foram uma verdadeira família com quem muito aprendi e a quem devo muita amizade.

 

Como se deu a sua saída?

Em setembro de 1983 fui convidado a concorrer para assistente hospitalar no serviço de radiologia do Hospital de Santa Maria, tendo sido posteriormente indicado para organizar uma secção de neurorradiologia. Mais tarde, em 1985, fui nomeado assistente da Faculdade de Medicina de Lisboa e visando o doutoramento para professor da universidade obtive uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian para estagiar na Universidade de Western Ontário, no Canadá. Assim, tornou-se impossível manter a direção do jornal que foi assumida pelo João Paulo Velez, na altura diretor-adjunto.

 

Recorda algum episódio desses anos?

Gostaria de recordar as reuniões clínico­- ‑imagiológicas no Hospital Distrital de Beja sob a orientação do saudoso dr. João Manuel Covas Lima, que me entusiasmaram a seguir a carreira de radiologia e a permanecer no Alentejo. Outros episódios igualmente importantes foram os espetáculos de aniversário que o “Diário do Alentejo” organizou em 1984, com o Janita Salomé e o Carlos do Carmo, e em 1983 com os Ceifeiros de Cuba, Sérgio Godinho e José Afonso. Penso que o José Afonso, já doente, fez um grande esforço em estar presente, tendo sido a sua última atuação. O nome maior da música portuguesa despediu-se assim do Alentejo que tanto amava. Recordo ainda com emoção o convívio e a tertúlia com o Manuel da Fonseca, o Michel Giacometti, o João Hogan, o João Honrado, o Adriano Correia de Oliveira, o José Colaço, o Carreira Marques, o Rodeia Machado, o Francisco Felgueiras, o Francisco Santos, entre tantos outros amigos que, me perdoem, não serem mencionados.

 

Que balanço faz da experiência como diretor do jornal?

Subscrevo o que escrevi a 31 de maio de 1985: “Valeu a pena”. Foi uma experiência inesquecível que muito me enriqueceu humanamente, aprendendo muito mais do que o esforço despendido. Consegui voltar a juntar gente dispersa. A minha discreta colaboração conduziu novamente o “Diário do Alentejo” ao seu prestígio habitual, que se tem reforçado com as direções seguintes. Congratula-me ver o nosso jornal continuar a defender, intransigentemente, os interesses da região. Por último, esta experiência permitiu-me disfrutar da amizade de muita gente boa da cidade e do nosso Alentejo.

 

Continua a acompanhar o jornal?

Apesar das dificuldades de tempo, derivadas da minha atividade académica e assistencial, tento sempre acompanhar e ler o jornal, aqui em Lisboa e nas cada vez mais frequentes estadias em Beja, por motivos familiares e profissionais. Neste 80.º aniversário desejo as maiores felicidades ao “Diário do Alentejo”, na pessoa do seu diretor.

 

Médico jornalista

Jorge Guedes Campos nasceu em Moçambique, em 1947, filho de pai ribatejano e mãe da Beira Alta. Queria estudar Direito, mas acabou por tirar Medicina e não se arrependeu. Após o 25 de Abril, o Serviço Médico à Periferia fê-lo conhecer o Alentejo. Apaixonado pela região, trabalhou no hospital de Beja entre 1977 e 1983, onde concluiu a especialidade de radiologia.

Mas este não era o único interesse do médico vindo de Moçambique. O seu empenhamento cívico e cultural levou-o a ser convidado para dirigir o “Diário do Alentejo” que, em 1982, se preparava para reaparecer, após dois anos de paragem. “Apesar de gostar muito de ler e escrever, a minha experiência na matéria limitava-se aos jornais escolares que fazia com o hoje jornalista Mário Crespo, meu colega de escola em Moçambique”, confessa. “Mesmo assim, aceitei o desafio.” Numa redação formada por Miguel Patrício, Pedro Ferro, José Moedas e outros, Jorge Guedes Campos crê que devolveu o jornal “ao seu prestígio habitual, que se tem reforçado com as direções seguintes”.

A carreira médica, na área da neurorradiologia, e a preparação do doutoramento obrigaram-no a sair de Beja e a passar a direção do “Diário do Alentejo” a João Paulo Velez. Entre outras funções, Jorge Guedes Campos dirige atualmente o serviço de Imagiologia Neurológica do Hospital de Santa Maria e é professor associado convidado da Faculdade de Medicina de Lisboa. Mantém uma forte ligação ao Alentejo, por motivos profissionais e familiares, mas também em homenagem à “experiência inesquecível” que foi dirigir o jornal.

Alberto Franco

 

 
 
 
 
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