
Um livro recentemente lançado vem fazer luz sobre o assalto ao quartel de Beja, na madrugada de 1 de janeiro de 1962, por civis e militares oposicionistas. Escrito por José Hipólito Santos, A Revolta de Beja descreve os meandros do golpe com base em documentos inéditos e na experiência pessoal do autor. Ao mesmo tempo, pretende fazer justiça aos “bravos de Beja”, que Hipólito Santos compara aos “indignados” dos nossos dias. O “Diário do Alentejo” entrevistou-o.
Entrevista de Alberto Franco
Se o quartel de Beja tivesse sido tomado e as demais ações previstas no plano da revolta de 1961 não tivessem falhado, Salazar teria caído?
A intenção era essa... Quando em 1 de janeiro de 1962 o general Humberto Delgado chegou a Beja para assumir a direção da revolta, pensava-se que haveria uma grande movimentação popular, não só no Alentejo como no Ribatejo e noutras zonas tradicionalmente contestatárias do regime, como Lisboa e a margem sul. Previa-se, simultaneamente, a adesão das unidades militares – e com isso o governo seria derrubado.
Qual a situação da oposição portuguesa em 1961?
A oposição nunca conseguiu unir- ‑se para derrubar o regime. Essa foi sempre uma das suas fraquezas. Mas no final dos anos 50 há um elemento novo, a campanha eleitoral de Humberto Delgado, que veio dar uma feição completamente diferente à oposição. Enquanto até aí ela tinha sido conduzida por um conjunto de personalidades da esquerda e da direita democrática, Delgado levou a oposição à rua. Surgiu uma dinâmica totalmente nova no confronto com a situação. Beja é feita essencialmente por civis não enquadrados politicamente, como os jovens trazidos por Manuel Serra, um antigo militante católico que aparecia junto da juventude com uma linguagem completamente nova. Participaram também elementos ligados ao PCP, das zonas de Almada e do Barreiro, mas que já não estavam de acordo com a forma como o partido estava a conduzir a oposição ao regime. A Revolta de Beja, gizada por Humberto Delgado, veio romper as tradicionais divisões da oposição e colocar-se acima delas.
Quais as suas ligações à oposição?
Eu estava ligado ao movimento cooperativo e ao grupo da revista “Seara Nova”. No cooperativismo encontrava-se gente nova, que se queria posicionar de forma diferente contra o regime. Uns católicos, outros socialistas, anarquistas e comunistas. Ser cooperativista era uma forma de ser da oposição, embora mais disfarçada.
Quem foram os autores do plano da Revolta de Beja?
Foram o Manuel Serra e o general Delgado, que no Brasil, onde estavam exilados, elaboraram o Plano Íkaro, que previa destituir Salazar através de um golpe que juntasse militares e civis. Com isto, o Plano Íkaro reproduz, de alguma maneira, o Golpe da Sé, em 1959. Com uma diferença: Manuel Serra já não acredita na colaboração dos militares, pois na Sé muitos tinham desistido à última da hora.
Porquê a escolha de Beja para local da insurreição?
Na sua versão inicial, o Plano Íkaro previa o ataque a um quartel do Norte, mas chegou-se à conclusão que aí as coisas seriam difíceis. Procurou-se depois uma unidade no Sul, que permitisse a Humberto Delgado chegar, ocupar o terreno e lançar a sublevação nacional. Beja parece uma unidade militar razoavelmente consistente, numa zona onde existia uma grande tradição antifascista e que apoiou fortemente a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Isto desconhecendo-se ainda que existiam no quartel elementos favoráveis à revolta, pois tal só se veio a saber depois.
Houve tentativas de recrutamento de revoltosos em Beja?
Que eu saiba, existiram apenas contactos entre Manuel Serra e um advogado oposicionista da cidade. No entanto, há indicações de que à hora da revolta estavam grupos em vários cafés e tabernas de Beja, que não sabiam exatamente o que ia acontecer, mas esperavam qualquer coisa…
Os militares implicados na revolta não conheciam em pormenor os planos dos civis. Estes também desconheciam parcialmente a tática dos militares. Essa desconfiança não era, desde logo, um fator de derrota?
Havia medo e uma desconfiança mútua. Como disse um inspetor da PIDE, “a nossa maior vitória foi termos conseguido instalar o medo na sociedade portuguesa”. Toda a gente tinha medo. O capitão Varela Gomes só confiava nos civis que fossem muito politizados. Por sua vez, Manuel Serra desconfiava dos militares. Se estes não o punham ao corrente dos seus planos, ele fazia o mesmo. Isso contribuiu para a derrota, claro.
O PCP foi informado da preparação da revolta?
Pela minha parte, informei Herberto Goulart, que eu sabia que era militante do PCP, do que se iria passar. Antes, houve militantes comunistas de Almada e do Barreiro que aderiram à revolta e transmitiram essa informação aos seus “controleiros”. Numa primeira fase estes disseram-lhe que tivessem cuidado, mas que seguissem para a frente. No momento do golpe, porém, o PCP terá dado instruções aos seus militantes para recuarem, o que no caso do grupo de Almada não teve consequências práticas, mas no grupo do Barreiro sim.
O que levou esses militantes a envolverem-se no golpe, à revelia do partido?
Estavam contra a linha do PCP. Nesse momento o partido defendia a coexistência pacífica, por reconhecer que não havia condições em Portugal para qualquer ação armada. A oposição ao regime devia processar-se através de movimentos de massas, greves, etc. Mas havia militantes que não concordavam.
A PIDE tinha conhecimento prévio da revolta?
Eu cheguei à conclusão que não. O que se sabia é que Humberto Delgado e o Manuel Serra estavam em Marrocos, e que o general dissera que até ao fim do ano de 1961 derrubaria Salazar. Marrocos estava nessa altura na mira da PIDE, porque era ali que se concentravam as forças anticolonialistas portuguesas. As notícias que corriam apontavam para um desembarque no Algarve de um comando chefiado por Manuel Serra, que teria intenções de se refugiar numa montanha para iniciar a luta armada. Mais ou menos como Fidel castro fizera em Cuba, na Sierra Maestra. A PIDE levou tão a sério estas informações que entre outubro e dezembro de 1961 criou um dispositivo de segurança nas unidades militares do Sul. Mas nunca lhes passou pela cabeça que estivesse em preparação a tomada do quartel de Beja.
Em que circunstâncias se deu a sua prisão?
Eu já era conhecido da PIDE por pertencer à “Seara Nova”. A partir do momento em que soube que o meu irmão, tenente Alexandre Hipólito Santos, tinha aderido à revolta, calcularam logo que eu também estava implicado. Cometi um erro e acabei por ser preso no Barreiro.
Os revoltosos foram depois considerados como aventureiros e irresponsáveis….
Viram a sua imagem denegrida por todos. Porque era gente da rua, sem preparação política, ou porque eram militantes do PCP que se deixaram embalar pelas promessas da burguesia, etc. Eu passei um ano e meio com eles, na prisão, e vi que eram pessoas sadias, que se revoltavam espontaneamente contra a prepotência da autoridade, sem se submeterem a ditames partidários. Comparo-os aos “indignados” de hoje: era gente que não aceitava mais a lógica dos partidos e das instituições oposicionistas, mesmo se tinham militado nelas. Estavam indignados com a situação e não a aceitavam.
Um livro contra o “preconceito”
O golpe de Beja enquadrou-se no chamado “Plano Íkaro” – uma operação que visava mobilizar civis e militares para o derrube do regime salazarista. Embora tivesse estado na cidade alentejana, José Hipólito Santos não participou diretamente na insurreição. Teve, no entanto, um papel significativo na sua preparação, ao apresentar ao capitão Varela Gomes o seu irmão, o tenente Alexandre Hipólito Santos, um dos que facilitou a entrada dos revoltosos no quartel de Beja.
Com o livro A Revolta de Beja (Âncora Editora), Hipólito Santos pretende não apenas apresentar uma versão fidedigna do golpe, baseada em entrevistas e documentos inéditos, como fazer justiça aos “bravos de Beja” e destruir o “preconceito” que os reduziu a jovens românticos “possuídos pelo aventureirismo”.
O ano de 1961 tinha sido péssimo para o governo de Salazar: assalto ao paquete “Santa Maria”, início da guerra colonial, golpe do general Botelho Moniz, assalto a um avião da TAP, ataque da União Indiana a Goa… Exilados no Brasil, o general Humberto Delgado e o militante antifascista Manuel Serra acreditaram que era a altura certa para dar o golpe final na ditadura. Com ajuda de outros oposicionistas, gizaram o Plano Íkaro, mais tarde materializado numa revolta que incluía a tomada do quartel do Regimento de Infantaria n.º 3, em Beja, a sublevação de unidades militares noutras regiões, corte de estradas, ações de agitação em diversas localidades e, finalmente, a entrada no País de Humberto Delgado, que faria uma proclamação.
Segundo Hipólito Santos, “havia a convicção generalizada de que bastava atear o fogo num ponto para este se propagar por toda a parte”. Até ao dia da revolta houve uma morosa preparação, que envolveu a procura de meios logísticos, o recrutamento de civis – havia o “grupo de Almada” e o “grupo do Barreiro” – e as tentativas para conseguir a adesão dos militares. Reticente a princípio, o capitão Varela Gomes acabou por aceitar o comando militar da rebelião. Mas, estranhamente, não conhecia em pormenor os planos de Manuel Serra, chefe dos revoltosos civis, nem este estava totalmente a par da tática do capitão.
Depois de duas tentativas abortadas, a 2 e 9 de dezembro, chegou a hora da verdade. Na madrugada chuvosa de 1 de janeiro de 1962 os sublevados entraram facilmente no quartel. Mas uma sucessão de adversidades, das quais a principal foi a perda de Varela Gomes, baleado pelo segundo comandante do regimento, major Calapez, levou ao malogro do golpe. Era Varela Gomes “quem detinha todas as chaves da revolução: era o chefe militar e político, o estratega, quem sabia o que fazer a seguir, quem detinha os contactos dos que deveriam entrar na segunda fase. Nenhum dos outros oficiais tinha autoridade nem força para o secundar”, assinala Hipólito Santos. Por ironia, o carro que conduzia Varela Gomes ao hospital cruzou-‑se com a viatura em que Humberto Delgado chegava a Beja para comandar a revolução. Já era tarde…
Quase minuto a minuto, Hipólito Santos narra a evolução do golpe, desde a rocambolesca perseguição a Calapez, que teve “foros de surrealismo”, até à indecisão resultante “do desespero que se tinha apoderado dos revolucionários”. À derrota seguiu-se “a maior operação repressiva da história do fascismo”, que levou à detenção de centenas de pessoas, entre as quais o próprio autor, que cumpriu 18 meses de prisão. AF
Cooperativista, político e historiador da resistência
Nascido no Porto, em 1932, José Hipólito Santos entrou para as fileiras do antissalazarismo através do movimento cooperativo. Redator da revista “Seara Nova”, divulgadora dos ideais democráticos e cooperativistas, presidiu ao Ateneu Cooperativo. Pertenceu ao MUD-Juvenil e foi um dos implicados no Golpe da Sé, na madrugada de 11 para 12 de março de 1959, uma tentativa de derrube do poder salazarista que juntou militares e civis católicos. Seguiu-se a participação na revolta de Beja, que lhe valeu 18 meses de prisão, apesar de não ter sido julgado.
Exilado em Argel e depois em Paris, Hipólito Santos foi dirigente da LUAR – Liga de Unidade e Ação Revolucionária –, organização antifascista liderada por Palma Inácio, experiência que relatou no seu livro anterior, Felizmente houve a LUAR (2011). Participou no Maio de 68, como membro do comité de ação da École Pratique des Hautes Études (Sorbonne). Regressado a Portugal após o 25 de Abril, envolveu-se novamente na luta política, tendo sido dirigente do PRP.
Na vida profissional, o socioeconomista Hipólito Santos lecionou na capital francesa, na Universidade Paris XIII, e em Lisboa, no ISEG e no ISPA. Foi perito das Nações Unidas e membro das redes Alliance Pour Un Monde Responsable, Pluriel et Solidaire e DRD-Démocratiser Radicalement la Démocratie. AF