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O “ser alentejano” é qualquer coisa que a razão dificilmente explica
 
13-10-2017 9:48:25
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Aos 74 anos, João Mário Caldeira, professor, historiador, escritor, revê-se cada vez mais nessa “argamassa” inexprimível que é o “ser alentejano”. Natural de Santo Aleixo da Restauração, Moura, onde decorre parte da trama do romance que o tem ocupado nos últimos três anos, João Mário Caldeira preocupa-se nesta entrevista com o avanço dos “mares de olivais” sobre a paisagem “literária” do Alentejo, defende um sistema de ensino profissional que contemple as artes e os ofícios tradicionais, demonstra a sua “simpatia” em relação ao movimento independentista catalão e faz a análise ao mau resultado eleitoral do partido que desde sempre apoiou: “O PCP devia-se reformular para que não acabe”.

Texto Paulo Barriga Foto José Ferrolho


O que lhe ocorre quando atravessa estas estradas cercadas de olivais novos de um lado e do outro?
Sinto-me mal, o que não é novidade para qualquer pessoa que seja sensível ao meio e que tenha vivido cá durante muito tempo, como eu. A paisagem foi alterada substancialmente, mas o problema é que, quando olho para aquilo, o que vejo é um desastre ambiental. A azeitona e o azeite, valorizados como hoje estão, com certeza que vão endireitar muitos agricultores. Mas as consequências que daí resultam para as novas gerações não são animadoras, na minha maneira de ver.


Não se revê nesta nova paisagem?
Não, revejo-me na imagem de um Alentejo diferente, do trigo, do montado… esse Alentejo que os grandes escritores deixaram registado. Até o [Miguel] Torga, quando cá vinha, registava uma imagem do Alentejo muito parecida com a nossa, a vastidão, a solidão… isso acabou. Hoje a gente chega ali às terras de barro e não vê se não aquela mancha de olival.


Trata-se, então, de uma paisagem com menos valor literário?
Penso que sim. Até ponho em dúvida se o cante, o nosso cante, poderia sobreviver a uma coisa destas. É que isto é um Alentejo mascarado, do ponto de vista paisagístico…


De qualquer das formas, a paisa­­gem, ainda que “mascarada”, modela sempre a personalidade de quem a habita. 
Quando oiço o cante, especialmente as modas mais antigas, penso que elas nasceram exatamente daquela paisagem, de todo aquele ambiente… não desdenho que daqui a amanhã as pessoas já não se reconheçam no protótipo que foi o da minha criação… isto hoje… sei lá? Isto é o mar, deixa de haver o homem, o chaparro, para haver uma espécie de marítimo no meio deste mar de oliveiras… um alentejano marítimo navegando na solidão do verde das oliveiras…


Foi fundador e professor na Escola de Artes e Ofícios Tradicionais de Serpa. Esse tipo de ensino ainda faz algum sentido nos tempos que correm?
É um tipo de ensino que deveria ser muito incentivado, porque não só defende modos de saber fazer tradicionais como realmente abre possibilidades de profissão aos jovens. É uma ideia que não deve ser posta de lado, deve subsistir no sistema de ensino profissional, embora específico. Trata-se de um ensino ligado a artes tradicionais que podem inclusivamente fazer com que se defenda o património cultural. Tivemos a arte de fazer o queijo, a arte da construção civil tradicional, a taipa, as abóbadas e a olaria…


É como enfrentar o futuro mas com as ferramentas do passado?
Sim, mas ligado à região. Penso que este tipo de ensino, com esse cariz profissional ligado aos valores locais, cabe ainda em qualquer projeto da área da educação.
 
Considera-se um regionalista convicto?
Não gosto muito daqueles regionalistas que, no mau sentido, pensam que a sua terra é a melhor. Não, não é isso. Mas, efetivamente, sou um indivíduo que reconhece que temos aqui valores que é preciso defender e dos quais eu me orgulho muito. Orgulho-me muito da nossa maneira de ser, da nossa maneira de estar que se diferencia bastante das restantes regiões do País. Não é por sermos melhor nem piores, mas temos uma personalidade própria, uma maneira de estar, de encarar a vida e, nesse aspeto, orgulho-me disso e sou, de facto, um alentejano convicto. Ser alentejano é qualquer coisa que mexe comigo, sermos assim, termos esta maneira de estar…


E que coisa é essa que nos diferencia?
Qualquer coisa que se bebe no leite materno, não sei. Certo é que há regiões onde as pessoas se envergonham e dizem que são portuguesas e não há alentejano que não o revele logo de imediato.


É uma questão cultural?

Existe, de facto, uma ligação umbilical à terra que é espantosa e difícil de explicar. E é nesse sentido que eu sou regionalista, porque me orgulho de sermos como somos. Há valores que nos são comuns de que me orgulho. É aí que eu sou um regionalista.


Como é que um homem da raia observa os movimentos independentistas que estão a acontecer em Espanha? 

Por razões históricas que já favoreceram a nossa independência em 1640, não posso deixar de simpatizar com os movimentos de regiões com uma língua e costumes próprios que desejam subtrair-se à tutela centralizadora de Madrid, como é o caso da Catalunha. O castelhanismo dominador mexe desde há muito com as aspirações de povos que sempre se sentiram diferentes, e por isso a sua independência faz sentido. As circunstâncias políticas, em que o franquismo da “Espanha, grande e una” teve papel determinante, adiaram muitas dessas aspirações que hoje a Comunidade Europeia também não vê com bons olhos. A escolha livre e maioritária dos povos em assumirem o seu destino livre de qualquer tutela, fica mal não ser respeitada, embora sobre ela pese a espada de Damocles do capitalismo autoritário, como está a acontecer na Catalunha. Há de haver diferenças de opinião entre os portugueses sobre o problema catalão mas parece-me que uma indiferença expectante prevalecerá. Na opinião geral o assunto pouco deverá afetar-nos.


Agora foi o político que falou. Como é que um já longínquo apoiante das listas da CDU observou o resultado eleitoral no distrito de Beja?
Foi coisa esperada, porque, não há dúvida nenhuma, aqui votava-se CDU quase como uma inevitabilidade. A CDU era uma argamassa que nos unia mas a história diz-nos isso muitas vezes, estas coisas não são imutáveis e estes valores que nós defendemos, um pouco utópicos, até, não são compreendidos pelas novas gerações.


É a passagem da utopia ao pragmatismo?
Se reparamos bem, por trás do PCP está uma ideologia que é quase arqueológica, porque hoje não há possibilidade de aquele sistema ser implantado em termos políticos. Isso faz com que quem vai votando sempre na CDU seja um determinado grupo de pessoas que ainda vivem os valores que a CDU tem, que são valores também humanos e importantes, mas que realmente os novos já não os partilham. E é isso que faz com que a CDU vá perdendo fulgor no Alentejo.


Está a reconhecer um certo anacronismo na base ideológica do PCP e, obviamente, da CDU?
Penso que sim. Aliás, até acho que grande parte dos indivíduos que lá estão, e que dão o seu melhor, também sabem que existe esse anacronismo. Repito, há valores importantes que na CDU são defendidos, como a defesa dos mais fracos, mas é impossível hoje em dia concretizar um sistema político baseado apenas no marxismo. E aí é que reside o anacronismo. Até nos próprios países que ainda têm o comunismo como sistema, mais cedo ou mais tarde as coisas vão evoluir e vai realmente haver uma certa negação.


Há, em seu entender, alguma coisa que possa estancar a tal “perda de fulgor” do PCP?
Com esta maneira de estar do próprio PCP em termos de atuação é difícil, não sei. Penso que o PCP, na minha maneira de ver, devia-se reformular para que realmente não acabe. Devia de haver uma reformulação na defesa dos valores que o PCP tem, que são importantes, mas, ao mesmo tempo, integrando-se mais numa democracia efetiva. Não sei como, mas o certo é que na Europa já só estamos nós, com este tipo de partido comunista.


Considera-se um político?

Estive na política e não gosto. Estive porque fui sempre chamado e fui aceitando. Sempre ao lado de comunistas, grandes amigos, pessoas excelentes, mas pronto, sempre disse que insistiam num discurso anacrónico e muito monótono, não é? Em termos políticos, isso pode ir afastando muita gente, na minha maneira de ver.


“É aqui que está 
a nossa alma”

O Alentejo das oliveiras jamais entrará num romance do João Mário Caldeira?
Não conseguiria, a não ser que inventasse alguém que se perdesse alienado no meio deste mar de oliveiras. Se bem que o Alentejo do livro que estou agora a escrever não seja também o tradicional. A trama ocorre o século XVI e, nesse tempo, o Alentejo era muito mais selvagem.


Fale mais um pouco desse novo livro.

Nasceu de uma história curiosa que o meu irmão desenvolveu num trabalho sobre Santo Aleixo da Restauração. Nesse livro ele fala de um homem que veio do norte e que, com um companheiro, se implantou numa região selvagem, próximo da fronteira com Espanha, tentando praticar um certo eremitismo. Era filho de um padre e desaguou aqui, depois de ter ido para o Brasil, onde acabou por criar uma espécie de zona de crença, de aparições… um santuário. Criou ali um convento que chegou a ter 15 frades. Este indivíduo através do rei D. Pedro II chegou inclusivamente a ir a Roma ter com o papa e conseguiu transformar o convento em qualquer coisa de muita importante.


Mas não há história sem uma boa trama…
Depois ele acaba por se meter com os noviços e tal. Há a questão da homossexualidade e também o contrabando com Espanha, na altura o tabaco, e o tipo acabou por ser preso. É uma figura do caraças. “Aproveito-me” desta personagem, mas romanceio por completo a sua história. O livro vai ter um fim completamente inesperado, ele acaba por fugir com uma espanhola…


Quando é que poderemos ler este seu novo romance?
Ainda não está fechado, embora já o esteja praticamente. Eu queria encerrar já, porque isto nunca se sabe. Quando se começa a escrever, por vezes pensamos que vamos terminar, mas nunca mais acaba. Às vezes chega-se a escrever páginas e páginas de livro quando a gente pensava que ele ia terminar… apanha-se ali um fio condutor…


Nem sempre ao longo da sua bibliografia, o escritor João Mário Caldeira se cruzou na mesma narrativa com o historiador João Mário Caldeira…

É verdade, nem sempre assim foi. Apesar de este último livro, que se chama Quase Só a Voz do Vento, já ter alguma coisa de histórica porque eu aproveitei a partilha do baldio aqui da serra grande de Serpa. Foi, talvez, o livro que teve mais ligação com a história. Embora este tenha muito mais. Há até uma parte onde ele vai para África, para o Colégio dos Jesuítas de Luanda… a história da escravatura e das missões jesuítas são parte importante deste livro.


Estes são os dois territórios fundamentais do João Mário Caldeira, a serra de Serpa e a zona fronteiriça de Santo Aleixo da Restauração.
É curioso e é verdade. Vou escrevendo e vou puxando as coisas para que a história venha entroncar aqui nesta região ou que venha decorrer aqui… Voltamos ao início da conversa: é aqui que está a nossa alma.





 
 
 
 
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