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Um tema de sempre a que a situação atual de seca extrema veio dar mais visibilidade. A falta de
 
11-08-2017 11:02:03
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Quando autarcas, engenheiros, arquitetos, historiadores, um filólogo e um padre se encontram falam sobre o quê? Falam sobre água, ou melhor, sobre a vida. A de ontem, a de hoje e a de amanhã. Foi o que aconteceu no passado fim de semana em Alvito, onde se realizou a conferência “Questões da água – Do local ao global”.

Texto Aníbal Fernandes


As “Questões da água” foram o tema central da conferência que os Estudos Gerais de Alvito (EAG) organizaram, em colaboração com o município local, no passado fim de semana no centro cultural daquela vila.
Escolhido há cerca de um ano, o assunto ganhou ainda mais visibilidade devido à situação de seca severa e extrema que assola o País, em geral, e o Alentejo, em particular.
Mas não se falou só da falta de água, dos problemas e das soluções que urge encontrar: a religião, a arte, a arquitetura ou a história, de uma forma ou de outra, ilustraram a importância dessa “substância primordial”, na definição do matemático e astrónomo Tales de Mileto, que viveu no século VI antes de Cristo, e ali citado pelo presidente da Câmara Alvito na abertura dos trabalhos.
Aliás, António Valério começou a sua intervenção recorrendo à Bíblia: “No princípio Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo e o espirito de Deus movia-se sobre a superfície das águas”…
Um olhar para o tema proposto que, mais tarde, o padre Paulo Godinho haveria de retomar quando, numa leitura pouco ortodoxa do evangelho de São João, se referiu ao episódio do encontro de Jesus com a samaritana junto ao poço de Jacob.
Para Paulo Godinho, licenciado em Psicologia e História e especialista em Teologia Dogmática, Teologia Espiritual e História da Igreja, este episódio das escrituras sagradas revela-nos que “Deus é espírito, é útero, é água” e, num registo mais irónico, diz-nos “que Jesus quer destruir a religião, antecipando-se a Marx”.
De uma forma mais pragmática, o documento de apresentação do evento elaborado pelos Estudos Gerais de Alvito lembra que, “vista de longe, a terra parece água pura, mas não é assim tão pura, é cada vez mais escassa e difícil de obter”.
A exposição apresentada por Francisco Nunes Correia, professor de ambiente e recursos hídricos no Departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico (IST), alerta que a água “pode ser fator de conflito ou de cooperação” e lembra Robert Kennedy que defendia dois prémios Nobel para quem resolvesse o problema da água: o da Ciência e o da Paz.
Diz Nunes Correia que “é necessário ter uma visão global e integrada sobre o problema da água”, fortemente acossada pela explosão demográfica, pelas pressões ambientais e pelas alterações climáticas.
Só de 1900 a 2000 as captações de água aumentaram 10 vezes. Os cientistas calculam que, em Portugal, até 2100 se assista a um aumento da temperatura média anual, em algumas regiões, até seis graus centígrados, e a uma diminuição da precipitação de 30 por cento.
Assim, é fundamental “assegurar a disponibilidade fiável de água, em condições aceitáveis de quantidade, qualidade e de proteção dos ecossistemas hídricos, assegurando as necessidades humanas de saúde, higiene e produção”, avisa Nunes Correia. São estes os desafios, não do futuro, mas do presente.
Alqueva E do presente falou Jorge Vazquez, administrador e diretor coordenador da direção de engenharia, ambiente e planeamento da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva. 
Lembrando que o Empre-endimento de Fins Múltiplos de Alqueva é “um projeto estratégico nacional”, o responsável pela EDIA confessou que “o pedido de água nunca foi tão grande”, concluindo que Alqueva estava a “ser vítima do seu próprio sucesso”.
Apesar de a conclusão da obra ter sido antecipado em cerca de sete anos (estava previsto para 2025) e estar a ser lançada a cobertura de mais 50 mil hectares para os próximos cinco anos, Jorge Vazquez diz que temos de estar preparados para grandes períodos de seca. “Caminhamos para períodos de 10 anos de seca e para ondas de calor mais prolongadas”, avisa.
O administrador da EDIA admite que ao longo deste percurso foram cometidos erros, mas essa “curva de aprendizagem”, como lhe chamou, permite ter mais confiança no futuro. “Estamos próximos das pessoas e temos aprendido muito com elas”, não só no abastecimento de água às populações e à agricultura, mas também nas áreas do ambiente, do turismo, da inovação, do desenvolvimento ou das energias renováveis.
“O empreendimento é uma barreira verde contra as alterações climáticas”, diz Jorge Vazquez, que aponta a preservação do montado e a monotorização ambiental como consequências positivas deste investimento.
Como novidade ficou o anúncio de uma futura aposta em parque fotovoltaicos flutuantes para aproveitar as 1 200 horas de sol de que a região beneficia e assim, para além de poupar em energia, evitar a evaporação da água e salvaguardar a sua qualidade.
José Silva Costa, administrador executivo das Águas Públicas do Alentejo, lamentou que “não se fale de seca na altura das cheias”. Centrou a sua exposição no ciclo urbano da água e na necessidade de investimento – cerca de 200 milhões de euros até 2020 – para modernizar a rede e finalizar algumas ligações entre albufeiras.

História Filipe Themudo Barata, professor na Universidade de Évora, fez a invocação de um amigo, Moahmmed El Faiz, precocemente desaparecido no início deste ano. Este marroquino, de Marraquexe, para além de um “cidadão empenhado” era “um dos mais brilhantes estudiosos da história da agronomia e dos jardins árabes”.
Isso levou-o a conhecer as técnicas e as estruturas que esse mundo árabe e muçulmano desenvolveu ao longo da história e que resultou “numa das mais bela obras sobre o tema Les maîtres de l’eu”.
No ar ficou uma pergunta para a qual Moahmmed El Faiz, infelizmente, não conseguiu descobrir uma resposta: “Por que é que a civilização árabe-islâmica ganhou tanta importância técnico-científica, e porque a perdeu”?
Santiago Macias, presidente da Câmara de Moura, licenciado em História na Universidade de Lisboa e doutorado em Lyon, também nos falou do mundo islâmico.
A sua antiga ligação ao Campo Arqueológico de Mértola permitiu-lhe apresentar uma série de slides onde a água desempenhava um papel fundamental, nomeadamente em reservatórios para consumo humano, azenhas, armadilhas para peixes, complexos de banhos e sistemas de saneamento numa malha urbana.
No segundo dia da conferência, durante a manhã, Pedro Cantista, presidente da Sociedade Portuguesa de Hidrologia Médica, falou sobre “A água e saúde”; o arquiteto João Rocha fez uma apresentação intitulada “Arquitetura e água: Patrimónios partilhados”; António Lamas, professor no IST, debruçou-se sobre como “Captar e levar água às pessoas inspirou sempre obras de arte”.
À tarde, as arquitetas Aurora Carapinha e Maria Graça Saraiva falaram, respetivamente, sobre “A poética da água no jardim” e “Cidades à beira de água”. A finalizar, Artur Anselmo, filólogo, apresentou “Camões poeta da água”.


“Vamos ver se esta utopia se pode manter”

 Jorge Gaspar é professor emérito da Universidade de Lisboa e um especialista em projetos aplicados em geografia, planeamento e urbanismo. A sua atividade centrou-se ainda no desenvolvimento regional e urbano quer em Portugal, quer na Argélia, Macau e Angola. É presidente da Associação dos Estudos Gerais de Alvito.

Quando e porquê nasceu a Associação Estudos Gerais de Alvito?
A Associação tem uma dúzia de anos. A ideia inicial era trazer até Alvito personalidades nacionais e estrangeiras para falar sobre assuntos tanto locais como do mundo e articular as questões do local com as questões do global através de conferências. Algumas de âmbito aberto, outras mais circunscritas. Por exemplo, já tivemos cá os três presidentes da Federação Mundial de Ciência Regional para falarem sobre as questões do desenvolvimento regional, sobre turismo, enoturismo, turismo cultural, património. Uma outra iniciativa centrou-se sobre o envelhecimento, o despovoamento e o papel da emigração – replace migration – que pode resolver o declínio demográfico. O ano passado o tema foi a obra do poeta Raul de Carvalho. Uma que cruzou o local e o global foi o caso da caça. Inicialmente tive algumas dúvidas sobre o tema, que era um assunto que desconhecia, mas revelou-se muito interessante para o ordenamento do território. Tivemos a presença de grandes especialistas e o que foi discutido acabou por influenciar orientações para o ordenamento do território em Portugal. Fui coordenador da primeira versão do Plano Nacional de Ordenamento do Território e faltou um capítulo dedicado à caça porque eu não tinha consciência da sua importância…

Apesar dos temas serem escolhidos com muita antecedência, a água revelou-se uma “infeliz” coincidência
Os temas são escolhidos por uma assembleia, um grupo diminuto, porque é um grupo “elitista”. Nós pretendemos que façam parte do grupo pessoas com ligação a Alvito e que com consciência de que é esta vila e concelho e a região onde se inserem. Fazemos uma reunião e discutimos quais são os temas a abordar. Confesso que o ano passado o tema que teve maior apoio por parte dos associados era da área da história. Mas quando começamos a procurar pessoas para colaborar nesse tema – que era os Descobrimentos e a ligação ao Alentejo -, disseram-nos que o tema já estava muito batido. A professora Mafalda Cunha, da Universidade de Évora, sugeriu vários temas, entre os quais a água, e eu achei muito interessante. Procurámos que este colóquio tivesse uma preocupação que fosse desde as questões básicas da água a nível global, das infraestruturas, das tecnologias, da ciência às questões mais da natureza da arte.

Como é que é possível fazer um evento deste no “Alentejo profundo”?
Quero relevar aqui um aspeto: tudo o que se faz, todas as participações são pro bono. Vamos ver se esta utopia se pode manter assim, mas, até agora, as pessoas têm saído satisfeitas por virem cá dar o seu contributo. Imagine que, desta conferência, já recebi uma série de emails a agradecer a oportunidade de terem participado. É claro que a sua participação foi excelente, até porque algumas delas têm gabarito internacional. E também é evidente que isto é uma vantagem porque somos livres, mas é uma limitação que não sei se poderá manter no futuro. Vamos ver. Para já contamos com um pequeno apoio da Câmara Municipal de Alvito e outros de natureza afetiva. 

A par da conferência foi inaugurada uma exposição de fotos de José M. Rodrigues e Maria-do-Mar Rêgo no Espaço Adães Bermudes…
As exposições são feitas regularmente pelos EGA porque dispomos de um espaço cedido pelo município numa antiga escola primária. Mas uma boa parte dessa atividade resulta de uma outra associação, a inter.meada que tem como objetivo principal promover residências artísticas. De resto, estas conferências de verão são feitas em simultâneo com o início das residências artísticas de agosto. Neste momento estão cá quatro artistas e vamos receber mais dois a meados do mês. O trabalho destes artistas será apresentado no ano seguinte. E temos tido cá artistas que têm prosseguido carreiras muito interessantes a nível internacional.

Já existe tema para o próximo ano?
Não. O tema do próximo ano só será escolhido em outubro, pela Feira dos Santos. 
 
 
 
 
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