
Os dias da Defesa Nacional
Chegam em autocarros ao Regimento de Infantaria n.º 3, vindos dos distritos de Beja, Évora, Faro, Portalegre e Setúbal. São jovens e todos completam 18 anos em 2011. Foram convocados para o Dia da Defesa Nacional e a sua presença é obrigatória. Na unidade militar, até ao próximo dia 22, está tudo a postos para os receber. É tempo de perceber o que é isto da Defesa Nacional, até porque esta é uma tarefa que toca a todos, e não só aos militares, como muitos destes jovens pensam. Neste dia ninguém é recrutado, mas quem quiser futuramente ingressar nas Forças Armadas é bem-vindo.
Texto Bruna Soares Fotos José Serrano
No Regimento de Infantaria n.º 3, em Beja, os soldados alinham-se à entrada. Pouco depois ouve-se o clarim. Está na hora de render a guarda. Ainda mal a manhã acordou e já os militares do RI3 têm tudo pronto para receber mais um grupo de jovens, desta vez vindos de Portimão, para participarem em mais uma jornada do Dia da Defesa Nacional.
Os autocarros aproximam-se. Os jovens, ainda pouco acostumados às regras dos militares, falam alto, riem muito e prestam, sobretudo, pouca atenção. Muitos imitam os militares que marcham. Mas o cenário rapidamente se altera. Os militares das Forças Armadas pedem silêncio, explicam as regras e apelam ao bom senso. No fim perguntam: “Há dúvidas?”. E, neste momento, já é o silêncio quem mais impera. Ninguém se manifesta. “Ótimo”, afirma uma das oficiais.
Os jovens alinham-se. Não sabem muito bem ao que vieram e a maioria pensa que o Dia da Defesa Nacional é uma ação de recrutamento para o Exército, para a Marinha ou para a Força Aérea. Hugo diz que “não quer ser militar”. Joana responde: “Eu também não”. O João, por sua vez, afirma: “Tenho de pensar”.
“Quando chegam ao RI3 estes jovens têm um misto de sentimentos. Nota-se uma certa apreensão, mas este dia acaba por ser também um motivo de encontro, uma vez que muitos deles já se conhecem. O dia representa uma aventura, mas ao mesmo tempo os jovens questionam: o que é que eles [militares] querem de mim. O que é isto da Defesa Nacional? Estes jovens têm muitas expetativas. Este dia acaba por ser um desafio”, considera Vilas Leitão, comandante do Regimento de Infantaria n.º 3.
O barulho inicial dos jovens, consoante o tempo passa, vai dando lugar ao silêncio. Há, no entanto, quem deixe escapar uma gargalhada mais alta, quem não consiga controlar-se. Dentro de momentos proceder-se-á à cerimónia do içar do estandarte nacional e o momento, como explicam os militares, não é o indicado para brincadeiras.
Os oficiais tentam controlar a situação e são incisivos quando falam. Pedem respeito pela cerimónia que vai decorrer. Mariana, uma das muitas alunas que completa este ano 18 anos de idade, foi a escolhida para içar a bandeira nacional.
“Este é um momento que a vossa colega não vai esquecer”, diz o comandante do RI3 aos jovens presentes. E rapidamente acrescenta: “Espero que também todos vós guardem este dia na vossa memória”.
O ar relaxado dos jovens contrasta com o dos militares, cientes da sua postura e dos seus valores. Mas aos poucos os jovens de Portimão vão-se habituando às regras da unidade.
“A Defesa Nacional não é só um assunto dos militares” “A ideia que as pessoas têm é que a Defesa Nacional é um assunto dos militares. As Forças Armadas são o braço armado dessa Defesa Nacional, porque o Ministério da Agricultura tem a sua componente de Defesa Nacional, o Ministério da Saúde tem a sua componente de Defesa Nacional, assegurando os hospitais e os centros de saúde, o Ministério dos Transportes também tem a sua componente. A Defesa Nacional é de todos e todos são poucos para a garantirem”, explica o coronel de Infantaria Vilas Leitão.
Os jovens escutam atentos. Não interrompem e rapidamente formam uma fila para se dirigirem ao local onde será servido o pequeno-almoço. Enquanto uns comem, outros procedem à identificação. O tempo é controlado ao milímetro. O rigor, no RI3, é quem mais ordena.
Joana, de cabelos longos, conversa com os amigos, que ostentam óculos de sol de cores variadas. Estão expectantes quanto às atividades que prepararam para si.
A jornada começou às 9 e 30 horas e só terminará às 17 horas. Na parte da manhã, entre outras coisas, são explicadas as razões porque existe o Dia da Defesa Nacional, o significado da Defesa Nacional, o que é ser cidadão, as missões das Forças Armadas, a sua organização e os recursos que lhe estão afetos. À tarde, entre outras atividades, há espaço para uma visita à Base Aérea nº 11, em Beja.
“Todos os que participam no Dia da Defesa Nacional têm direito a alimentação, transporte e, em caso de necessidade, alojamento por conta do Estado”, lembra o comandante do RI3.
A comparência dos jovens é um dever militar obrigatório para todos os cidadãos portugueses que cumpram 18 anos de idade, que ocorre nos Centros de Divulgação de Defesa Nacional, com sede em unidades militares.
“A missão do RI3 é aprontar o efetivo operacional que lhe for determinado por escalão superior. Em termos estruturais temos uma unidade operacional e daí decorrem as suas atividades. Como o RI3 tem um encargo operacional de escalão pelotão, há condições de natureza operativa que levam a que possa fazer algo mais. Restabelecida a missão pode constituir-se como um Centro de Divulgação de Defesa Nacional, que abrange os distritos de Beja, Faro, Évora, Portalegre e alguns concelhos do distrito de Setúbal (Sines, Alcácer do Sal e Grândola)”, revela o coronel de Infantaria.
Na verdade, durante as jornadas do Dia da Defesa Nacional, nesta que é sua nona edição, que decorre até ao próximo dia 22, o RI3, enquanto Centro de Divulgação de Defesa Nacional, “vai acolher 3 200 jovens”.
Na segunda-feira passada, 135 jovens, vindos de Portimão, cumpriram o seu dever, em Beja, e, durante todo o dia, as atividades foram viradas para “a promoção dos valores”.
“Julgo que os jovens com 18 anos, não só pelas novas tecnologias, como também pela comunicação social, quer também pelos planos curriculares, estão predispostos para esta questão da Defesa Nacional”, considera o comandante da unidade.
Nos altifalantes do RI3, neste dia, tocavam músicas bem conhecidas dos jovens. E, enquanto deambulavam de atividade em atividade, descontraíam. É uma das táticas para os familiarizar. O Dia da Defesa Nacional é, exclusivamente, preparado para estes jovens e a ideia é que eles levem uma ideia positiva das Forças Armadas e, de ano para ano, isso está a acontecer. “A imagem dos militares melhorou muito junto dos jovens”, adianta o coronel Vilas Leitão.
Os oficiais, enquanto decorriam as atividades, ironizavam: “O almoço é esparguete com sardinhas”. Os jovens faziam uma cara apreensiva. Desconfiavam, riam, mas estavam preparados para tudo. Rapidamente apreenderam as regras da unidade. Em fila, sem dispersarem, como um autêntico pelotão seguiam pela parada. Depois da cerimónia do arriar da bandeira rumaram até ao sul. O dia, esse, só terminou com a sua chegada a Portimão, local de onde partiram assim que o sol raiou.

