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A doença e o sorriso de António Quadros e Costa têm algo em comum
 
14-07-2017 10:29:20
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Não foi bem um “azar”, aquilo que sucedeu na vida de António Quadros e Costa, “foi um obstáculo”. Apenas mais um. Aos 15 anos ninguém lhe tirava da cabeça a ideia de vir a ser cavaleiro profissional. Recebia aulas escolares de manhã e lições de equitação à tarde. Todos os dias. “Gostava tanto que pensei mesmo em fazer vida dos cavalos”. E não foi o primeiro diagnóstico médico, atrofia muscular espinhal do tipo 3, que logo logo o fez apear. Foram os sintomas. Os sinais de uma doença que lhe foi travando o desenvolvimento motor. Devagarinho. Silenciosamente.

Texto Paulo Barriga Foto José Ferrolho

Não cabe dentro destas páginas de jornal o sorriso, tão peculiar, mas tão autêntico, de António Quadros e Costa. Ontem, dia 13 de julho, fez 25 anos. Já passou uma década desde que os médicos lhe diagnosticaram uma daquelas doenças tão raras, a incidência é de um em cada 10 mil nascimentos, quanto o seu jeito de sorrir. Assim como nada usual é também a “naturalidade” com que encara aquilo que diz ser o seu “problema”. “Todos os dias me tenho de adaptar”, reconhece, “mas convivo bem com isto”.
É verdade que agora, no dia-a-dia de António Quadros e Costa, os cavalos “apenas” fazem parte da terapia para uma maleita que ainda não tem propriamente volta a dar-lhe. Pelo menos para já. Mas esta mesma doença que hoje o impede de se levantar sozinho de uma cadeira não conseguiu demovê-lo de entrar para universidade, onde se licenciou em Agronomia (depois de também ter deambulado por Medicina Veterinária e por Gestão de Empresas) ou de, atualmente, estar a concluir uma tese de mestrado sobre “economia agrária e a evolução da Política Agrícola Comum desde que aderimos à Comunidade Europeia”.
“Se não tivesse esta doença, a minha vida não seria igualzinha, não da mesma forma, mas vive-se bem”. É impossível escutar as palavras de António Quadros e Costa sem fazer uma introspeção e sem nos confrontarmos com as incidências “banais” da nossa vida: “O ponto fulcral é a forma como se encaram as coisas”, torna a sorrir quem, para além dos estudos de mestrado que ainda decorrem em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, é desde setembro sócio do Lagra, um novo laboratório agrícola que hoje funciona em Beja.


O sal da Vida E é precisamente no escritório deste recente equipamento, onde se analisam azeites, azeitonas, folhas, solos e águas de rega, que António Quadros e Costa nos recebe para uma primeira entrevista. Não é grande, nem pequeno, o entusiasmo com que fala desta sua “nova aventura”, como lhe chama, é simplesmente o mesmo com que parece encarar todo e cada momento da sua existência. “A felicidade não se perde, não se pode perder, pelas coisas que nos acontecem, pelos obstáculos que a vida nos dá, não é? Se não, perdemos também o sal a vida”.
A atrofia muscular espinhal que nele se evidenciou há 10 anos caracteriza-se pela ausência de um gene que é responsável pela sobrevivência do chamado “neurónio motor”. E quando esse gene não existe, não funciona ou tem defeito, vão definhando as células que seriam responsáveis pela comunicação entre o cérebro, a coluna e os músculos. A degradação das aptidões motoras evolui de forma diferente de pessoa para pessoa, mas evolui sempre. Irreversivelmente. “Numa primeira fase não precisava de ajuda para nada”, relembra António Quadros e Costa, “agora preciso de ajuda para me levantar de uma cadeira, para andar convém ir apoiado em alguém ou a uma parede, para subir escadas também…”. 
Apesar das limitações evidentes ao nível dos membros inferiores, António Quadros e Costa não deixa em momento algum que a doença prevaleça sobre as coisas que quer, que tem necessidade ou que simplesmente deseja fazer no seu dia-a-dia. “Gosto muito de conviver com os meus amigos, de beber um copo, ainda agora vim do almoço… e também gosto muito das coisas que são ligadas à minha terra, de ouvir o cante alentejano, apesar de cantar muito mal”, assume.
E para demonstrar que também as “coisas ligadas à terra” estão em perfeita atualização, propõe uma visita guiada ao espaço de laboratório propriamente dito. Para tanto, tenho de encostar os meus aos seus pés, de frente um para o outro, abraçá-lo por debaixo dos braços, e, num movimento de alavanca, ajudar a içar o corpo para a posição vertical. Agora já vai por conta própria, autónomo, como gosta, ajudado pelas paredes e por uma fina bengala de bambu. “Há pessoas que olham para mim com pena, outras que olham como uma pessoa normal. Cada um olha para mim como quer. O que interessa, e lá estou eu outra vez, é aquilo que faço com esses olhares”, diz.


Filho de peixe sabe nadar
Nesta altura é o seu próprio olhar, sempre curioso, de quem gosta de aprender, de estudar, que passa em revista a maquinaria e os apetrechos laboratoriais que estão sobre as bancadas de trabalho. A campanha oleícola está distante, não há amostras de azeite nem de azeitona para analisar, mas “já se adivinham aqui dias de grande azáfama”. A par da gestão no Lagra, que partilha com a engenheira agrónoma Josefa Ferreira, António comparte igualmente a sua vida entre Beja e Lisboa, onde, na casa do irmão, Bento Quadros e Costa, tenta arranjar “sossego e foco” para desenvolver os seus estudos em torno do desenvolvimento da agricultura no Alentejo desde que começaram a chegar os fundos comunitários.
“A agronomia aparece na minha vida quase como uma inevitabilidade”, admite quem, na força da idade e sob os avanços de uma doença com a qual “não sabia ainda lá muito bem lidar”, se viu enredado nas malhas da adolescência: “Aos 18 anos, e em apenas dois meses, frequentei três cursos diferentes”. Mas o “chamamento da terra” acabou por se fazer ouvir mais alto. Filho e neto de engenheiros agrónomos, apesar de sempre ter vivido e estudado em Beja, António Quadros e Costa nunca cortou as “ligações com o campo”, nomeadamente com o Monte de São João, que fica ali para os lados de Montes Velhos, Aljustrel.
O tempo, agora, não lhe sobra, embora não descarte, num futuro próximo, dedicar-se à “agricultura hardcore”. “Caso venha a ser agricultor, provavelmente também farei olival”, perspetiva António Quados e Costa naquele misto de rigor e de alegria em estado puro que tanto o caracterizam: “Trata-se de uma cultura muito bem adaptada às nossas condições agroclimáticas e, em cima disso, o azeite tem estado a preços muito bons nos últimos anos. Sou muito apologista do olival, embora ache que temos de diversificar, uma vez que uma região como a nossa não pode ficar dependente de uma só cultura”, pensa, com o tal sorriso sempre aceso no rosto.


Fazer o luto
A atrofia muscular espinhal do tipo 3 é uma doença silenciosa que, quando a espaços se manifesta, fá-lo na forma de avanços consumados. “Não é fácil lidar com ela”, assegura, “mas não é fácil, sobretudo, encará-la logo no início”. Pela primeira vez, ao longo de duas longas sessões de entrevista, o semblante de António Quadros e Costa muda de feição, densifica-se. “Também tenho momentos em que estou triste e tive muitos momentos de tristeza, de desânimo, principalmente logo a seguir à doença ter aparecido”.
“Nunca fui um grande atleta”, revela, “usava sapatos ortopédicos, mas joguei ténis muitos anos, fiz natação… nunca ninguém suspeitou que eu tivesse isto”. Aos 15 anos, “fiquei sem saber o que iria fazer, o que iria ser a minha vida… No início não me consegui adaptar ao que me estava a acontecer… Se tivesse parado um bocadinho para me readaptar, provavelmente não tinha sofrido tanta tristeza. Mas não, não me fui abaixo, quis um bocadinho assobiar para o lado, como se nada se passasse. Se calhar, não fiz o luto da doença na altura certa e, por isso, levei tanto tempo a adaptar-me”. É que, quando se tem esta doença, tudo na vida passa a ser uma luta contra o tempo. 

Não é uma cura mas para lá caminha

Em dezembro último, um laboratório médico, em associação com uma empresa ligada à biotecnologia, fizeram aprovar na FDA, que é a agência reguladora do medicamento nos Estados Unidos da América, a comercialização de uma droga que pode ir direito ao assunto. “Não é propriamente uma cura”, sabe-o António, “mas sempre é um avanço”. Após cinco anos de testes, aos quais foi submetida uma centena de crianças, os resultados dos tratamentos com a substância nusinersen revelaram bons indicadores. Sem ser uma cura definitiva para a doença genética que mais crianças mata em todo o mundo, os cientistas que desenvolveram esta droga acreditam que a atrofia muscular espinhal deixou de ser “uma sentença de morte”, segundo declarações ao jornal brasileiro “O Globo”. António Quadros e Costa está atento ao desenvolver das pesquisas, embora reconheça que devia dedicar-se “mais ao estudo dessas coisas do que aquilo que hoje faço”. Assim mesmo, mostra-se disponível para “ser cobaia” para testes deste ou de outros medicamentos que venham a ser produzidos. Esta doença debilita gradualmente o sistema nervoso, ao ponto de os pacientes perderem a capacida detotal de se movimentarem e até mesmo de respirar.
Ainda não se sabe quanto pode vir a custar, nem quando será autorizada em Portugal, a comercialização do nusinersen.

 
 
 
 
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