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Vinte e nove montes por eletrificar nos ermos de Serpa
 
14-07-2017 10:27:50
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A serra de Serpa ocupa 40 por cento do concelho. É um dos lugares onde ainda se ouvem apenas os sons da fauna local, onde há pessoas que vivem de bem com a vida, mas sem eletricidade ou água canalizada. Caminhos de terra batida, montes e lugarejos escondidos, onde só vai quem sabe, casas sem telhado, onde algumas árvores optaram por viver, pequenos rebanhos de ovelhas, espantados com a nossa presença, hortas e pessoas. Pessoas simples, que vivem em montes onde se passam dias e dias sem que apareça ninguém. Onde há quem queira ficar, mesmo que seja quase impossível apanhar rede no telemóvel ou ter Internet, mas de onde muitos acabaram por partir, em busca de mais e melhor. É como viver ao contrário, onde o conforto é colocado depois da liberdade de cada um. Acabamos por ficar espantados com a longevidade das pessoas e ainda mais com a sua boa disposição.

Texto Natacha Lemos Foto José Ferrolho

A visita ao Monte da Chaminé, um dos 29 montes onde ainda não há eletricidade, só nos foi possível porque na serra todos se conhecem e Maria de Jesus, do Monte João de Moura, se disponibilizou para nos levar ao local. Consigo levou os netos, e acabou por reviver uma amiga que não via há cerca de 30 anos. 
Depois de deixar o alcatrão, e de passar por diversas casas em ruinas, vislumbramos alguns cães. Seguem-se as galinhas. Num serro encontramos o monte e os seus habitantes à porta, sentados, como se estivessem à nossa espera. Recebem-nos sem desconfiança e com uma fatia de bolo. Falam, gostam de conversar, respondem ao que perguntamos e riem com gosto ao ver as crianças correr por entre pedras e animais. 
Há 38 anos, com apenas 16, Leonor Silva deixou para trás o Monte da Chaminé, em plena serra de Serpa e rumou ao Algarve. Não o deixou para sempre e quando pode volta à casa onde ela e os irmãos nasceram, onde hoje ainda vivem os pais, ambos na casa dos 90 anos. No Monte da Chaminé, localizado na zona da Neta, perto de Cabeceiras de Vale Queimado, ainda vivem quatro pessoas. Além dos pais de Leonor, um dos irmãos e uma tia. Não têm energia elétrica. Como eles, mais 28 montes da serra vivem sem este bem essencial.
Leonor fala da escola onde aprendeu a ler, para onde se deslocava todos os dias a pé. O caminho “roubava-lhe” cerca de meia hora, e era feito pelo campo, sempre no meio da parca vegetação característica da serra de Serpa. “Tínhamos mais de 100 crianças nesta escola, quando lá andava”, recorda. Hoje a escola alberga associações.
António Silva, de 50 anos, irmão de Leonor, trabalha numa herdade próxima. Faz o trabalho do campo. À nossa chegada, não o encontrámos. Foi a sobrinha, de férias na serra, quem o foi procurar. “Andava com as ovelhas”, diz, como que justificando a sua ausência à chegada de visitas. Mas o trabalho do monte não pode esperar e as ovelhas têm que beber, por isso, depois de uma breve conversa, ruma em direção ao poço, a quase um quilómetro da casa, e à força de braços vai enchendo recipientes que servirão quer para a rega das hortas (que nascem em pequenos socalcos e distantes umas das outras), quer para matar a sede aos animais.
Não existe furo no monte, apenas poços, e apesar de terem um painel solar que alimenta a televisão e alguns candeeiros que reconfortam as noites mais escuras não tem potência para uma bomba do furo. E governam-se, conta a tia, “temos o poço”. 
Sair? Deixar o monte? Parece que nem querem entender a nossa pergunta. “É a nossa casa”, atira a mãe de Leonor, de 89 anos, mãe de três, também nascidos no monte. 


Telescola na serra Quem se lembra da escola, mas já com poucas crianças, é Maria Bárbara, mãe de três raparigas. “Quando a minha filha mais nova, que tem 23 anos, andava nesta escola, já só havia cinco alunos”, conta. A escola primária de Cabeceiras de Vale Queimado também recebeu a telescola, que, para quem não se lembra, era uma forma de ensino via televisão, que arrancou no nosso país em 1965. Pretendia ensinar crianças que vivessem em locais como a serra de Serpa, zonas rurais, mais isoladas e distantes, permitindo, com o acompanhamento de um monitor, a essas crianças, pelo menos o acesso à instrução primária. Mais tarde, nos anos oitenta, com o alargamento da rede de transportes, foi caindo em desuso. Contudo, ainda funcionou, noutros moldes, durante algum tempo.
Maria Bárbara conta que vive com o marido, em Cabeceiras de Vale Queimado, e, na casa ao lado, a cunhada. As filhas, as suas e as sobrinhas, rumaram a sul, assim que puderam. Muitos dos nascidos e criados na serra de Serpa vivem hoje no Algarve. Quase todas as famílias têm alguém naquela região, que acaba por abrir portas para a chegada de mais um. E pelo que nos contam, raros são os jovens que permanecem na serra, um território que ocupa cerca de quarenta por cento do concelho de Serpa. Parece que o isolamento, a falta de acessos e de condições, tem “fadado” várias gerações da serra para a emigração. Não é de hoje, nem de ontem, e está no sangue dos mais jovens quererem mais, procurarem o sonho fora do ninho. Já em 1911 um grande número de pessoas da serra rumou ao Havai, à procura do sonho. O tempo apagou da memória de muitos esta época, mas também é verdade que trouxe novas comodidades, mas não as suficientes para fixar à terra as novas gerações.


Rumar contra a maré
A remar contra a maré está Patrícia Silvestre. Aos 34 anos, com dois filhos, quer continuar a ter a serra de Serpa como sua casa. A sua família é natural de Vale do Poço, uma localidade serrenha onde conseguimos encontrar dois cafés, ambos abertos e a funcionar. Vale do Poço, Santa Iria (onde se vive sem rede de telemóvel) e Vales Mortos são alguns dos maiores aglomerados existentes na serra.
Patrícia vive agora no Monte Novo João de Moura, à beira do alcatrão, onde construiu uma casa. Tem como vizinha a sogra, a senhora que nos levou ao Monte da Chaminé. Formada em Serviço Social, trabalha atualmente em Mértola. O filho mais velho, atualmente no terceiro ano, frequenta a escola de Vales Mortos e o mais pequeno irá em setembro para o pré-escolar. Faz, todos os dias, 13 quilómetros de sua casa até à escola e congratula-se por já haver prolongamento nesta escola, o que permite que vá buscar o filho até as 17 e 30 horas, isto porque houve alturas em que não era assim. 
A Câmara Municipal de Serpa, durante o ano letivo agora findo, realizou o transporte escolar de 22 crianças da serra de Serpa, distribuídos por cinco circuitos. Destas, oito foram transportadas ou para a escola básica ou para o pré-escolar, oferta disponível em Vales Mortos. As restantes 16 frequentam a EB 2, 3 Abade Correia da Serra, a secundária de Serpa ou a escola profissional.
No seu caso, apesar de estar a trabalhar, tem consciência de que ruma contra a maré. A serra é a sua casa e quer permanecer e por isso está a apostar numa ideia de negócio para complementar a atividade do marido que é agricultor. “Algo ligado à transformação”, para rentabilizar e diferenciar o produto.
“Temos muita qualidade de vida, mas há muitos condicionantes. Estamos longe de tudo e tudo tem custos”, lamenta Patrícia Silvestre, referindo-se às constantes deslocações por caminhos e estradas esburacadas. E este é um dos motivos apontados para a saída de muitos dos amigos da sua geração. “Sair daqui é o que toda a gente faz. Não me recordo de nenhum licenciado ainda a viver aqui. Da minha geração, foram muito poucos os que ficaram. Lutamos, lutamos e temos muito mais dificuldades”. Contudo, refere que tem-se vindo a notar o regresso de alguns casais.
Vários são os montes desabitados e em ruínas, mas também há muitos que foram vendidos e reconstruídos. São agora habitados por pessoas de fora e estrangeiros que escolheram o sossego para viver.


Associação de moradores
Em janeiro deste ano nasceu na serra de Serpa uma nova associação. A Associação de Moradores da Neta e Pulo do Lobo. João Afonso (Monte do Barranco) e Joaquim Falé (Monte Vale do Linho) são dois dos elementos desta associação e ambos moram em montes não eletrificados. Neste momento são 29 as casas habitadas que não têm luz, exatamente o número de associados. “O objetivo da criação desta associação é conseguir eletrificar os montes que ainda não têm luz, ao mesmo tempo que tentaremos criar melhores condições para quem lá vive, por exemplo, ao nível do arranjo de caminhos rurais”, diz João Afonso.
“É uma zona muito desfavorecida, que precisa de um empurrão, porque ainda se vive na serra como se vivia há 50 anos”, conta. “As pessoas da serra não têm meios. Vivem de uma pequena agricultura de sobrevivência e, por elas próprias nunca poderiam instalar um PT [posto de transformação] na sua propriedade, porque não têm recursos”.
Joaquim Falé conta que “a associação já fez um levantamento de todos os montes que ainda não têm luz elétrica. Batemos a todas as portas e falámos com todos os moradores”. Remeteram para a EDP este levantamento, acompanhado de um pedido de orçamento. A EDP, por seu lado, já fez “o trabalho de campo”. Andou na serra e confirmou os dados da associação, e a qualquer momento deverá enviar um orçamento. A associação acredita que todos juntos, constituídos enquanto associação, podem conseguir mais e melhor para a serra.
Pretendem realizar várias iniciativas com a população, sendo que para já querem fazer uma sardinhada, na zona do Pulo do Lobo. Caminhadas, passeios pela natureza ou mostrar o Pulo do Lobo como é visto pelos locais são algumas das ideias desta associação, de forma a dinamizar quer a associação, quer a vida destes homens e mulheres que vivem quase que à margem do que se passa no resto do concelho.
“A serra não é só o Pulo do Lobo”, diz Joaquim Falé, acrescentando que a Câmara de Serpa tem consciência deste isolamento e deste desfavorecimento. Exemplo dessa preocupação com a população da serra é o alcatroamento recente de um troco de seis quilómetros (em terra batida) entre Serpa e São Brás e que faz com que os locais evitem mais 15 quilómetros de caminho até à sede de concelho. 


Plano de Ação da Serra de Serpa

A Câmara Municipal de Serpa aprovou recentemente o Plano de Ação para a Serra de Serpa. Tomé Pires, presidente da autarquia, em declarações ao “Diário do Alentejo”, justifica a sua existência pelo facto de “praticamente toda a zona da serra não está inserida na zona de regadio de Alqueva (…) onde quase só pode produzir em sequeiro, levou-nos a intensificar algumas ações”, com a preocupação de que dotar com mais-valias uma zona mais desfavorecida que o restante concelho, servido pela água de Alqueva. Trata-se de um documento “inacabado”, que ainda não está fechado e que a qualquer momento pode ser acrescentado, com o objetivo de “articular todas as ações” já realizadas e ainda por realizar, para potenciar este território, dando melhores condições a quem lá mora, a quem quer visitar a zona e a quem lá produz. Terraplanagens, asfaltamento, marcações de vias, colocação de rails de proteção e sinalética vertical são algumas das intervenções que a câmara tem estado a realizar e que fazem parte do plano, no sentido de melhorar as condições de circulação viária e atenuando o isolamento das populações. De acordo com Tomé Pires, depois do asfaltamento desta últimas duas estradas (entre Serpa e São Brás e entre São Marcos e Corte da Azinha), “fechamos a rede de estradas municipais, todas em asfalto”. Ao nível do turismo, uma das apostas sublinhada pelo autarca prende-se com a criação dos passadiços do Pulo do Lobo. Um investimento de quase meio milhão de euros, já candidatado e aprovado. Potenciar o desenvolvimento económico, bem como outras dinâmicas, estão no cerne das atividades da autarquia na serra e Tomé Pires conta que, depois de apresentada a ideia, a Câmara de Serpa já recebeu vários pedidos de informação e manifestação de interesse de pessoas da zona, para avançar com projetos na área do turismo. Um deste projetos poderá vir a ser a criação de um centro hípico que uma cidadã suíça, instalada num dos monte da zona, quer desenvolver. Mas um parque de autocaravanas e um restaurante podem ser outras ideias a implantar na zona. A questão social e cultural também não foi esquecida e, entre outras atividades já em marcha, a autarquia pretende criar uma nova feira temática da serra de Serpa, com o objetivo de divulgar os produtos e sabores da serra. Para já ainda não são conhecidos pormenores, nem o local onde se irá realizar.




 
 
 
 
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