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Falta uma gramática, um dicionário e empenhamento político para fazer nascer uma nova língua
 
16-06-2017 10:45:41
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María Victoria Navas é uma das principais especialistas em linguística hispânica. Professora titular da Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid, descobriu o falar barranquenho, por indicação do professor Lindley Cintra, enquanto procurava inspiração para a sua tese de doutoramento. Corria a década de 80 e, desde então, não mais deixou de estudar este e muitos outros fenómenos sociolinguísticos que sobrevivem nas margens das ditas “grandes” línguas. No passado dia 2 de junho regressou a Barrancos para abrir um congresso internacional sobre o barranquenho enquanto ponte entre línguas e culturas. E deixou bem vincada a ideia que esta será a quarta língua oficial em território nacional, a par do português, do mirandês e da língua gestual portuguesa.

Texto Paulo Barriga Fotos José Ferrolho

Quando falamos de barranquenho, estamos a falar verdadeiramente de uma língua ou de um “desvio” linguístico?

Cada vez mais se utiliza o termo “língua” para designar toda a variedade linguística. Já o dialeto, hoje em dia, está conotado com uma língua subordinada a uma outra. Uma espécie de filha de outra língua, se isto se pode dizer assim. Achamos que o barranquenho não é filho do português, porque os portugueses não percebem o barranquenho, e também não podemos dizer que é filho do castelhano, porque os espanhóis também não percebem o barranquenho. A proposta que neste momento estamos a defender é que o barranquenho é uma língua única, criada no espaço românico-europeu. Não há outra situação em que as línguas portuguesa e espanhola tenham criado uma nova língua.

Mesmo noutros locais da fronteira?
Não, não há nenhuma língua com estas características. Na serra de Gata, na fronteira de Cáceres com castelo Branco, em três terras diferentes, há uma língua a que chamam “a fala”, mas essa é de base galaico-portuguesa, não é espanhol com português.

Quer dizer que o barranquenho é mesmo um caso único no mundo?
Há outra língua semelhante na fronteira do Brasil com o Uruguai. Ali existem várias terras em que às vezes há uma estrada onde de um lado é Uruguai e do outro lado é Brasil. Aí, as pessoas falam a mesma coisa e há muitas características semelhantes ao que acontece aqui com o barranquenho.

Quando diz que os portugueses não entendem o barranquenho e que os espanhóis também não, essa situação poderá dever-se ao isolamento geográfico de Barrancos?
Claro, Barrancos até aos anos 30 não tinha estradas, tinha caminhos. O professor Leite de Vasconcelos veio cá estudar o barranquenho de burro, não havia estradas e a terra portuguesa mais próxima está a dezenas de quilómetros, enquanto Encinasola, em Espanha, está apenas a nove. Aliás, o padre vinha de Espanha dizer aqui a missa, hoje o médico vem de Encinasola porque o centro de saúde está fechado ao fim de semana… E, depois, houve a questão do contrabando e de tudo isso…

Não estamos, por conseguinte, a falar de uma espécie de “portunhol”?

Não, acho que “portunhol” é aquilo que eu estou agora a falar e que é assim uma mistura… Não, o barranquenho é mesmo uma língua com muitos traços do português antigo e que coincidem com o espanhol contemporâneo…

Bem sei que a comparação pode não ser a melhor, mas o barranquenho está mais próximo daquilo que é a língua atual portuguesa ou da castelhana?
Tem mais base portuguesa do que castelhana, porque eles, como no português, têm as vogais abertas e fechadas, o que no castelhano não existe, eles têm “je”, “ze”, que em castelhano não existe… Diria, talvez, que o barranquenho está mais próximo do português do que do castelhano. Do castelhano tem coisas morfossintáticas, muito vocabulário… Mas, fonética, tem mais portuguesa do que castelhana.

Neste momento estamos a falar de uma língua simplesmente fonética…

Ainda não tem escritura…

Os linguistas mais fundamentalistas consideram que não há uma língua sem uma gramática e sem um dicionário…

O barranquenho é uma língua que ainda não está normalizada, como aconteceu, por exemplo, com a evolução do português e do espanhol medieval. Em determinada altura, alguém definiu as normas, para que uns não falassem e escrevessem de uma maneira e outros de outra diferente. Temos de decidir qual a norma que vamos utilizar e isso ainda não está feito para Barrancos.

Está a sugerir que há essa intenção de o fazer?
Claro, é essa a nossa proposta.

Constituir a gramática do barranquenho?
Isso e um dicionário onde estejam refletidas as palavras em português e em espanhol e em barranquenho. E elaborar também uma recolha de todos os materiais de literatura oral que são muito ricos e que não são reconhecidos. Para o barranquenho ser uma língua precisa de uma gramática e de um dicionário, é evidente, e de uma ortografia, caso contrário continuará uma língua oral.

O barranquenho pode a médio prazo vir a ser quarta língua oficial em Portugal, depois do português, do mirandês e da língua gestual portuguesa?

Isso tem a ver com a política linguística. Vou-lhe contar o caso galego. Até ao final dos anos 90 o galego era um dialeto do português. A certa altura os galegos decidiram que queriam ser uma língua diferente, ainda por cima sabendo que a sua língua era a “mãe” do português. Então, como têm uma Junta Autónoma, decidiram mudar o rumo das coisas. É preciso vontade política, algum dinheiro e muita iniciativa para mexer nestas coisas. A língua é política. Por que é que o mirandês foi criada como uma língua? Porque houve uma decisão política. Havia o interesse das pessoas, claro, mas foi o poder político que tomou essa decisão.

Barrancos terá peso político suficiente para, de alguma forma, iniciar um processo desse género?

O representante da Unesco disse aqui [no congresso internacional “O Barranquenho: ponte entre línguas e culturas, passado, presente e futuro”] que aquela instituição está a tentar recuperar todas estas minorias linguísticas que existem no mundo. É um pouco como as águias e os linces em extinção. Há um certo custo, mas merece a pena recuperar para que não desapareça uma parte da nossa cultura e do nosso património.

O tema do congresso é a criação de pontes entre línguas e culturas. Acredita que línguas tão singulares como o barranquenho podem contribuir para aproximar as outras duas grandes línguas que o “sitiam”?
Sim, claro. A própria Comunidade Europeia está agora a promover cidades-fronteira. É o exemplo de Badajoz e de Elvas passarem a ser uma única cidade, como forma de eliminar as fronteiras… Penso que sim, o barranquenho também poderia caber nessa política europeia de eliminar fronteiras.


Da fala à escrita

É convicção generalizada entre os cientistas que no passado dia 2 de junho participaram no congresso internacional sobre o falar barranquenho que esta língua, até hoje apenas disseminada por via oral, corre “inegáveis” riscos de extinção. Maria Filomena Gonçalves, linguista e investigadora do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, reconhece que “a oralidade é importante e foi assim que a língua foi transmitida durante séculos”, no entanto, “a velocidade a que correm os tempos modernos, a mobilidade das pessoas, entre outros fatores, está a contribuir para o nivelamento linguístico”. Também no caso do barranquenho, reconhece Filomena Gonçalves, “estamos a assistir a um processo de desaparecimento muito rápido do património oral”.
Na opinião desta professora agregada do Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora, a língua barranquenha “não se salvaguarda apenas transmitindo dos avós para os filhos e dos pais para os netos, salvaguarda-se registando sob forma de escrita e, sem isso, não se chega a uma gramática, não se chega a um dicionário que, no caso barranquenho será naturalmente trilingue. Apenas fixando a língua em forma de escrita é que ela vai ter possibilidade de ser transmitida inclusivamente na escola”. Ou, por outras palavras, “é necessário tomar um conjunto de medidas de política linguística em que a comunidade local possa apoiar o trabalho dos investigadores no sentido de unir esforços para cumprir esse caminho e isso, evidentemente, trata-se de uma aposta política a nível local”.
Do lado dos cientistas da língua, como é o caso de Patrícia Amaral, doutorada em Linguística pela Universidade do Indiana e professora de Português naquela academia dos Estados Unidos da América, “a disponibilidade é total”. Diz esta investigadora que, em primeiro lugar, “é necessário estabelecer uma norma. É necessário decidir os termos ortográficos, como é que se vai escrever, qual o sistema da escrita. O que os linguistas fazem agora com o barranquenho é a transcrição fonética sempre dependente da tradição. Às vezes utiliza-se a ortografia do português e outras, a do castelhano… é urgente decidir como se vai fixar na escrita a língua barranquenha e esse é um trabalho que precisamos fazer”.
Quanto à autonomia da língua barranquenha, Patrícia Amaral não tem dúvidas: “O barranquenho é uma língua de contacto que tem uma série de características próprias porque foi gerada desse contacto entre o português e o castelhano. No entanto, é uma língua em si mesma, não é um dialeto português, nem um dialeto espanhol”. E é precisamente essa singularidade que faz com que o barranquenho tenha “todas as características de um sistema linguístico”. Para Patrícia Amaral nem se coloca a questão de discutir se estamos perante uma língua ou um dialeto: “A discussão está nas mãos dos falantes, do poder político, do poder social… e o que interessa é que o barranquenho funciona como uma língua plena, que permite a comunicação entre os seus falantes e é isso que interessa”. Aliás, é isso que está a interessar aos vários alunos de doutoramento e de mestrado da Universidade do Indiana estão atualmente a estudar o barranquenho.
Filipe Themudo Barata, titular da Cátedra Unesco em Património Imaterial e Saber-Fazer Tradicional, realça também as singularidades do barranquenho: “Chega a ser impressionante como eles mudam de língua com uma facilidade incrível” e a forma como, “entre eles, falam a sua língua, mas reivindicam a sua qualidade de portugueses que souberam construir este lado da sua identidade de uma forma simples e sem complexos”. Identidade que, refere o especialista, terá de ser classificada a nível nacional como Património Imaterial. E o resto virá por acréscimo.




 
 
 
 
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