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Desengano
 
23-03-2017 15:40:25
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Só sobrou uma palavra. É a última. Adeus. Já não tenho mais, para ti já não tenho mais. Sou absolutamente muda. Tinhas frio e eu inventava o verão, medo e eu inventava coragem, sede e eu inventava água, estavas cansado e eu inventava umas asas para te levar céus afora. Preferiste o inverno, preferiste a cobardia, preferiste não beber em mim, preferiste ir a pé para tão longe. Querias o meu corpo e eu dava-te o meu corpo, querias outras e eu dava-te o meu corpo, querias silêncio e eu dava-te silêncio, querias gritos e eu dava-te silêncio. Por isso, adeus. Sou inverno, tenho medo, tenho sede e estou cansada. Por isso, esta noite prendo o cabelo e solto-me de ti, já não vale a pena ficar a teu lado à espera de comer as migalhas do teu sorriso. Levo a minha dor fechada na boca, mato-a na boca e engulo-a. Não, não hás-de ouvir o meu amor a morrer, serei discreta, não chorarei, não chorarei. Já me nascem outras palavras no corpo, hão de ser flores, hão de ser flores. Levo a invenção de outros olhos que me vejam, de outras mãos que me tenham, de outra pele que me acenda, e se eu não disser nada, não é porque me faltem palavras, não é porque não tenha nada para dizer, é porque os lábios dele me estão a tapar a voz. E longe de ti, haverá uma outra língua a atravessar a fronteira dos meus dentes. Vítor Encarnação
 
 
 
 
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