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Nuno Sequeira: Estamos a “sacrificar o futuro do nosso país em termos agrícolas
 
17-03-2017 9:28:28
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O biólogo Nuno Sequeira, que é o membro da direção nacional da Quercos para o Alentejo, revela nesta entrevista estar “muito preocupado” com o avanço das manchas de olival intensivo, em especial na zona do regadio do Alqueva. Em causa, assegura o ambientalista, estão não apenas impactos negativos ao nível da contaminação dos solos e dos aquíferos devido aos agrotóxicos, mas também a própria saúde das populações rurais que está mais exposta a produtos potencialmente cancerígenos, como o glifosato. Um retrato em tons de negro.

Texto Paulo Barriga Foto José João Sá

Estamos a entrar na primavera, a estação onde a natureza costuma ser mais exuberante, não tarda está também aí o Dia Mundial da Árvore... A Quercus tem motivos para celebrar a floresta nos tempos que correm?
Aqui na região do Alentejo ainda temos uma floresta que, de uma forma geral, está bem conservada e que é constituída por espécies autóctones, essencialmente pelos montados de sobro e de azinho. Em outras regiões do País, nomea-damente no Centro e no Norte, não é assim e existem muitas zonas que estão completamente ocupadas por espécies exóticas, como é o caso do eucalipto, que traz problemas ambientais acrescidos e riscos maiores em relação aos fogos florestais, o que acaba também por afastar muito a população do interior.

Em termos florestais o Alentejo ainda é a das regiões mais preservadas do País?
Temos algumas zonas igualmente bem conservadas como Trás-os--Montes, o Alto Minho, o Gerês por exemplo, algumas zonas ali do Centro, mas ao nível de extensão sem dúvida que o Alentejo é a região onde conseguimos encontrar uma maior naturalidade ao nível da nossa floresta.

Então como observa este crescendo da plantação de olival, principalmente na área de regadio do Alqueva?

Estamos muito preocupados e já tínhamos feito saber à anterior ministra da Agricultura esta nossa preocupação. Na altura tinha-nos sido garantido que as quotas para a ocupação do olival intensivo já estariam no máximo. Agora, passados um ano e meio, dois anos, verificamos que o olival intensivo continua a alastrar-se no Alentejo. Preocupa-nos esta expansão porque ela é feita, em muitos casos, em prejuízo do olival tradicional, cujas variedades estão muito mais adaptadas ao nosso clima e não necessitam de água para a sua produção, empregam mais mão- -de-obra e acabam por fixar mais pessoas à terra. O olival intensivo é a antítese de tudo isso: necessita de mais água, exerce uma pressão enorme sobre o solo, que acaba por levar ao seu esgotamento, para além de utilizar altos níveis de produtos agrotóxicos, como os pesticidas, os herbicidas e os fungicidas, o que acaba por provocar a contaminação não só dos solos, como também dos aquíferos.

É notório que os agricultores estão atualmente a utilizar técnicas de plantação mais amigas do ambiente, nomeadamente em relação à mobilização dos solos...
Temos visto nos últimos dois ou três anos alguma melhoria de práticas, principalmente nos olivais que são mais visíveis, que se veem aí junto às estradas, aos caminhos... nalguns olivais percebe-se que há menos mobilização e há uma tentativa de deixar alguma vegetação espontânea nas entrelinhas, mas há muitos outros em que isso não acontece. Ainda hoje de manhã [10 de março] passei junto a um olival intensivo na zona de Avis onde estavam a fazer a gradagem numa zona com declive...

Não é necessário qualquer tipo de estudo de impacto ambiental específico para este tipo de culturas em Portugal?
Não é necessário haver qualquer tipo de avaliação de impacto ambiental para a instalação destas culturas. Quando são zonas onde efetivamente existem povoamentos de sobreiro ou de azinheira, tem de haver efetivamente um pedido para cortes, mas em todas as outras situações, estando as culturas homologadas e havendo uma vontade por parte dos vários ministérios da Agricultura em permitir o alargamento desta cultura, julgo que os planos que são apresentados às direções gerais de agricultura são aprovados, enfim…

Não há fiscalização?

Não a suficiente. Há apenas o compromisso de haver o respeito pelos regulamentos e pelas boas práticas na utilização de certos produtos. Mas os relatos que nós temos, sobretudo de pessoas que vivem ou que têm culturas nas margens desses olivais intensivos, é que efetivamente os tratamentos são muitíssimo agressivos e que as autoridades acabam por não atuar….

O que quer dizer com tratamentos “muitíssimo agressivos”?
Quando falamos, por exemplo, nos tratamentos para controlar as ervas das margens e das entrelinhas dos olivais, os herbicidas que são mais usados são à base de glifosato, que é o princípio ativo da maior parte dos herbicidas que estão a ser utilizados na agricultura...

Que é um produto que está neste momento na mira das autoridades europeias...  
Pois é, o Ministério da Agricul-tura condicionou muito a utilização deste produto em espaços públicos, contudo, na agricultura, nos olivais intensivos, ele continua a ser utilizado, apesar de, no ano passado, ter sido considerado potencialmente cancerígeno pela Organização Mundial de Saúde. Existem fortes evidências dos seus impactos nas populações humanas e é obviamente muito nefasto para a biodiversidade. Não só elimina as plantas mas também os insetos que estão na base das cadeias alimentares e, portanto, todos os animais vão sofrer daí para cima.

E ao nível da saúde humana?
É muito impactante e é preciso termos noção de que um dos maiores grupos de população onde há incidências de cancro é exatamente na população que tem atividade agrícola. Além disso, temos a utilização de vários outros pesticidas para combater as pragas que atingem o olival. Tudo isto é feito de uma forma, digamos, não curativa, mas preventiva e onde estes produtos são utilizados de uma forma muito corriqueira.

As populações mais relacionadas com a agricultura, mais ligadas ao campo, estão mais expostas a doenças cancerígenas devido ao contacto com o glifosato nestas plantações intensivas?
Sim, seguramente é uma hipótese que não podemos excluir a partir do momento em que o glifosato é considerado potencialmente cancerígeno. Há pessoas a trabalhar com esses produtos na agricultura e no olival intensivo e poderemos obviamente concluir que é uma hipótese que é plausível e até bastante provável.

Até que ponto estas práticas intensivas podem contribuir para a desertificação dos solos?
O nosso país enfrenta um sério risco de desertificação ao nível das propriedades físicas e químicas dos solos e este alastramento descontrolado do olival intensivo está a fazer com que esse fenómeno ainda se intensifique mais. Não podemos, com o objetivo de a cinco ou 10 anos duplicarmos a produção de olival, sacrificar o futuro do nosso país em termos agrícolas. E é esta a visão que nós achamos que falta aos nossos governantes, porque efetivamente já estamos a sofrer as consequências. Se não tomarmos medidas firmes para defendermos os nossos solos vamos ter riscos sérios daqui a 20, 30 anos, para conseguir produzir e garantir o abastecimento às nossas populações.

A Quercus é definitivamente contra a cultura do olival?
Para nós há duas realidades muito diferentes. O olival tradicional, que está integrado e convive com a nossa paisagem, com a nossa cultura, a nossa biodiversidade de há milhares de anos. É um olival, do ponto de vista ambiental, que desempenha funções importantes e que se integra neste mosaico paisagístico rico em termos de biodiversidade. Já os olivais intensivos utilizam variedades que não são as nossas, as regionais, e que foram selecionadas para produzir em quantidade, com espaçamentos muito curtos, para serem regadas e adubadas artificialmente... Tem de haver aqui qualquer coisa. Se durante milhares de anos os nossos antepassados cultivavam por hectare 100 ou 150 árvores e hoje em dia conseguimos plantar 1 500 árvores por hectare, alguma coisa há...

Então o que há, afinal?

Há é que é um olival perfeitamente artificial, que é regado artificialmente, que é alimentado artificialmente, que é tratado de forma totalmente artificial, que é altamente mecanizado, e tudo isso faz com que, do ponto de vista ambiental, do ponto de vista da biodiversidade, seja muitíssimo menos rico e traga muitos mais problemas do que o olival tradicional. Não podemos dizer que estes olivais intensivos do ponto de vista ambiental tragam mais-valias, pelo contrário, trazem impactos negativos que nos preocupam muito.


 
 
 
 
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