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Semanário Regionalista Independente - Director: João Matias - ANO LXXVI - Nº 1480 (II SÉRIE) - Sexta-Feira, 3 de Setembro de 2010
edição nº 1480
De 3 a 9 de Setembro de 2010


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Alqueva mudou o paradigma da arqueologia em Portugal

Intervencionadas com trabalhos arqueológicos, contam-se perto de 640 ocorrências patrimoniais no âmbito das obras do plano de rega, a decorrer desde 2002, um investimento que ronda os seis milhões de euros.

Texto Carla Ferreira
Foto José Serrano

O projecto de Alqueva e o considerável número de obras associadas à barragem, entre a sua construção e a execução do plano de rega (de 1996 até hoje), permitiram uma "mudança de paradigma" na arqueologia portuguesa, aportando novas perspectivas de actuação no que respeita à minimização de impactes sobre o património cultural. Eis uma das ideias fortes saídas do 4º Colóquio de Arqueologia do Alqueva, uma iniciativa organizada pela EDIA entre os últimos dias 24 e 26, com vista a um balanço sobre os trabalhos efectuados no âmbito do plano de rega, entre o ano de 2002 e a actualidade. Segundo Miguel Martinho, arqueólogo da empresa de Alqueva, o empreendimento e "o seu próprio volume de trabalhos em obra, obrigaram a redefinir estratégias de actuação, em termos de minimização de impactes, com um acompanhamento muito mais próximo e mais regular, o que de alguma forma veio trazer perspectivas novas sobre como actuar em obra, e como trabalhar numa lógica de arqueologia preventiva". Refira-se que a maior parte dos achados têm sido identificados em fase de obra, na sequência da abertura de valas e implantação de infra-estruturas, o que tem feito luz sobre estruturas e contextos arqueológicos não visíveis em prospecção de superfície. "Só uma actividade intrusiva poderia colocar à mostra estas estruturas", o que, por outro lado, confessou Miguel Martinho, não tem deixado de acarretar "constrangimentos" às próprias empreitadas. "São intervenções que claramente condicionam as obras mas que não deixam de ser feitas. Como é óbvio, a EDIA sempre respeitou as boas práticas e sempre cumpriu aquilo que é a sua obrigação", garantiu.
Intervencionadas com trabalhos arqueológicos, contam-se perto de 640 ocorrências patrimoniais no âmbito das obras do plano de rega, a decorrer desde 2002, um investimento que ronda os seis milhões de euros. "E se considerarmos as intervenções ainda em Alqueva, na barragem, que rondam os oito milhões, estamos a falar num total de cerca de 14 milhões que a EDIA já investiu até à data em património cultural, nas vertentes de minimização de impactes, divulgação e valorização", acrescentou o responsável, fazendo o balanço destes três dias de comunicações, que reuniram perto de 220 especialistas em torno de quatro compartimentos cronológicos: pré-história recente, proto-história, época romana e época tardo-romana/medieval.
Outro dado importante que ressalta das intervenções promovidas pela EDIA ao longo destes 14 anos é "a nova visão que emergiu sobre o que foi a ocupação humana neste território do empreendimento de fins múltiplos de Alqueva, o que veio de alguma forma mexer com os conceitos já conhecidos no que respeita à ocupação do espaço em várias épocas", sublinhou também o arqueólogo. De todas elas, a pré-história recente impõe-se como o período que tem suscitado maiores surpresas e implicado maiores intervenções arqueológicas.

Duas novas publicações ainda este ano

Quanto à valorização e divulgação do património descoberto, a EDIA têm assumido o seu papel através além da realização dos colóquios de arqueologia (o último decorreu em 2001, em torno da minimização de impactes na área a submergir pela albufeira de Alqueva), das exposições e das publicações. Exemplo disso é a mostra "Vinha das Caliças 4 - O lento despertar", inaugurada a 24 na galeria de exposições da EDIA, que reúne vestígios encontrados numa intervenção em Beringel (Beja), datados da Idade do Ferro, e que se justificou pela "relevância científica do sítio e pelo espólio que é, sem dúvida, ímpar, embora houvesse muitos outros por onde escolher", informou Miguel Martinho. Quanto às publicações, prevê-se a conclusão de duas ainda este ano. Uma sobre o Castelo da Lousa, que está a ser preparada em parceria com o Museu Nacional de Arte Romana, em Mérida, Espanha; a outra, sobre o Castro dos Ratinhos, que está a ser organizada em colaboração com o Museu Nacional de Arqueologia e com a Câmara Municipal de Moura. Em torno da barragem do Alqueva, há ainda uma série de monografias que estão a ser preparadas em colaboração com a Direcção Regional de Cultura do Alentejo. 


05/03/2010 - 10h43


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