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Semanário Regionalista Independente - Director: João Matias - ANO LXXVI - Nº 1480 (II SÉRIE) - Sexta-Feira, 3 de Setembro de 2010
edição nº 1480
De 3 a 9 de Setembro de 2010


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Alentejo Ilustrado



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Improvisos sobre música sacra medieval e renascentista

José Bruto da Costa


Se intuitivamente conhecemos a música, dificilmente encontraremos uma definição que abarque todos os seus significados. Na essência, música é a combinação de sons e de silêncios, numa sequência simultânea que se desenvolve ao longo do tempo, destinada a ser percepcionada pela audição. Mas, se existem múltiplas definições de som e música, partindo de critérios históricos e geográficos distintos, bem como pelos sentidos que lhe são atribuídos, a cultura ocidental assentou concretamente o seu entendimento de música num dualismo "corpo-mente" típico do racionalismo cartesiano.
É nesta linha de ideias que alguns autores falam de "música de ouvido", associada ao campo, ao folclore, potencializando uma ligação espiritual e corporal do ouvinte, através da dança e do canto comunitário, e de "música de olho", urbana, marcada pelos símbolos da sua escrita, a notação musical, bem como pela constituição artificial de um sistema de afinação temperada, um discurso imanente em que o ouvinte assume uma atitude contemplativa que o impede de participar corporalmente.
O concerto do Mário Franco Ensemble é, uma longa diagonal entre a "música de olho" e a "música de ouvido", entre um universo musical marcadamente religioso e um outro "jazzístico", numa fusão cheia de contemporaneidade - uma visão pessoal dos artistas envolvidos, percorrendo longo caminho entre o medievo ibérico e os nossos dias. Ora o som é mutação e a música é som no tempo. Qualquer "performance" de música do século XV no século XXI ou de "música de olho" por "músicos de ouvido" será sempre uma reinterpretação. E ao reinterpretar a "matéria musical", cria-se. É uma luz perpétua.
Monumental cancioneiro da literatura galaico-portuguesa, as "Cantigas de Santa Maria" foram coligidas sob o patrocínio do rei Afonso X de Leão e Castela (1221-1284), figura impar da história ibérica, pelo fomento da actividade cultural e, particularmente, pela revitalização da "Escola de Tradutores" de Toledo. Eruditos cristãos, judeus e muçulmanos verteram aqui, para o latim e o castelhano, obras fundamentais da cultura árabe e hebraica, o que constituiu um dos pilares essenciais do renascimento científico europeu.
Descrevendo milagres ocorridos graças à intervenção da Santa Dama ou enaltecendo o seu papel de mãe dos crentes, as "Cantigas" constituem uma antologia da métrica poética medieval e um fiel repositório das influências musicais ibéricas deste período: o cantochão hispano-aquitânico, o discurso musical de tradição trovadoresca e a música do Al-Andalus. A cantiga "Pero que seja gente" narra a vitória do rei de Marraqueche sob os auspícios da Virgem, derrotando um poderoso exército que sitiara a cidade.
Compositor cimeiro do Renascimento ibérico, Pedro de Escobar nasceu em 1465 no Porto. Tendo entrado ao serviço da capela real de Isabel I de Castela, a Católica, em 1489, aí permaneceu dez anos. Em 1521 tornou-se mestre de capela do cardeal-infante D. Afonso, bispo de Évora. Autor do primeiro "Requiem" composto na Península, protagonizou, segundo Vieira Nery, a generalização da polifonia nas catedrais de Portugal, mediante uma associação simbólica do imponente estilo musical e da representação pública do poder da Igreja e da aristocracia.
Nascido em Fronteira em 1566, Frei Manuel Cardoso é um dos nomes maiores da música portuguesa do século XVII, a par de Duarte Lobo e Filipe de Magalhães. Tendo estudado na Claustra da Sé de Évora, com Manuel Mendes, tomou votos na Ordem dos Carmelitas, em 1589, e permaneceu grande parte da sua vida enclausurado no convento do Carmo, em Lisboa, onde viria a morrer em 1650. Tido em vida como um dos compositores mais importantes da sua geração, usufruiu do mecenato de D. Filipe III e, mais ainda, de D. João IV, de quem foi amigo.
Verdadeiro itinerário pelo mundo da música popular portuguesa, o Cancioneiro Popular Português (1981), de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, é uma das poucas obras publicadas no nosso país que reproduz fielmente as tradições de um povo. Corso de nascimento, Giacometti fixou-se em Portugal em 1959. Tendo fundado os "Arquivos Sonoros Portugueses" em 1960, percorreu todo o País nas décadas seguintes, recolhendo canções de berço e toadas ao redor da morte, cantigas de noivado e casamento, cantos de trabalho, cantigas e danças para as festas e arraiais, canções de bem-querer e mal dizer, um esforço que deu origem a um valiosíssimo espólio, fundamental para o conhecimento da nossa identidade musical.


05/02/2010 - 10h48


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