Ana Santos texto Sofia Perestrello, Nicola di Nunzio e Rodrigo César fotos
Quando em outras regiões do País se torna cada vez mais difícil ouvir música de qualidade - mesmo a nascida para a liturgia e a devoção - em espaços de culto, no Baixo Alentejo um festival de música sacra está a fazer com que as igrejas do seu território sejam cada vez mais procuradas. Será um fenómeno "contra-corrente"? Talvez, mas não só. Ao atingir a 6.ª edição, o Festival Terras sem Sombra, promovido pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja (DPHA) e pela Arte das Musas, com a colaboração do Ministério da Cultura, dos municípios dos concelhos visitados e da Delta, conseguiu já atingir um patamar nacional, sem esquecer uma decidida piscadela de olhos à vizinha Espanha, de onde vem parte do seu público.
Ao passo que no Norte e no Centro de Portugal alguns ciclos de música religiosa viram fechar-se-lhes as portas dos templos, sendo atirados para salas de espectáculo, ou extinguiram-se, à míngua de apoios e, inclusivamente, de espectadores, no Alentejo meridional passa-se o contrário. Como explicá-lo? Para José António Falcão, director do DPHA e um dos responsáveis pela programação do Festival, o segredo reside na grande paixão dos alentejanos pela música. Mas a excelência dos monumentos escolhidos, que unem o interesse cultural a notáveis condições acústicas, dá uma ajuda importante, assim como a escolha de repertórios e intérpretes. Filipe Faria, da Arte das Musas, por seu turno, salienta o cuidado que é posto na coerência artística do Festival, desde a selecção do tema-base de cada ano até ao acolhimento dos visitantes.
O fio condutor da iniciativa parte, antes de mais, do diálogo entre a música e a atmosfera dos locais eleitos, ligando a dimensão histórica e estética a uma "alma". Walter Benjamin chamou-lhe o "espírito do lugar" e a expressão aplica-se bem às igrejas alentejanas. Seja-se crente, agnóstico ou ateu, os recintos sagrados deixam perceber uma vivência própria, carregada de memórias e identidades, que apela à introspecção, à paz, ao encontro de cada um consigo mesmo. Será por isso que os diferentes momentos do Festival acabem por ter sempre qualquer coisa de único. José António Falcão vê nisso, afinal, um reflexo de que a arte pode mudar o mundo, ajudando a torná-lo um sítio mais humano, belo e justo. Mas pode ir-se ainda mais longe, lembrando as palavras de Jordi Savall no concerto de abertura do Festival, em Santiago do Cacém, a 23 de Janeiro: "Quando a música é só estética, acaba-se em Auschwitz".
Este concerto trouxe à igreja matriz de Santiago mais de 700 espectadores, o que significa que o edifício provavelmente nunca esteve tão cheio desde o tempo em que, na Idade Média, aí afluíam os peregrinos para Compostela. A época, hoje, é muito distinta, mas o poder da música ajuda a trazer de novo, a um uso social mais lato, monumentos relegados a certo esquecimento. Dir-se-ia que, pouco a pouco, as velhas igrejas alentejanas, marca forte da região, saem da penumbra, dando também elas um contributo significativo para a sustentabilidade do turismo na zona. "Eis como a música se tem vindo a transformar na voz de um património esquecido", deixou escrito Savall no livro de honra do Festival. E é verdade, tendo em conta o percurso feito desde 2003.
Uma arte que se renova e desperta a atenção de novos públicos As actividades do Terras sem Sombra são todas de livre acesso, algo importante numa região ainda afastada dos grandes percursos culturais, centrados sobretudo em Lisboa e Porto. No Festival cada concerto é antecedido por uma palestra alusiva ao monumento em que tem lugar, de modo a que os espectadores se reencontrem com a história, a arte e a espiritualidade do lugar. Existe igualmente um programa de visitas guiadas, aspecto a ter em conta quando se pensa que algumas das igrejas abrangidas não estão usualmente abertas fora do período de culto - algumas, mais isoladas, encontram-se até fechadas em permanência.
"Associar música e igrejas históricas não é tarefa fácil, mas constitui um dos instrumentos mais eficientes de que dispomos para tornar a arte sacra acessível ao grande público", afirma José António Falcão. E acrescenta: "o nome do Festival prende-se com o título de um projecto que efectuámos entre 2001 e 2006 para o resgate de alguns dos principais monumentos religiosos do Baixo Alentejo; o apoio comunitário cumpriu o seu papel e foi-se há muito, mas perduraram a designação e o desígnio, pois há que assumir um sentido de continuidade."
Filipe Faria tem a seu cargo, além dos aspectos logísticos, a definição do rumo pedagógico do Terras sem Sombra como "pequena história da música". De facto, cada edição corresponde a um novo capítulo da herança musical sacro-religiosa, aqui entendida de forma aberta, sem escamotear paralelismos com o presente. "Respeitando uma linha de fundo, não hesitamos em aproximar a música do passado da criação contemporânea, não há, nem pode haver fronteiras definidas neste campo; a música é só uma", sublinha.
"Os próprios contornos do que é sacro e do que é profano acabam por confundir-se frequentemente, a grande música visa sempre a exaltação do que há de mais fundo e mais tocante no ser humano", contrapõe José António Falcão. Seja como for, estão sempre presentes as preocupações de equilíbrio artístico, sem esquecer que se está a trabalhar para um público alargado, pondo de lado visões elitistas. O Festival é uma escada cujos degraus são para subir devagar, com suavidade, para se fruir o encontro do melhor do património regional com o melhor da arte dos sons.
Música sacra em Castro Verde: a tradição polifónica ao som de Jazz Band O segundo concerto de 2010 terá lugar na Basílica Real de Castro Verde, a 6 de Fevereiro, pelas 21.30 horas, com o Mário Franco Ensemble. Este dispositivo, formado por Raquel Alão (soprano), Inês Moz Caldas e António Carrilho (flautas de bisel), João Paulo Esteves da Silva (acordeão), Mário Franco (contrabaixo) e Rui Silva (percussões), é responsável por alguns dos mais brilhantes cruzamentos entre repertórios clássicos e da tradição popular com musicalidades dos nossos dias. Em Castro Verde irá revisitar obras de Fr. Manuel Cardoso, Pedro Escobar, Afonso X, o Sábio, e do cancioneiro popular português. A qualidade dos músicos e a diversidade das peças escolhidas prometem fazer do concerto um dos momentos altos do Festival.
Mário Franco é uma figura de referência do panorama musical português. Iniciou a formação artística aos quatro anos no Instituto Gregoriano de Lisboa. Posteriormente, na Academia de Amadores de Musica, estudou Contrabaixo com Fernando Flores e Composição com Pedro Rocha. Mais tarde fez parte da Orquestra Sinfónica Juvenil, dirigida por Christopher Bochmann. Trabalhou também com os maestros Silva Pereira, Roberto Perez e Michel Swierczewski.
O propósito de alargar a experiência na música improvisada levou-o a tocar entre 1985 e 1987 com Paula e Miguel Azguime no Miso Ensemble. Foi também aluno da escola do Hot Clube de Portugal, tocando com mestres como Rufus Reid, Niels Henning Orsted Peterson e Eberhard Weber. Fez parte de diversas formações na área do Jazz com António Pinho Vargas, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, entre outros.
Franco colabora periodicamente com Pedro Caldeira Cabral no repertório para a guitarra portuguesa desde o século XVI até aos nossos dias. Trabalhou ainda com Uxia, Eugénia Melo e Castro, Fernando Tordo, Vitorino, Lura e António Chaínho. Nos últimos anos compôs para teatro e dança. Paralelamente à carreira musical, é bailarino da Companhia Nacional de Bailado desde 1986.