No recinto recém-estreado, o espaço é mais desafogado e as condições de segurança e salubridade são inquestionavelmente melhores. Mas, concordam feirantes e clientes, houve algo que se perdeu.
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Texto Carla Ferreira
Foto José Serrano
Com a mudança para o novo Parque de Feiras e Exposições de Alvito, a secular Feira dos Santos, que cumpriu a sua última edição entre os dias 30 de Outubro e 1 de Novembro, deixa o estatuto de última feira franca do Baixo Alentejo que ainda mantinha um perfil próximo da sua origem medieval. Para trás, no centro da vila, ficaram este ano o largo das Alcaçarias, o Rossio e a praça da República, onde se acotovelavam visitantes de várias proveniências e se misturavam os cheiros de castanhas assadas e batatas doces, cozidas ali mesmo. No recinto novo, recém-estreado, junto à entrada Sul e bem próximo da igreja de Santo António, o espaço é mais desafogado e as condições de segurança e salubridade são inquestionavelmente melhores. Mas, concordam feirantes e clientes, houve algo que se perdeu. E não foi só o poder de compra ou a vontade de encher sacos de roupa e calçado quentes num Outono que ainda parece Verão.
Josefa Rodrigues, barranquenha a residir em Évora, vende calçado na Feira dos Santos há já 10 anos. No centro da vila ficava "ao pé da capelinha" e ocupava um espaço de 13 metros quadrados. "Agora tenho oito, estou muito encolhida", queixa-se, mas reconhece que "as condições são melhores" e que a maioria das feiras já fez esta alteração para evitar transtornos às portas dos residentes. Contudo, "era muito mais bonito, tinha outra vista", recorda, convicta de que com o tempo irá habituar-se ao novo cenário. Mais abaixo, na mesma rua, Américo Espiguinha, comerciante de peles de fabrico próprio, vindo de Elvas, diz que quer ver para crer. "É uma coisa que está em experiência, para a organização e para nós também. A tradição era lá dentro da vila. Entenderam que haveria de ser cá fora. Pode ser que se faça, que as pessoas venham...", diz esperançoso, ele que já tem seis anos de vendas na Feira dos Santos. Mas há uma observação que pode desde logo adiantar, antes mesmo do fim da feira: "Não há dúvida nenhuma de que o espaço é melhor, o problema é que está mal organizado, não há uma arrumação por sectores. O artesanato, por exemplo, está todo disperso: vergas ali, peles aqui, madeiras noutro lado".
Ao fim da manhã de sábado, há quem já tenha completado o circuito pelo novo recinto. Subindo em direcção à saída, carregadas de sacos, as amigas Maria Amélia Castro e Brito e Maria Olímpia Formigo elencam vantagens mas não escondem saudades da feira antiga, que visitam há anos. Se é verdade que desapareceram as "confusões de trânsito", também é certo que este recinto "tem menos coisas, os preços estão mais caros, e perdeu aquela componente rural, bucólica", considera Maria Amélia. A mourense Maria Olímpia entende o lado de quem mora no centro de Alvito mas não pode deixar de concordar com a amiga. "Embora aqui andemos mais à vontade, o tradicional é sempre melhor, tem outro sabor. Preferia a feira no seu sítio original, da mesma maneira que em Moura ficava muito mais bonito", diz.
Pôr fim à "anarquia" dentro da vila
Da parte da organização, há a clara consciência de que este seria um "ano de transição" e que as críticas não se fariam esperar. Mas era uma alteração que se impunha tendo em conta a "anarquia" que se instalava no centro de Alvito "antes, durante e depois do período da feira". Dina Monteiro, técnica do sector de turismo na câmara municipal local, lembra, a título de exemplo, as "utilizações abusivas" quer das vias, quer dos próprios monumentos, a distribuição caótica de barracas e o facto de não estarem asseguradas condições de segurança. "No meio da povoação, se ali acontecesse um incêndio, por exemplo, seria bastante difícil o acesso a um carro de bombeiros", sublinha a responsável, lembrando também a impossibilidade de realizar visitas guiadas aos principais monumentos, completamente cercados por esses dias. "A feira foi ficando cada vez maior e não havia já controle", resume Dina Monteiro registando também "uma maior adesão" aos espectáculos musicais, justamente "por haver este ano um espaço próprio para esse fim", a Tenda Multiusos.
Há cinco séculos a celebrar o final e o início de mais um ano agrícola, além da data religiosa que lhe dá nome, a Feira dos Santos não acabou, nem se prevê que acabe, como vaticinaram alguns. "Temos é que reinventar a feira e dotar as tradições de novas linguagens que têm a ver com o século XXI". Será esta a tarefa, conclui Dina Monteiro, dos técnicos e do novo executivo, que tomou posse na segunda-feira, 2, ao longo dos próximos anos.

06/11/2009 - 10h14