A greve dos correios de 1917 (III)
O "Diário de Notícias" do dia 2 de Setembro, logo na sua primeira página, dá conta da mobilização geral e informa em título que "a direcção geral dos correios e telegrafos funciona junto do ministerio da guerra e todos os empregados fazem parte do exercito." Com o subtítulo "as providências do governo", transcreve o decreto (3:327) e a portaria que o regulamente (1:078) que mobilizou toda a classe telegrafo-postal. Metade da espaço dedicado a esta notícia vem em branco, foi sujeita a censura prévia e na redacção não houve tempo (ou não se quis) eliminar o espaço censurado. Este mesmo jornal, transcrevendo o decreto de mobilização, dá conta que o senhor "major Luís Galhardo, chefe de uma das repartições do ministerio da guerra, reuniu o pessoal numa das dependências da Arcada onde funcionam aqueles serviços e leu-lhes o decreto e a portaria, que não agradaram aos ouvintes." Pelo seu notório interesse, continuamos com a transcrição: (...) "estabelecido assim um rigoroso serviço de ordem nas embocaduras das ruas do Ouro e do Arsenal, os empregados telegrafico-postaes que estavam no edifício foram intimados a sair para o meio das forças, podendo ficar aqueles que quizessem retomar o trabalho. Pouco depois, uma leva numerosa, em meio da força militar, seguiu em direcção ao Arsenal da marinha, constando que iam todos seguir para bordo dos vários navios da divisão naval. Procedendo-se da mesma forma com os empregados que se encontravam nas repartições das encomendas postaes, que tiveram o mesmo destino, depois de intimados a sair pelo chefe Alves Dias, da esquadra da rua do Comercio, as forças militares abandonaram o Terreiro do Paço, onde ficou apenas a cavalaria policiando o recinto e a infantaria da guarda republicana guardando as dependências dos correios e telegrafos, ficando ali apenas os encarregados de serviço. Os correios e boletineiros tinham saído em grande número para irem almoçar, motivo por que só poucos foram presos. O número total das prisões foi de 345, contando-se entre os presos chefes, sub-chefes e aspirantes das várias secções do correio. Algumas forças se dirigiram depois para a rua Alves Correia, onde fica a administração geral dos correios, mas não efectuaram prisões, por estarem ali apenas o director sr. João de Almeida Pessanha, e mais pessoal superior. Os presos deram entrada no Arsenal pela porta da capitania do porto, tendo sido levados para bordo da fragata ‘D. Fernando' nos quatro vapores que ali fazem serviço. A condução foi superiormente dirigida pelo sub-director do Arsenal, capitão de mar e guerra sr. Francisco Aníbal Oliver. Depois do pessoal se encontrar todo no Arsenal, seguiram para ali por ordem do major Galhardo, o capitão Daniel de Matos, o director da exploração postal Mouzinho de Albuquerque, o director geral dos correios Adalberto Veiga e o director da exploração João Pereira, para inquirirem do pessoal detido se queria retomar o serviço. Responderam todos unanimemente que não queriam, pelo que foram metidos então nos barcos que os levaram para bordo. O pessoal dos correios foi em três levas e o das encomendas postaes em uma, dando pelo trajecto vivas à greve. Depois das prisões, o conselho de ministros voltou a reunir. Depois das 16 horas, os presos foram removidos da fragata ‘D. Fernando' para o transporte de guerra ‘Lourenço Marques'. Na associação do pessoal dos correios e telegrafos, na rua Eugénio dos Santos, nada se passou, conservando-se sempre fechada. No edifício da administração compareceu à abertura dos serviços algum pessoal, vindo pouco depois uma comissão de grevistas pedir a sua adesão. Quasi todo o pessoal retirou, sendo poucos os empregados que ouviram depois a leitura do decreto e da portaria feita pelo major sr. Galhardo. Entretanto funcionaram até às 13 horas a tesouraria e a caixa dos vales." No dia 3, a greve ainda é motivo de manchete no "Diário de Notícias". Este, na primeira página, em notícia amputada de parte do texto pela censura, informa em subtítulo que "nas estações centraes mobilizadas, vários elementos trabalham para restabelecer a normalidade." Dá-se conta que o serviço está a ser feito por muitos voluntários "não podendo os paes, tutores ou patrões impedir o desempenho d'este serviço, sob pena de procedimento criminal em estado de guerra." |