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Veterinários sem segredos


A senhora dos gatos

Adelaide vivia debaixo desse estigma. Era assim conhecida pela sua comunidade que tinha para com ela uma espécie de relação “desprezo-necessidade” (tal como a Geni do Zepelim), ou seja, na maior parte dos dias as pessoas referiam-se à sexagenária com algum despeito, comentando o cheiro que vinha do quintal, os problemas de saúde pública e a falta de juízo de que a senhora devia padecer. No entanto, quando alguém encontrava um gatinho, quer fosse jovem ou velhote era a solução invariável deixá-lo à porta da casa “daquela dos gatos”, como também era conhecida no bairro.
Nessas alturas Adelaide acolhia-o como se fosse o primeiro. Enternecia-a ver o bichano debilitado, às vezes apenas com uma fome de anteontem. Depois do recolher, banhava-o se tal fosse preciso, alimentava-o com um repasto especial e frequentemente o sentava ao colo durante o serão entretendo-se a catar-lhe as pulgas enquanto (ou)via a telenovela.
Depois, quando o bicho já estava restabelecido juntava-o ao grupo de outros 30 que tinha espalhados pela casa, quintal, garagem. Ela estabelecia as divisões, necessárias para manter uma paz respirável, ou seja, tinha que conseguir colocar em diferentes espaços físicos os brigões, os territoriais, as fêmeas em cio (longe dos namoros), os doentes nas zonas mais confortáveis da casa e os bichos-carpinteiros nos espaços exteriores. O dia começava bem cedo, para alimentar, tratar e, mais importante, mimar todos os seus bichinhos que conhecia e distinguia pelo nome e personalidade. Ainda que fossem 100, seriam certamente únicos e inconfundíveis. Gostava de todos, e na verdade havia-os para todos os gostos: mimalhas, independentes, dengosos, tímidos, invasivos, miões, maldispostos, plumas e pesos-pesados.
Os voluntários chegavam frequentemente. Vinham com vontade de salvar aquele mundo: faziam campanhas de adoção, levando cada um deles pelo menos um bichano para casa, angariavam comida, apadrinhavam, levavam ao veterinário. Mas ao fim de algum tempo partiam, com a sensação vazia de que nada tinha de facto mudado; em cinco que conquistavam uma nova casa, 10 eram deixados ali, abandonados à sorte da velha senhora. Adelaide estava habituada a estes fluxos de benfeitores, continuando agradecida tanto na sua chegada, como na hora da despedida.
A parca reforma era meticulosamente dividida para a alimentação e medicamentos da família, e obviamente não chegava para tudo, nomeadamente para as despesas médicas. Por isso, multiplicavam-se as “doenças de grupo”, que pareciam ter rastilho: FELV, FIV, PIF* e outras siglas que Adelaide ia conhecendo ao longo dos tempos. De vez em quando, tinha que fazer escolhas, as mais difíceis que se podem pedir a uma “mãe”, como sacrificar uma alma para proteger o grupo. Doía sempre. Para ela era como morrer e nascer de novo.
Ocasionalmente havia campanhas de esterilização, na maior parte das vezes financiadas por organizações de um qualquer país do Norte da Europa que vivia os dramas das “senhoras dos gatos” dos países do Sul.
Agora pare de ler e pense: Qual é a senhora dos gatos mais perto de mim?


*FELV – Vírus da Leucemia felina; 
FIV – Vírus da Imunodeficiência felina;
 PIF – Peritonite infeciosa felina



Isa Calado
Médica veterinária no Hospital Veterinário do Baixo Alentejo, em Beja












 
 
 
 
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