George Didi-Huberman
KKYM
PVP: 24 euros
256 págs.
Imagens apesar de tudo
Quatro fotografias tiradas clandestinamente por um membro dos sonderkommando (grupo de judeus prisioneiros que trabalhavam nos campos de extermínio nazis, encarregados da remoção dos corpos) motivaram a escrita de um ensaio, polémico, por Didi-Huberman, em que o historiador de arte e antropólogo francês afirma que é necessário imaginar o inferno que foi Auschwitz para poder conhecê-lo.
Imagens apesar de tudo divide-se em duas partes. A primeira é a do texto publicado originalmente no catálogo “Mémoires des camps. Photographies des camps de concentration et de extermination nazis (1933-1944)” e questiona a ideia dominante de que o holocausto é irrepresentável, que não pode ser pensado ou imaginado. As fortes críticas que esta questionação suscitou motivaram a reedição do texto complementada com uma segunda parte que é resposta às críticas que o ensaio gerou mas também uma reflexão sobre o conhecimento humano como montagem, à semelhança do que acontece no cinema. A imagem impõe-se, neste processo, como agitadora e dinamizadora do conhecimento.
A posição de Didi-Huberman é frágil – ou não fosse o grupo dos seus detratores defensor da posição sustentada por Claude Lanzmann, autor do extraordinário e doloroso inventário de memórias do Holocausto que é Shoah, que rejeitou o recurso à imagem de arquivo [não totalmente, na verdade] e o próprio Lanzmann afirmou como o inventário definitivo – mas absolutamente pertinente e bem argumentada. Se após o início da fixação, em imagens, do Holocausto consumado autores como Adorno declararam que a poesia se tinha tornado impossível, afirma-se hoje a urgência de devolver a humanidade aos que foram colocados fora da condição humana, pelo que Hannah Arendt chamou “a banalidade do mal”.
O autor não questiona a validade da palavra dita – sobre a qual foi construído Shoah – mas realça o poder das imagens como instantes de verdade, conforme a proposta de Walter Benjamin nas suas Teses da História. Não se trata de estetizar o horror – uma das acusações feitas a Didi-Huberman – mas de recuperar a imagem e o seu estatuto no âmbito do processo do conhecimento humano.
Maria do Carmo Piçarra