Marlene Ferraz
Gradiva
176 págs.
10 euros
A vida inútil de José HomemFoi, de facto, uma vida quase inútil a de José Homem. Já entrado na idade é um encontro com um menino a quem a guerra, em Angola, roubou a família e uma perna – uma perna por um balde de água, negociado, como outros bens de primeira necessidade, para sobreviver – que resgata a existência de Homem. Pouco amado pelo pai, militar, e por uma mãe demasiado cheia da sua infelicidade para cuidar dos sentimentos do filho, foi secando para a vida. Ainda teve um assomo de paixão por uma mulher-bailarina que lhe disse que não era ela senhora para ser amada mas a vida – ou antes, mais uma morte – afastou-o em definitivo de uma carreira militar que só escolhera para honrar o pai. Depois de ter desistido do amor, Homem dedicou-se a desmontar – vendendo volume a volume, peça a peça – a casa e a bilbioteca herdadas. Nisso gastou a vida sem se consumir nas relações humanas.
É, pois, um menino – um menino-ladrão só com uma perna – que muda tudo. E um padre, Delfim, que teima em revelar-lhe que o coração não secou e que ainda há tempo para arrepiar a conduta.
A vida inútil de José Homem, estreia no romance de uma psicóloga que é também uma contista premiada, Marlene Ferraz, ganhou o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa Luís. Ferraz, de quem se diz ter “os pés pousados em terras a norte”, compõe a intriga sem deixar de fazer a ponte com o realismo mágico. A escrita é fluída, com imagens reveladoras de um conhecimento das coisas da terra. O imaginário que compõe desvenda um olhar cuidado e atento sobre o mundo e o coração-cabeça dos homens.
Maria do Carmo Piçarra
Maria do Carmo Piçarra